Da Agência Bori. A educação permanente para profissionais que atuam na Atenção Primária à Saúde permite melhorar o serviço prestado através do aprendizado de novas ferramentas para a promoção da alimentação adequada e saudável. Essa prática é fundamental para medidas de cuidado à obesidade e de vigilância alimentar e nutricional da população. Em uma pesquisa inédita com profissionais de saúde da Paraíba, 70,4% relatam terem participado de alguma ação de educação permanente. Porém, mais da metade dos entrevistados aponta ausência de frequência definida dessas iniciativas, enquanto dois em cada dez sequer sabem a regularidade dessas capacitações.
As constatações estão em trabalho conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e publicado na Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde na sexta (29). O estudo foi realizado entre janeiro e junho de 2021, através de questionário eletrônico respondido por profissionais de saúde representantes de 487 unidades básicas de saúde em 168 municípios paraibanos. O cálculo amostral considerou o porte dos municípios para a seleção das unidades da atenção primária à saúde que seriam avaliadas. Os municípios foram classificados como capital (A), mais de 150 mil habitantes (B), 30 a 150 mil habitantes (C) e menos de 30 mil habitantes (D).
A frequência da implantação da linha de cuidado para sobrepeso e obesidade foi maior nas unidades em que os profissionais haviam participado da educação permanente, sobretudo nos municípios com menos de 30 mil habitantes (Porte D). Neles, a frequência da implantação da linha de cuidado em unidades com profissionais participantes da educação permanente foi de 88,3%.
O estudo também identificou que 86% das unidades que realizaram educação permanente também realizavam vigilância alimentar e nutricional – ou seja, a avaliação contínua dos padrões de consumo alimentar e do estado nutricional da população. Apesar disso, os pesquisadores apontam limitações: a vigilância é concentrada em grupos específicos, como crianças e gestantes atendidos pelo Bolsa Família, e os dados coletados são pouco utilizados para ações no território. Esse cenário compromete o cuidado integral de pessoas com obesidade em todas as idades, especialmente diante do avanço das doenças crônicas não transmissíveis. Essa realidade foi observada em municípios de todos os portes.
As ações de promoção da alimentação adequada e saudável mais realizadas pelas equipes de saúde foram as de caráter comunitário (56%) e em grupo (55%). As ações individuais foram menos frequentes, com 47% de realização. Essa proporção difere de estudos realizados em São Paulo, onde as ações individuais foram mais frequentes. “A Paraíba tem tradição em educação popular e movimento comunitário que podem influenciar nas escolhas das estratégias a serem realizadas nesse cuidado”, contextualiza Carla Campos Muniz Medeiros, professora do Programa de Pós-Graduação do Mestrado em Saúde Pública da UEPB e coautora do estudo.
Para Mônica Oliveira da Silva Simões, também professora do Programa de Pós-Graduação do Mestrado em Saúde Pública da UEPB e coautora do estudo, os gestores públicos devem investir em ações como inserir a educação permanente no plano municipal de saúde e na programação anual de saúde (PAS) e estabelecer cronogramas de periodicidade das ações. “Quando a educação permanente é atualizada e direcionada ao cuidado de pessoas com obesidade, ela deixa de ser uma ação isolada e passa a orientar todo o planejamento no território, com base em dados concretos da vigilância alimentar e nutricional. Isso significa superar a fragmentação e a descontinuidade, reconhecer a educação como parte do processo de trabalho e investir na formação dos profissionais como estratégia de cuidado”, destaca a especialista.

DOI: https://doi.org/10.1590/S2237-96222025v34e20240349.pt
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