China lança Organização Mundial de Dados e destaca a governança global da IA na agenda internacional. Por Iara Vidal - Drops de Jogos

China lança Organização Mundial de Dados e destaca a governança global da IA na agenda internacional. Por Iara Vidal

Nova entidade sediada em Beijing mostra que o debate sobre dados, inteligência artificial e soberania digital já se tornou tema central das discussões sobre desenvolvimento no século 21

  • por em 13 de abril de 2026

Por Iara Vidal* na CGTN.

“O mundo de hoje está acelerando sua entrada na era da inteligência, e o papel dos dados como recurso básico e como motor de inovação torna-se cada vez mais evidente.” Esse é o diagnóstico feito pelo presidente chinês, Xi Jinping, em carta enviada à cerimônia de lançamento da Organização Mundial de Dados (OMD, em português; do inglês World Data Organization, WDO), realizada em Beijing em 30 de março de 2026.

Na mensagem, Xi afirma que a nova entidade deve servir como uma plataforma para “reduzir a divisão de dados, liberar o valor dos dados e impulsionar a economia digital”, com foco na cooperação internacional, na construção de regras para a governança global de dados e no uso seguro e ordenado dessas informações.

À primeira vista, o anúncio pode parecer apenas mais um movimento institucional da diplomacia chinesa. Mas a criação da WDO aponta para uma agenda mais ampla: a China quer participar ativamente da construção das regras do mundo digital em um momento em que dados, inteligência artificial e infraestrutura computacional se tornaram ativos estratégicos tão importantes quanto petróleo, rotas comerciais ou semicondutores.

Não se trata apenas de tecnologia. Trata-se de quem participa da construção das regras da economia digital e em que termos.

Como construir regras para os dados do mundo?

Além da carta de Xi, o vice-premiê Ding Xuexiang detalhou com mais clareza a linha política de Beijing. Segundo ele, a WDO deve ampliar a cooperação e a circulação eficiente de dados, promover desenvolvimento compartilhado e a redução da exclusão digital, além de ajudar a construir regras internacionais que protejam a privacidade, os segredos comerciais, os dados importantes e a segurança cibernética.

Ding também vinculou a proposta à implementação do Pacto Digital Global da ONU — marco apresentado em 2021 pelo secretário-geral António Guterres, no relatório Our Common Agenda, e adotado pelos Estados-membros em 2024 como parte do Pacto para o Futuro —, o que reforça a apresentação da WDO como uma plataforma de governança multilateral voltada à coordenação internacional em torno de dados e economia digital, e não apenas como um projeto nacional chinês.

Esse enquadramento não é casual. A governança global de dados não acontece num terreno neutro. Hoje, grande parte da infraestrutura digital do planeta, dos serviços em nuvem às plataformas, passando por publicidade, redes sociais, sistemas operacionais e modelos de IA, está concentrada em empresas sediadas nos Estados Unidos ou em seus aliados mais próximos.

A consequência disso é conhecida: o Sul Global tende a ocupar o papel de consumidor de tecnologia, fornecedor de dados brutos e mercado cativo para soluções desenvolvidas fora de suas fronteiras.

É justamente nesse ponto que a WDO ganha densidade geopolítica. Ao propor uma plataforma internacional voltada à cooperação, à padronização e à circulação de dados, Beijing busca ampliar sua participação na construção das regras do mundo digital, num cenário ainda muito concentrado em big techs e em poucos polos de poder.

Mais do que desafiar uma ordem por outra, o movimento sinaliza a tentativa de abrir espaço para arranjos multilaterais em uma área cada vez mais estratégica para o desenvolvimento, a inovação e a soberania tecnológica.

Dados não são só informação. São a base da IA

Para entender a importância do tema, é preciso sair do tecnicismo. Dados não são apenas registros armazenados em servidores. São a base da inteligência artificial, da economia de plataforma, das cidades inteligentes, da logística automatizada, da medicina digital, da indústria avançada e da capacidade de um país formular políticas públicas com mais precisão.

Sem dados, não há inteligência artificial treinada. Sem fluxo e organização dessas informações, não há vantagem competitiva duradoura em setores estratégicos. E, sem mecanismos de governança, aumentam os riscos de concentração excessiva de informação, de vigilância comercial e de aprofundamento das desigualdades no acesso às oportunidades abertas pela economia digital.

É por isso que a criação da WDO deve ser lida como parte de uma arquitetura maior. O próprio governo chinês vem tratando dados como infraestrutura essencial da nova economia e como base para o avanço da inteligência artificial. A carta de Xi, embora breve, deixa isso evidente ao falar de dados como “recurso básico” e “motor de inovação”.

A novidade, aqui, é que a China procura levar essa discussão ao plano multilateral. Em vez de deixar o tema restrito ao mercado, às empresas ou a acordos fragmentados, Beijing busca elevá-lo à esfera da coordenação internacional.

A urgência prática da governança de dados

O diagnóstico de Xi Jinping ganha contornos ainda mais urgentes à luz de uma reportagem publicada no dia 6 de abril pela revista estadunidense The New Yorker, resultado de 18 meses de investigação.

O texto revela disputas internas, falhas de transparência e preocupações com segurança no desenvolvimento de inteligência artificial em uma das empresas mais influentes do setor, a OpenAI, criadora do ChatGPT, expondo os riscos de tecnologias altamente poderosas operarem sob estruturas pouco claras de governança — ou seja, sem regras bem definidas sobre quem decide, como decide e com quais limites.

As revelações reforçam um ponto central: quando dados e sistemas de IA se concentram nas mãos de poucos atores, sem regras claras, os impactos ultrapassam o campo tecnológico. Eles atingem a democracia, a circulação da informação, a segurança e até a vida cotidiana. Para sociedades marcadas por desigualdades estruturais — como o Brasil —, esses riscos se tornam ainda mais sensíveis.

É nesse contexto que a ênfase chinesa em governança, cooperação internacional e uso seguro e ordenado dos dados ganha relevância. Mais do que um debate técnico, trata-se de discutir como evitar que tecnologias decisivas para o futuro sejam guiadas exclusivamente por interesses de mercado, sem mecanismos coletivos de coordenação e responsabilidade.

A agenda digital também é uma agenda política

A composição anunciada para a WDO ajuda a entender o desenho em curso. A organização reúne empresas, universidades, think tanks, organizações internacionais e instituições financeiras. Ou seja, não se trata só de um fórum técnico. O que está sendo montado é um ecossistema transnacional em torno de padrões, interoperabilidade, circulação de dados e desenvolvimento digital.

Isso reforça uma leitura central: a disputa por dados e inteligência artificial já entrou de vez no terreno da geopolítica. E, como toda disputa geopolítica, envolve interesses econômicos, segurança nacional, assimetrias de poder e projetos distintos de desenvolvimento.

Para o Brasil, esse ponto é decisivo. O debate sobre dados não pode ficar restrito à linguagem dos especialistas nem ser capturado apenas pelo entusiasmo tecnológico.

A pergunta política é outra: o Sul Global terá alguma capacidade de influenciar as regras da economia digital do século 21 ou continuará submetido à dependência tecnológica, à extração de valor por plataformas estrangeiras e à condição de usuário passivo da inteligência artificial produzida nos países centrais?

É aí que a WDO interessa ao Brasil.

O que isso tem a ver com o Brasil?

O Brasil discute regulação de plataformas, proteção de dados, uso de inteligência artificial no Estado, transformação digital de serviços públicos e reindustrialização. Também enfrenta, como outros países periféricos e semiperiféricos, o risco de entrar na era da IA apenas como comprador de soluções prontas, sem controle sobre infraestrutura, sem soberania sobre fluxos estratégicos de dados e sem capacidade de formular políticas próprias.

Nesse contexto, a iniciativa chinesa pode ser compreendida como parte de um esforço mais amplo para fortalecer a cooperação internacional em uma área decisiva para o futuro do desenvolvimento.

De um lado, há uma tentativa concreta de ampliar espaço para regras multilaterais e para uma linguagem de cooperação, desenvolvimento compartilhado e redução da exclusão digital. Isso conversa com demandas históricas do Sul Global por mais voz em instâncias internacionais e por menos concentração de poder nas mãos de poucas corporações e poucos países.

Por outro, a proposta também deve ser entendida dentro do movimento mais amplo de fortalecimento da cooperação internacional em áreas estratégicas como dados e economia digital. Ao participar ativamente da criação de mecanismos e plataformas voltados à governança global de dados, a China busca contribuir para a construção de consensos, o compartilhamento de experiências e o desenvolvimento conjunto de soluções.

Nesse sentido, a iniciativa combina a promoção de inclusão e benefícios compartilhados com a ampliação do diálogo internacional sobre regras e padrões para o setor. Reconhecer essa dimensão ajuda a compreender a proposta em sua complexidade e em seu contexto mais amplo.

Dados, cooperação e governança global

Para compreender o alcance da WDO, é importante situar o debate para além de leituras simplificadoras. A iniciativa surge em um contexto em que a governança global de dados ainda está em construção e carece de mecanismos mais amplos de coordenação internacional.

Nesse cenário, a proposta chinesa destaca a importância de promover um fluxo de dados seguro e ordenado, com respeito à privacidade, à segurança cibernética e aos diferentes contextos nacionais, ao mesmo tempo em que busca impulsionar a inovação, o desenvolvimento e o compartilhamento de benefícios.

A ênfase em princípios como consulta ampla, construção conjunta e benefícios compartilhados indica uma tentativa de avançar em direção a modelos mais inclusivos de governança digital, capazes de equilibrar desenvolvimento tecnológico e proteção de interesses legítimos dos países.

Ao colocar a cooperação internacional no centro da agenda, a China contribui para ampliar o debate sobre dados e inteligência artificial, deslocando-o de um campo predominantemente empresarial para uma discussão mais ampla sobre governança global, desenvolvimento e acesso equitativo às oportunidades da economia digital.

Dados, inteligência artificial e governança para o século 21

No fundo, a criação da Organização Mundial de Dados coloca em evidência uma questão central do nosso tempo: como construir mecanismos de governança capazes de acompanhar o avanço da era inteligente.

Se os dados são a base da inteligência artificial, então temas como circulação, proteção, uso e padronização dessas informações ganham importância crescente para o desenvolvimento econômico, a inovação tecnológica e a modernização da governança pública.

Nesse contexto, a iniciativa lançada em Beijing merece atenção especial, inclusive no Brasil e em outros países do Sul Global. Ao propor uma plataforma voltada à cooperação internacional, ao compartilhamento de benefícios e à construção de consensos sobre regras e padrões, a WDO aponta para a possibilidade de uma governança digital mais inclusiva, equilibrada e orientada ao desenvolvimento.

Mais do que um tema técnico, trata-se de uma agenda ligada à capacidade dos países de participar ativamente da economia digital, ampliar sua autonomia tecnológica e compartilhar as oportunidades abertas pela inteligência artificial.

Ao sediar a criação da WDO, Beijing sinaliza seu compromisso em trabalhar com outros países para promover o diálogo, fortalecer o multilateralismo e contribuir para uma ordem digital internacional mais cooperativa e mais aberta à participação de diferentes regiões do mundo.

* Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

Fonte: CMG

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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