Enquanto A Odisséia quebra alguns recordes de bilheteria para o diretor Christopher Nolan (e com razão), nas redes sociais o filme é o pivô de uma “guerra” que vem sendo travada desde a divulgação das primeiras imagens do longa. E um dos “soldados” dessa guerra é ninguém menos que Elon Musk, o bilionário que já foi (corretamente) taxado pela galera do site Aftermath como “o homem mais divorciado do mundo”.
Musk tem sido não apenas um dos maiores críticos do filme, mas também uma voz que vem amplificando as reações negativas ao filme de Nolan – quase todas elas surgidas no X, o antigo Twitter e que hoje parece ser habitado apenas por pessoas que ficariam felizes com um terceiro Reich (e não estou falando de fãs do Dropout e a possibilidade do Sam ter um filho).
Antes mesmo do primeiro trailer do filme ser divulgado, Musk já estava falando sobre o “absurdo” que tinha sido a escolha do ator Elliot Page para interpretar Aquiles. Esse rumor que circulou pelas redes, lógico, era falso; afinal, qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento saberia que Aquiles nem existe na história da Odisséia. Mas como um grande representante das pessoas de conhecimento nulo, o bilionário amplificou essa narrativa falsa por semanas na sua rede social, destilando transfobia travestida de “verossimilhança histórica”.
Musk chegou a chamar a escolha do ator trans de “uma das coisas mais idiotas que eu já ouvi”, e esse talvez tenha sido um dos comentários mais “leves” que ele fez sobre o assunto. E, no fim, não apenas Page não interpretou Aquiles (pois este personagem nem existe na Odisséia, já que na versão de Homero o herói morre ainda na Ilíada – ou seja, no cerco de Tróia, mas antes de todo o plano envolvendo o cavalo), como teve uma participação pequena – mas extremamente marcante – no filme.

A verdade é que, para um setor da extrema-direita muito engajado na tal guerra cultural contra tudo que é “de esquerda” e “woke”, A Odisséia se tornou o inimigo número 1 nesses últimos meses. E transfobia é pouco pra essa galera; por que não adicionar também um pouco de racismo no meio? Foi isso que aconteceu assim que as primeiras confirmações de quem era quem no elenco estrelado surgiram, e a atriz Lupita Nyong’o foi confirmada no papel de Helena.
Nas narrativas de Homero, Helena era descrita como “a mulher mais bela do mundo” (o que qualquer um que possui olhos que enxergam conseguiria perfeitamente entender como Lupita se encaixa nessa descrição), mas para Musk e seus seguidores a escolha deveria ser outra. O bilionário compartilhou em suas redes diversas opiniões que pediam por “uma atriz de origem grega”, e que chamavam a escolha de Lupita de “racista contra o povo grego e sua herança cultural”.
Mas a posição do bilionário ficou claro quando ele concordou com uma postagem de Matt Walsh (um palpiteiro do Daily Wire, uma das principais vozes da extrema-direita nos EUA). Ele respondeu com “true” (verdade) um comentário que dizia que nenhuma pessoa viva acha Lupita a mulher mais linda do mundo, e que ela só foi escalada porque Nolan tinha medo de ser chamado de racista se escalasse uma mulher branca. Esse tipo de comentário não apenas mostra que Walsh e Musk precisam urgentemente ir num oftalmo para começar a usar óculos, como deixam implícito que só iriam aceitar que o posto de “mulher mais bonita do mundo” fosse ocupado por uma pessoa branca – o que é bastante racista.

E nem agora que o filme foi lançado e que todo mundo – crítica, público e até mesmo um colunista desocupado do Drops – estão elogiando o filme Musk se dá por vencido. Ele continua insistindo que o filme é “uma afronta à obra de Homero” porque, como para todo bilionário, a opinião dele formada a partir das vozes da própria cabeça vale mais do que as das centenas de historiadores e tradutores de Homero que, apesar de terem críticas pontuais, no geral acham que o filme é uma ótima adaptação. E, como esperado, ele oferece uma “solução” que – olha só! – irá usar o Grok.
Nesta terça (21), Musk compartilhou um trecho de uma diálogo da Odisséia feita pelo Grok com uma promessa “ousada”: de que até o fim deste ano o Grok Imagine irá produzir um filme inteiro da Odisséia que será “historicamente correto” (expressão normalmente usada como sinônimo para “apenas com atores brancos”. Apesar que, nesse caso específico, nem atores teremos né? Será uma amálgama de imagens de pessoas brancas falsas geradas a partir da imagem roubada de pessoas brancas reais).
Before this year ends, Grok Imagine will make a full-length movie of The Odyssey that is historically accurate and true to the art of Homer https://t.co/bVHzUmY9WN
— Elon Musk (@elonmusk) July 22, 2026
Acredito que este filme vai sair? Não. E, se sair, provavelmente será uma piada no estilo Dark Horse. Afinal, um dos motivos para A Odisséia de Nolan estar sendo tão elogiada é que, por muito tempo, o livro era visto como “inadaptável” devido à natureza caótica da narrativa – e eu duvido muito que o Grok vai conseguir ajustar o texto original de uma forma que entregue um filme coeso. E nem estou falando aqui da qualidade de cenas/atores/interações, que já esperamos que será bem ruim por ser algo de IA.
A realidade é que essa guerra do exército incel e seu general com nome de perfume da Avon não vai acabar tão cedo. Eu não duvido nada que em março do ano que vem, quando Nolan + elenco + toda a equipe de produção de A Odisséia estiverem colecionando Oscar atrás de Oscar, o Kiko dos Foguetes não vai estar na rede social dele, gritando para os amiguinhos dele, como o filme de IA dele vai ser muito melhor, vocês vão ver só assim que o Grok conseguir ter uma folguinha de criar imagens de mulheres e crianças sem roupa e terminar de processar o prompt do filme. Patéticos são hoje, e patéticos continuarão sendo amanhã, porque esta é a única forma de existir que essas pessoas conhecem.
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

