(Imagem: senivpetro/Freepik)
Entre as tantas coisas que o paulistano precisa ter medo diariamente – dois caras numa moto, pedágio free flow, Testemunhas de Jeová te acordando às 8h da manhã em pleno domingo – um novo medo foi desbloqueado recentemente: a de morrer após beber uma caipirinha. Quem não vive embaixo de uma pedra sabe do problema recente que é a existência de bebidas “batizadas” com metanol. Mas o que é que tem de tão diferente nesse tal de metanol que mata pessoas e deixa sequelas graves numa velocidade muito mais rápida do que as bebidas alcoólicas liberadas?
Bora pra uma aulinha rápida de biologia.
No geral, tanto metanol (o que está matando as pessoas) quanto o etanol (aquilo que existe nas bebidas alcoólicas regulares) são um tipo de álcool. A olho nu, eles são basicamente iguais: ambos parecem um líquido transparente quando em temperatura ambiente. Eles também tem a mesma viscosidade e até mesmo o mesmo cheiro. E, quando presentes em uma mistura alcoólica (um drink ou uma bebida destilada como gin, vodka e cachaça) possuem até o mesmo gosto.
Apesar de não haver uma diferença facilmente identificada por qualquer pessoa, eles são muito diferentes em suas estruturas químicas. Enquanto o metanol é um composto conhecido pela fórmula CH3OH, a etanol tem uma formulação química de CH3CH2OH.
Mas essas três moléculas a mais (um carbono e dois hidrogênios) faz tanta diferença assim? Ô se faz! São essas três moléculas que representam a diferença entre um veneno “leve” que vai te deixar ligeiramente chapado como todo boa droga recreativa, e um veneno “pesado” que pode te matar em questão de dias – ou, na melhor das hipóteses, te cegar ou trazer sequelas graves aos sistema nervoso central.
(Imagem: divulgação/ND)
Como ambos os compostos são álcoois, assim que eles entram no organismo eles são rapidamente distribuídos para o corpo. Afinal, a molécula de álcool é solúvel em água, e isso permite o acesso rápido à corrente sanguínea. Neste ponto, tanto o metanol quanto o etanol trazem ao corpo o mesmo efeito que esperamos ao consumir uma bebida alcoólica.
O problema está na hora do fígado metabolizar essas substâncias para excretá-la do corpo. Enquanto 5% do álcool consumido é extraído de nosso organismo sem modificações, 90% dele é metabolizado pelo fígado. Este órgão tem como objetivo “quebrar” as moléculas de álcool, facilitando a eliminação dele pelo organismo.
E é aqui que começa o problema. Quando bebemos o álcool “certo” (etanol), nosso fígado efetua vários processos que transformam essas moléculas de álcool em acetato – também conhecido como ácido acético. Esta substância é a base daquilo que no mercado chamamos de “vinagre de álcool”.
Já quando bebemos o álcool “errado” (metanol), esses mesmos processos do fígado resultam em duas substâncias muito mais perigosas: formaldeído e ácido fórmico. A primeira é conhecida popularmente como “formol”, líquido usado para fazer a conservação de cadáveres e evitar a decomposição destes. Já a segunda é um composto usado principalmente no processamento de couro e como pesticida para ácaros.
Como você pode imaginar, o acetato é uma substância “inócua” para o corpo – afinal, a não ser que você tenha uma alergia específica a ele, não irá passar mal comendo vinagre. Mas, antes de virar acetato, o álcool do etanol se transforma em uma substância chamada acetaldeído – esta sim é tóxica, e é considerado como a responsável por todos aqueles efeitos indesejados da ressaca (dores de cabeça, sensibilidade à luz, náuseas, quem já tomou um porre sabe).
Mas, apesar de tóxica, o acetaldeído tem apenas presença “temporária” no organismo. Então, a não ser que o consumo de álcool seja muito maior do que o fígado consegue metabolizar, a curto prazo ele não causa danos muito mais perigosos do que uma dor de cabeça e a vontade de vomitar.
No caso do metanol, as duas substâncias geradas na metabolização pelo fígado são altamente tóxicas para o organismo. Enquanto o formol está diretamente ligado a diversos problemas pulmonares (asma, pneumonia, edema) e como causador de diversos tipos de câncer (nasofaringe, leucemia, pulmão e outros órgãos do sistema respiratório), o ácido fórmico pode corroer as células dos sistemas ocular e nervoso, causando desde cegueira até depressão do sistema nervoso central (começam como uma fraqueza e lentidão generalizada, mas podem levar ao coma e até à morte).
Ao contrário o acetaldeído, as substâncias geradas pela metabolização do metanol não são temporárias. O corpo não possui formas de transformá-las em outras menos tóxicas, e elas ficarão no organismo até o corpo conseguir eliminá-las de forma “natural”. Mas esta eliminação pode demorar, e elas já podem ter feito muitos estragos até lá.
Estrutura química do metanol (Imagem: Mundo Educação/UOL)
Como já explicado, não dá para saber se você ingeriu uma bebida com metanol assim que dá o primeiro gole. Afinal, a diferença dele pro etanol só é sentida quando o fígado começa a metabolizar essas moléculas (cerca de 1h após a ingestão). O tempo para sentir os primeiros efeitos depende da quantidade ingerida, e pode variar de algumas horas para até dois dias após o consumo.
Os primeiros sintomas são uma dor de cabeça intensa, seguida de alterações no nervo óptico. Você vai sentir que sua visão ficará turva ou “borrada” mesmo quando já não deveria mais estar sentindo os efeitos da bebida, e nos casos mais graves esses problemas podem evoluir para cegueira definitiva.
Além de corroer o sistema nervoso, o ácido fórmico da metabolização do metanol também deixa todo o seu sangue mais ácido (uma condição conhecida como acidose metabólica). Esta acidez atinge todos os órgãos, mas os primeiros a sentir a diferença são o coração, o sistema respiratório e os rins. Isso aumenta os batimentos cardíacos, o ritmo da respiração e o esforço renal, que trabalham em conjunto para tentar neutralizar essa acidez e fazer o sangue voltar ao seu Ph natural. Mas esse esforço pode causar desde uma insuficiência renal até mesmo uma falência múltipla de órgãos (basicamente dá “tilt” no corpo e tudo para de funcionar).
De acordo com os médicos, não existe “dose segura” de metanol, e ingerir qualquer quantidade dessa substância pode causar todos esses efeitos no organismo.
A melhor forma de se proteger no momento é evitando consumir bebidas destiladas enquanto esta situação do metanol no mercado não for resolvida. Isso quer dizer que a cervejinha (por enquanto) está liberada, assim como sucos e refrigerantes. Mas cachaça, vodka, gin, whisky, conhaque, tequila, saquê e todas as bebidas da mesma categoria – assim como drinks que envolvam elas – devem ser evitadas.
Caso tenha consumido qualquer uma delas e sinta qualquer sintoma mais forte do que uma ressaca padrão, a recomendação é procurar a unidade de saúde mais próxima para que se façam testes para confirmar se ocorreu a ingestão de metanol. Deve-se estar atento principalmente a sinais como náusea intensa, tontura, falta de ar e alterações visuais após consumir bebidas alcoólicas.
Caso confirmada a ingestão, será iniciado um protocolo de desintoxicação com o acompanhamento médico adequado.
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