Choquei fica menos de 1 dia fora do ar no Insta. Pra quê? - Drops de Jogos

Choquei fica menos de 1 dia fora do Insta e nada vai mudar por causa disso

O problema é maior do que a Choquei. O problema é tudo o que permite (e normaliza) a existência desse tipo de escória na internet

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(Créditos: pikisuperstar/Freepik)

O perfil da Choquei no Instagram — com seus mais de 26 milhões de seguidores — saiu do ar na sexta-feira (4) do mais absoluto nada. E claro que isso  deu o que falar, como qualquer coisa envolvendo esses caras. 

Claro, também, que o perfil seguiu postando seus bafões no X como se nada tivesse acontecido, sem dar explicação alguma para o ocorrido na rede social vizinha. E óbvio que isso só jogou mais lenha na fogueira, com o termo “Choquei” estando no topo dos trends até mesmo do Google, permanecendo lá por por longas horas.

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Perfil da Choquei no Instagram foi desativado do nada

Até agora, mesmo após a reativação igualmente repentina e misteriosa do perfil, nada foi explicado oficialmente sobre isso. O jornalista Ricardo Feltrin chegou a dizer que a retirada teria sido motivada por uma notificação judicial ligada à tragédia envolvendo Jéssica Canedo, a jovem que tirou a própria vida após ser alvo de uma fake news replicada pela página. “Todo mundo” saiu compartilhando essa informação nas redes — e até na imprensa —, mas o fato é que isso não chegou a ser confirmado nem pela Choquei, nem pela própria Meta, a empresa dona do Instagram.

Pode até ser que tenha sido por isso mesmo. Pode ser que não tenha nada a ver com isso. A verdade é que tanto faz.

O que importa — e o que me motiva a publicar este textão — é que a suposta suspensão temporária da Choquei no Instagram ainda assim teria sido muito pouco. Esse tipo de perfil tinha que sumir do mapa por completo: a Choquei, a Chocada, a Choquito… todas as demais vaquinhas deste presépio digital. 

Porque o que esses perfis produzem não é informação, tampouco entretenimento: é puro lixo radioativo, é Chernobyl em forma de feed. Na minha mais sincera opinião, a Choquei e seus clones são um câncer social disfarçados de geradorzinho de viral.

E por isso, uma queda da Choquei no Instagram deveria ter sido só o começo de uma limpeza ética na internet. Ao menos é o que deveria acontecer em um mundo minimamente justo e civilizado — e obviamente este não é caso.

Perfis como a Choquei são metástases digitais

Instagram da Choquei voltou, mantendo o perfil trancado como já fazia há alguns anos

Essas páginas só existem porque descobriram que dá pra lucrar com tragédia, com difamação, com polêmica desenfreada. A lógica é simples e brutal: quanto mais sofrimento, mais engajamento. Quanto mais linchamento, mais monetização. Quanto mais gente real ridicularizada em forma de meme, mais publis.

A diferença entre uma página como a Choquei e um câncer é que o câncer não escolhe suas vítimas deliberadamente. Já esse tipo de perfil, escolhe. Esses perfis não informam: eles apenas exploram. E danem-se os corpos pelo caminho.

Para quem acha que isso é força de expressão ou crítica exagerada, vamos lembrar que em 2023 uma dessas “brincadeiras de mau gosto” custou a vida de uma jovem de 22 anos. O nome dela era Jéssica Canedo, e o que aconteceu com ela precisa ser lembrado com nitidez — por mais mórbido que isso pareça ser. Porque o mecanismo que a tirou desta vida é o mesmo que segue operando livre, leve e solto.

O caso Jéssica Canedo: quando a “fofoca” mata

Em dezembro de 2023, o nome de uma jovem chamada Jéssica Canedo explodiu nas redes sociais. Ela não era influenciadora, não tinha assessoria, era apenas uma mulher de 22 anos, até então anônima, que teve sua vida ceifada por uma mentira viralizada para beneficiar “influencers” desonestos.

A história começou com uma montagem grosseira que circulou em perfis de fofoca: ela seria amante do humorista Whindersson Nunes, envolvida num triângulo escandaloso com outra celebridade. Mas era tudo mentira, mais uma invenção da internet.

A Choquei repostou o boato, deu visibilidade massiva e reagiu com deboche quando a própria Jéssica se manifestou publicamente para desmentir o boato. A página publicou emojis de riso, usou tom sarcástico nos stories, tratou como um meme uma mulher que estava sendo atacada em escala nacional — sem jamais ter checado absolutamente nada antes de jogar a m*rda no ventilador.

A partir daí, Jéssica começou a ser linchada virtualmente, recebendo ataques, insultos e acusações a torto e a direito. Tudo porque uma página com dezenas de milhões de seguidores escolheu acusar falsamente uma pessoa inocente em troca de engajamento.

Jéssica Canedo tirou a própria vida no dia 22 de dezembro daquele ano. Somente depois disso, a Choquei apagou as postagens. Quando já era tarde demais. E sem responsabilização, a máquina seguiu girando como se a morte dela tivesse sido apenas uma notícia qualquer no meio do caminho.

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Comunicado emitido pela Choquei após a morte de Jessica Canedo em 2023

E há quem pense que uma regulação das redes sociais é censura

O caso gerou comoção forte na população geral e foi usado como exemplo extremo da necessidade de uma regulação das redes sociais no Brasil.

O então ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, pediu publicamente por mudanças na legislação, alertando que plataformas e perfis com grande alcance não podem mais operar sem responsabilidade legal.

Mas, quase dois anos depois, o que resta é o silêncio conveniente da impunidade. A mesma página que fez tudo isso com Jéssica continuou postando, continuou polemizando, continuou crescendo. Ou seja: continuou lucrando. 

Relembrar esse caso não é ser um urubu em cima da carniça midiática, não é buscar audiência apelando para o emocional. 

É expor um crime moral que nunca foi reparado. E apontar o dedo na cara da multidão que segue compartilhando posts da Choquei por aí, pouco se importando com o estrago que tal perfil causou à jovem Jéssica — e sem considerar que, amanhã, qualquer um pode ser a próxima vítima.

Porque pra esse tipo de perfil, a verdade e a justiça são conceitos irrelevantes. O que vale é o tempo entre a primeira publicação e o primeiro milhão de visualizações em cima dela. O resto? O resto se apaga, se edita e se esquece.

A prática nociva da Choquei não começou com o caso da Jéssica — e também não parou depois disso

O que aconteceu com Jéssica Canedo foi a tragédia que estourou a bolha. Mas quem acompanha essas páginas com atenção sabe que a irresponsabilidade editorial da Choquei não era novidade. 

O histórico está aí, em posts que foram apagados, disfarçados ou enterrados por novos memes, mas devidamente registrados pela imprensa e por outros perfis nas mesmas redes sociais, para que não sumam do histórico. Esse histórico deixa claro: a Choquei nunca operou com compromisso algum com a verdade.

Em 2022, por exemplo, a Choquei ajudou a espalhar uma teoria conspiratória grotesca sobre a existência de uma cidade perdida chamada Ratanabá, supostamente localizada na Amazônia e ligada a civilizações alienígenas. O post viralizou e foi denunciado por arqueólogos e cientistas como um desserviço completo à educação científica e ao debate público. A página apagou em silêncio. E seguiu em frente.

Ainda no mesmo ano, republicaram um vídeo antigo do apresentador Ratinho, tirado de contexto, como se fosse uma declaração recente contra protestos políticos. O vídeo era de 2018. A manipulação rendeu milhares de interações antes de ser corrigida — sem qualquer retratação pública.

No mesmo ano, durante os primeiros meses da guerra na Ucrânia, a página repercutiu vídeos falsos, de origem duvidosa, sem fonte, sem checagem, como se fossem registros reais do conflito. Organizações de checagem como a Agência Lupa e a Aos Fatos precisaram correr para reparar o estrago.

Estamos falando de um padrão de conduta: a conta publica rápido, viraliza forte, lucra bem e só apaga se ou quando a coisa fede. E “nada acontece, feijoada”. Ninguém pára a máquina de destruição em massa chamada Choquei.

A impunidade não vem só da ausência de regulação. Vem da aceitação, do fato de que esse tipo de página foi incorporado ao ecossistema da internet brasileira como se fosse legítimo. É citado em matérias, repercutido em programas de TV, absurdamente tratado como fonte pela imprensa imediatista e irresponsável.

A pergunta não é mais: “como deixaram isso acontecer?”. A pergunta é: “quantas vezes algo grave precisa acontecer para que alguém leve a questão a sério?”.

Se fosse um perfil obscuro, talvez passasse batido. Mas estamos falando de um dos perfis mais vistos do país, com influência direta sobre como milhões de pessoas percebem o mundo.

Isso não é falha de conduta. É modelo de negócio.

Não é só a Choquei: é um ecossistema de podridão

A Choquei é apenas o rosto mais conhecido de um ecossistema de perfis que operam com a mesma lógica — e, muitas vezes, com o mesmo alcance.

Páginas como Gossip do Dia, Segue a Cami, Alfinetei, Babadei, Portal Leo Dias, Subcelebrities, Cutucadas, Galo Intruso, entre outras dezenas de “mais do mesmo”, formam uma malha que se vende como entretenimento ou “curadoria de notícias”, mas que opera com aproveitamento de engajamento, monetização em cima de crise, e ausência total de apuração.

Todas têm algumas coisas em comum entre si:

  • Repostam conteúdo com potencial viral aos montes, sem checagem alguma;
  • Viralizam com manchetes apelativas e descontextualizadas;
  • Deixam a publicação que deu ruim no ar até quando não der mais pra manter;
  • Quando erram, simplesmente apagam — e o ciclo recomeça.

O Alfinetei, por exemplo, tem mais de 25 milhões de seguidores no Instagram e já foi denunciado por republicar conteúdos de terceiros sem crédito, além de replicar boatos sem confirmação. O Gossip do Dia, com mais de 8 milhões de seguidores somente no Insta, já foi alvo de críticas por vazar informações pessoais e publicar prints privados (nunca confirmados) em “exposeds”.

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O perfil “dailydacho” é da própria Choquei. “Aqui postamos só os babados pesados que os famosos odeiam” — como se no perfil principal já não fizessem a mesma coisa

O caso do Choquei Curitiba que levou a uma prisão real

Um caso emblemático dessa lógica replicada aconteceu em Curitiba, onde um homem de 29 anos foi preso em abril deste ano acusado de usar perfis chamados “Choquei Curitiba” para extorquir mais de 60 pessoas

Ele publicava conteúdos ofensivos, íntimos e difamatórios sobre seus alvos e depois cobrava até R$ 1.000 para apagar os posts, operando com base no medo e na vergonha das vítimas. O nome da página não era coincidência: usava deliberadamente a marca “Choquei” para se associar ao tipo de conteúdo viral e sensacionalista que já era conhecido nacionalmente.

Esse episódio escancara o que está em jogo: não se trata só de falta de ética, mas de um modelo que alimenta crimes. Quando a exploração da imagem alheia se torna aceitável, quando a exposição pública é naturalizada, quando “tretas” valem mais que provas, cria-se o terreno ideal para chantagem, humilhação e violência simbólica em escala.

E se esses perfis existem — e prosperam — é porque há um público disposto a consumir, rir, curtir e passar adiante a “fofoca”. A conta sempre chega, mas quase nunca pra quem lucra com o post. Neste caso do Choquei Curitiba, alguma justiça parece ter sido feita. Mas e os demais?

Perfis cujo propósito de existência é lucrar com a desinformação

Existe toda essa fauna de perfis que fazem exatamente a mesma coisa: páginas de “fofoca”, “notícias”, “tretas do dia”, “exposed da semana”. Todas operando com a mesma lógica: apropriar-se de qualquer acontecimento, real ou fabricado, desde que gere clique, seja pelo ódio ou pela comoção.

O nome muda, o logo é diferente, mas a engrenagem é sempre a mesma: polêmica (real ou inventada), audiência,  monetização e impunidade

Esses perfis alimentam um ciclo de desinformação muito mais nocivo do que parece à primeira vista, porque eles não têm cara de portal noticioso. Eles usam um tom leve, uma identidade “engraçadinha”, um vocabulário de meme e, por isso, passam por baixo do radar da responsabilidade. São tratados como veículos, sem ter que responder por seus atos como os veículos.

Regulação das redes sociais é só o começo

O caso de Jéssica Canedo reacendeu o debate sobre o PL 2630/2020, conhecido como PL das Fake News, que já tramitava havia anos no Congresso Nacional com o objetivo de responsabilizar plataformas e serviços de mensageria pela disseminação de desinformação.

Mas mesmo diante de uma tragédia real, nada aconteceu de concreto até agora. O projeto, que já havia passado pelo Senado em 2020, continuou travado na Câmara. Arthur Lira se recusou a pautar a votação, sob a justificativa genérica de “falta de consenso”. E, enquanto isso, as próprias big techs — Meta, Google, X, etc — atuavam ativamente contra a proposta, com campanhas, lobby e pressões públicas e privadas.

Houve tentativas de fatiar o projeto, criar novas versões, discutir alternativas. Mas tudo ficou no papel. 2024 passou. 2025 já passou da metade, e páginas como a Choquei seguem fazendo exatamente o que sempre fizeram, porque sabem que não vão responder por nenhum dos males que causarem.

É por isso que falar em regulação não basta. A regulação das redes sociais é urgente, sim, mas isso é o mínimo. Porque o problema não é só legal: é cultural, é moral e é sistêmico.

A gente construiu uma internet em que a crueldade virou métrica, em que destruir reputações virou modelo de negócio. Uma internet em que o linchamento coletivo é uma coreografia diária — e quem não participa, se sente excluído.

A regulação pode servir como uma cerca que protege algo em seu terreno, mas o buraco está no que a gente se acostumou a chamar de conteúdo — e no tipo de comportamento que a gente premia com clique, seguidor e monetização.

Então uma suposta suspensão da Choquei no Instagram deveria reaquecer o debate sobre regulação das plataformas. E sim, isso é urgente. As big techs precisam parar de lavar as mãos, e quem publica, lucra e influencia precisa responder por isso.

A verdade é que, se a Choquei caiu no Insta por conta mesmo do caso de 2023, só caiu porque passou do limite. Mas os limites continuam frouxos. E enquanto esse mundo invertido da “informação” nas redes sociais for tratado como entretenimento, a próxima tragédia é só questão de tempo. É mais uma tragédia esperando acontecer. 

Enquanto perfis puderem tratar sofrimento como pauta, mentira como manchete e humilhação como estratégia de alcance — e ninguém fizer nada além de dar engajamento para tudo isso — a estrutura segue intacta. E a estrutura é o que adoece o sistema.

Informação de verdade é serviço. Não sadismo disfarçado de meme.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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