Por Pedro Zambarda, editor-chefe.
Olhei, estarrecido, a reportagem com uma entrevista com a cientista Tatiana Sampaio ao G1, a mulher que está guiando os estudos em cima da polilaminina, um tratamento que está sendo desenvolvido para tratamento de paraplegia e tetraplegia. Tatiana está em todos os veículos de comunicação, é entrevistada do Roda Viva, é a cientista da vez.

Mesmo com tudo isso, ela conseguiu dizer isso ao portal da Globo: “O que eu fiz foi o seguinte: eu pedi para o ChatGPT me ajudar. Aí eu falei: ‘eu estou vendo as pessoas dando o argumento de que não vale, de que não funciona, que não sei o quê’. Aí ele me deu vários conselhos”.
Eu fiquei pasmo com a fala toda. Então vamos dar o contexto completo da fala no G1, na reportagem de Poliana Casemiro, Renato Ghelfi:
Após as recusas, ela afirma que pretende revisar o texto e submetê-lo a periódicos que costumam publicar estudos clínicos de braço único, sem grupo controle ou placebo.
Tatiana explica que alguns pontos levantados não podem ser ajustados, como o caso do registro do estudo clínico, enquanto outros ela contesta, como a taxa de recuperação.
Para traçar essa nova estratégia e lidar com as críticas recebidas, Tatiana diz que também consultou ferramentas de inteligência artificial.
O que eu fiz foi o seguinte: eu pedi para o ChatGPT me ajudar. Aí eu falei: ‘eu estou vendo as pessoas dando argumento de que não vale, que não funciona, que não sei o quê’. Aí ele me deu vários conselhos.
— Tatiana Sampaio, doutora em ciência e pesquisadora que lidera o estudo sobre a polilaminina
A crítica de Miguel Nicolelis
Eu participei de uma entrevista com o neurocientista Miguel Nicolelis que viralizou no DCM, como uma crítica que ele fez à cientista Tatiana sobre a ausência de mais testagens em sua pesquisa, dizendo que não pode tecer conclusões sobre a pesquisa sem essas comprovações.
E agora, diante das críticas, Tatiana Sampaio acha prudente consultar um gerador de inteligência artificial tipo LLM para responder. Uma IA que, nas palavras do Nicolelis, “não é inteligente e nem artificial”. E eu explico.
As IAs presentes hoje no mercado de tipo generativo são inteligências no sentido de gerarem textos complementares por associação e baseados nos bancos de dados recentes, muitos deles oline. A inteligência artificial não cria conhecimento, não elabora saberes novos e não intui informações como o mesmo desenvolvimento do cérebro humano.
Temos, portanto, uma cientista que recorre a um recurso limitado de resposta, fantasiado apenas em textos aparentemente densos e longos, mas que podem alucinar e dar respostas erradas dependendo do contexto dos questionamentos.
Não sou ludista, mas…
Ludismo é um movimento político dos trabalhadores ingleses, no século 19, que destruíram as máquinas de tecelagem contra as condições de trabalho na Revolução Industrial. Eu não prego a destruição da IA, mas sou totalmente simpático ao movimento para abandonar ChatGPT e recursos americanos que podem explorar a nossa propriedade intelectual e o avanço mental para abastecer software de bilionário. Isso foi notícia no jornal The Guardian.
Mas é inacreditável uma cientista que não busque o conhecimento concreto e se valha de uma solução frágil para questões fundamentais envolvendo a sua pesquisa. “Cientista GPT” não existe. Ou você é cientista, ou você se entrega passivamente para uma ferramenta que não entrega conhecimento.
Entrega, no máximo, um fast-food de texto. Muitas vezes mal escrito. Quando bem escrito, ele não resiste às checagens rigorosas dos fatos. Porque a definição do fato segue sendo humana e tem nuances que a doutora Tatiana não cuidou ao lidar com as críticas à sua pesquisa.
É inacreditável a “cientista GPT”, tema do vídeo de Paola Costa, do Camarote da República, no Meteoro Brasil.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
