Tecnologia

A IA me mostrou que empresas deviam ser tratadas como pessoas

Lembra aquela frase que ficou muito famosa durante a pandemia, que toda vez que alguém falava de lockdown aparecia um liberal gritando “E A ECONOMIA?!?!” e falando que a gente devia cuidar dos CNPJs (empresas) tanto quanto cuidamos dos CPFs (pessoas)?

Na época, eu achava esse conceito um absurdo, coisa de quem vive num mundo de números frios e que não possui nenhum respeito pela vida humana. Mas tenho que admitir que eu estava errado: eu acho que a gente tem mesmo que começar a tratar empresas como se fossem pessoas.

Mas o que me fez mudar de ideia? O mundo. A gente vai ficando mais velho, vai percebendo como as coisas funcionam, e nossa concepção das coisas vai mudando. Isso é normal para qualquer pessoa com um pingo de discernimento.

E essa semana tivemos um caso claro pra provar porque, sim, a gente devia tratar empresas mais como pessoas.

Nick Clegg, um ex-executivo da Meta, falou com todas as letras: todo o negócio da IA vai pro ralo se as empresas de tecnologia tiverem que pagar os artistas pelo direito de usar o trabalho deles para treinar suas inteligências artificiais.

Absurdo né? Mas essa fala não apenas foi reproduzida como se não fosse nada demais, como uma parte das pessoas leram isso e concordaram! Sim, tá cheio de gente falando que essas empresas de tecnologia deviam mesmo só usar o trabalho de artistas sem permissão e essas pessoas que se danem.

E quando eu vejo isso eu fico pensando: a gente devia mesmo começar a tratar as empresas como pessoas. Porque eu não consigo imaginar uma única pessoa dizendo algo assim e saindo como dona da razão.

Imagina só alguém tentando defender num tribunal que vai no supermercado só encher o carrinho de compras e levar tudo pra casa sem pagar porque “não tem condição, se ele for obrigado a pagar por tudo que pegou vai ter que pedir falência”. Piada né? Ou imagina alguém que mora de aluguel tentando convencer o dono da casa que ele fez as contas e percebeu que “continuar pagando aluguel todo mês causa um rombo enorme nas contas”, então ele simplesmente não vai mais pagar nada enquanto continua morando na casa. Não fode né!

Mas isso acontece O TEMPO TODO no mundo corporativo: empresas tentando justificar coisas que são no mínimo antiéticas, quando não completamente criminais, pelos motivos financeiros. “Ah, mas se não for desse jeito não tem como manter a operação”. Então não mantenha!

Sabe aquela coisa de que você não pode ser um X-Men apenas se quiser ser um, porque querer não é poder? A gente devia aplicar isso pras empresas igual a gente aplica pras pessoas: se não tem como, não tem como. E se você precisa roubar o trabalho de milhões de pessoas para tornar uma tecnologia viável, então essa tecnologia nem deveria existir.

Outra coisa que também entra nesse âmbito é aquela frase “empresário sofre”. E eu concordo! Empresário que é MEI que vende bolo de pote pelo iFood, que tem um mercadinho no bairro com meia dúzia de funcionários, que tem uma pequena fábrica que trabalha em turno único. Toda essa galera sofre pra cacete!

Sofrem com uma alta carga de impostos sem quase nada de retorno imediato, sofrem com burocracias que atrapalham a tomada de decisões, sofrem com a falta de crédito para expandir a área de atuação e ampliar seus negócios. Mas, ao mesmo tempo, é errado falar que eles sofrem porque são empresários. Porque este não é o diagnóstico correto.

Porque sabe quem também sofre dos mesmos problemas? Qualquer pessoa que é um trabalhador – autônomo ou de carteira assinada – em qualquer área.

Então, o diagnóstico correto não é que eles sofrem por ser empresário – eles sofrem é por ser pobre. E sim, mesmo que você tenha uma Range Rover na garagem e vá todo ano viajar para Europa, você é pobre, porque muito provavelmente o seu capital pessoal está mais próximo de quanto a sua empregada doméstica acumulou em anos trabalhando do que do valor de mercado de qualquer um dos nomes na Forbes 500.

Porque o arquétipo do empresário – o cara multimilionário, bilionário, que é dono de multinacional, possui milhões de cabeças de gado e é acionista de todas as maiores empresas do mundo – esse não sofre nem um pouco. Enquanto o empresário comum não tem a opção de errar se não quiser ver ruir tudo aquilo que construiu com suor e lágrimas, o empresário bilionário sabe que errar não é nem uma opção. Afinal, mesmo que ele faça todas as piores escolhas possíveis para levar um negócio à falência, o governo vai garantir todo o aporte financeiro para que ele não quebre. O motivo? Normalmente é algo como “ah, ele é muito grande pra quebrar, isso vai ferrar a economia.”

E eu digo: que ferre a economia! Quem sabe assim eles aprendem. Até porque toda onda econômica que levou esses grandes negócios a chegarem a beira da falência foi meio que causada por eles mesmos. Foi assim na Grande Depressão de 1929, foi assim na grande crise dos videogames na década de 1980, foi assim na Crise de 2008.

E os motivos que levam a quebra são sempre os mesmos: superprodução, especulação e subconsumo. Que podem ser traduzidos a: um monte de gente que só vê números fez uma projeção imaginária, apostou todas as fichas nessa projeção, e esqueceu de checar se estava pagando o suficiente pros seus funcionários consumirem as coisas na velocidade e no valor que elas eram colocadas no mercado.

Por isso eu digo: a gente devia começar a tratar empresas como pessoas. Porque, hoje, nós tratamos elas como bebês: tudo que elas dizem é “olha que bonitinho!” por mais absurdo que seja; tudo que elas fazem é “ah, ele é tão fofo! Não tem problema, a gente te ajuda”, não importa a destruição e os danos que essas ações causam.

Se as grandes empresas forem forçadas a se responsabilizar por suas ações como qualquer ser humano adulto, nós provavelmente não estaríamos onde estamos hoje.

Veja nossa campanha de financiamento coletivo, nosso crowdfunding.

Conheça os canais do Drops de Jogos no YouTube, no Facebook, na Twitch, no TikTok e no Instagram.

Rafael Silva

Rafael Silva é jornalista formado desde 2017. Cresceu lendo revistinhas de videogame, entrou numa "nóia" quando percebeu que o “jornagames” ainda era feito para adolescentes que só tinham interesse de discutir qual console era melhor, e agora está numa missão de vingança para resolver isso com as próprias mãos.

Thank you for trying AMP!

We have no ad to show to you!