Não é de hoje que a gente do Drops somos críticos da tecnologia de inteligência artificial – principalmente a IA generativa. E também não era um grande segredo que os CEOs dessas empresas tem planos tão “caricatos” de dominação que se parecem com coisa que algum vilão do agente 007 planejaria.
Mas, até então, esse posicionamento era claro apenas em mensagens e e-mail vazados, sejam relativos a casos envolvendo o Facebook ou a mais recente divulgação dos e-mails do Epstein. Mas, publicamente, eles ainda tentavam manter uma aparência de que são humanos com sentimentos. Muitas vezes falhavam (oi Zuckerberg!), mas tentavam.
Pelo menos até a mais recente entrevista viral de Sam Altman, CEO e fundador da OpenAI – a empresa que desenvolveu o famoso ChatGPT.
Na última sexta-feira (20) ele participou do Express Adda, um programa de entrevistas semanais organizado pelo jornal The Indian Express. Quando perguntado sobre uma das maiores preocupações das pessoas comuns sobre a IA – o elevado gasto energético para se manter um datacenter funcionando – a resposta do bilionário foi que os humanos também gastam muita energia para ficar inteligentes. Sério.
Na visão de Altman, os humanos também precisam consumir cerca de vinte anos de muita água e alimentos até estarem “treinados” para serem úteis à sociedade. E, se nós damos esse tempo para os humanos, por que então exigimos uma instantaneidade da IA?
Claro, essa frase é absurda por diversos motivos. Primeiro, por suas implicações práticas. Afinal, os humanos não estão aqui consumindo toneladas de energia apenas para errar cálculos matemáticos básicos com convicção. Nós consumimos essa energia para nos desenvolver como humanos – criaturas tão complexas que muitas vezes passam a vida se perguntando se eles fazem qualquer diferença no mundo – e não apenas para inventar respostas de pesquisas, funcionar como assistentes ruins ou alucinar resultados financeiros em relatórios que ninguém vai ler.
Outro ponto da parte prática dessa fala é que o público não deseja que essas ferramentas de IA sejam funcionais de forma instantânea. Na real, nunca houve um movimento popular pelo surgimento de uma tecnologia como as IAs generativas; o que existe é meia dúzia de bilionário que apostou tudo nesta tecnologia como a próxima “grande inovação” da indústria e tem gastado mundos e fundos pra convencer as pessoas de que isso realmente é algo revolucionário e não deixar a bolha estourar (como já aconteceu com NFTs e o Metaverso). Então não é que as pessoas “não tem paciência” para aguardar a tecnologia evoluir; são essas empresas que ficam fazendo promessas faraônicas, contando mentiras sobre o que essas IAs generativas conseguem ou não fazer, e a “pressão” do público é apenas por querer ver algo que realmente entregue aquilo que toda a propaganda promete.
Mas independente de todas as mentiras existentes na parte mais prática deste discurso, a pior coisa coisa está no conceito dela. Porque é um conceito extremamente cruel.
Ao comparar o desenvolvimento das IAs generativas com o desenvolvimento de um ser humano, Altman deixa claro algo que até então era apenas subtexto: essas pessoas não nos enxergam como humanos. Para essa galera nós somos igualzinho uma IA: “coisas” que servem apenas para “cumprir um propósito” definido pelos mestres da tecnologia – que, claro, são eles.
E isto é de um perversidade tão mesquinha, tão baixa, que coloca Altman (e possivelmente todos os outros CEOs que pensam igualzinho a ele e apenas não externaram isso de forma pública) no mesmo patamar de vilões do 007 – aquele tipo de vilão megalomaníaco que acha que seus desejos pessoais são mais importantes do que o da população geral porque eles se acham melhores do que todo o resto do mundo.
O irônico é que, quanto mais eles tentam defender seus datacenters, mais motivos eles dão para que possamos odiar qualquer coisa relacionado a IAs generativas sem o menor peso na consciência. Porque uma coisa que define este tipo de vilão é que eles se acham muito complexos, mas são extremamente simples e rasos. Assim como todo CEO de uma big tech.
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

