Cultura

“Adolescência”: um soco no estômago da parentalidade. Por Lia Sérgia Marcondes

Por Lia Sérgia Marcondes, de Portugal, para o Drops de Jogos.

Será que o seu filho está sendo programado para odiar as mulheres, apesar da educação que ele recebe em casa? A nova mini série da Netflix direcionou os holofotes sobre o impacto que as redes sociais e influenciadores misóginos podem ter sobre meninos adolescentes. (Pode conter spoilers.)

Fonte: Divulgação Netflix/Montagem Drops de jogosFonte: Divulgação Netflix/Montagem Drops de jogos

Fonte: Divulgação Netflix/Montagem Drops de jogos

Desconstruir uma masculinidade tóxica sem construir de forma positiva uma “nova masculinidade” pode levar a resultados desastrosos entre as gerações mais novas. A nova mini série da Netflix, “Adolescência”, tem tomado as redes sociais ao ampliar o debate sobre um tema que, durante muito tempo, parecia “restrito” ao universo online, e que provoca muitos danos na vida real: a masculinidade tóxica e a cultura “incel”.

“Adolescência” é centrada na busca pela compreensão sobre o que levou Jamie, um menino de apenas 13 anos, a assassinar sua colega de escola. Ao longo dos quatro episódios, a família de Jamie vê seu chão desmoronar, conforme vão percebendo que o garoto doce, bom aluno e sem histórico de problemas de qualquer tipo, realmente cometeu o crime. Do lado de cá da tela, somos dominados por um sentimento angustiante e assustador, especialmente para aqueles que têm filhos: e se fosse o meu filho?

Em uma educação progressista e humanista, ensinamos os nossos filhos a respeitar o próximo, independentemente de gênero, credo, etnia, orientação sexual etc. Mostramos a eles a importância de cuidarmos uns dos outros e de agir com justiça e integridade. Mas será que estamos oferecendo a eles uma visão suficientemente crítica para detectar discursos que tentam seduzí-los a um comportamento totalmente oposto ao que ensinamos em casa?

No mundo digital, ao serem confrontados com uma mensagem totalmente oposta, com apenas alguns cliques de distância de conteúdos que reforçam o machismo sob o disfarce de conselhos, como se comportam as crianças e adolescentes?

Vídeos que ridicularizam mulheres, influenciadores que pregam que um “homem de verdade” não pode ser sensível e canais que disfarçam ódio como autoestima masculina são cada vez mais abundantes nas redes, especialmente naquelas onde praticamente não há moderação de conteúdo, como nas redes da Meta e no X. O mais assustador? Esse tipo de conteúdo é consumido em silêncio – durante o almoço, antes de dormir, fora do horário da escola, nos momentos em que os pais não veem, mas seus filhos estão ouvindo e compartilhando entre os amigos.

O SILÊNCIO QUE MATA

A história de “Adolescência” está sendo massivamente divulgada como um alerta para os pais sobre os riscos para a saúde e o desenvolvimento de crianças e adolescentes que passam muito tempo nas redes sociais, principalmente sem supervisão, e isto não é um mero acaso. De acordo com um levantamento feito pelo Comitê Gestor da Internet, apenas 31% dos jovens buscam apoio de adultos quando estão passando por situações difíceis online.

* Leia também: Como as redes sociais estão arruinando a infância do seu filho.

Stephen Graham, criador da série (e que interpreta o pai de Jamie), disse em entrevista que a inspiração para o roteiro surgiu depois de assistir duas reportagens diferentes sobre meninos que mataram meninas. “Me perguntei o que está acontecendo em uma sociedade em que esse tipo de coisa está se tornando comum”, disse ele ao programa The One Show, da BBC. “Eu não conseguia entender. Então, quis investigar e tentar lançar luz sobre essa questão em particular.”

Em um dos episódios da série, é mencionado o polêmico influenciador que se declara abertamente misógino,  Andrew Tate, que é uma espécie de “guru” entre os grupos conhecidos nas redes como “incel” (mencionado na série) e “red pill”. Se você chegou hoje na internet e nunca ouviu falar nestes termos, talvez seja hora de aprender para entender com o que estamos lidando.

Fonte: Reprodução Netflix/Montagem Drops de jogos

Os incels (“involuntary celibates” ou celibatários involuntários) são uma subcultura de homens que acreditam ser incapazes de ter relacionamentos ou relações sexuais devido a fatores externos, como aparência, status social ou genética. O termo surgiu nos anos 90 como uma simples descrição para pessoas que se sentiam solitárias, mas ao longo do tempo, a comunidade evoluiu para algo mais radical e, em alguns casos, perigoso. E por mais cuidados que possamos ter com os nossos filhos, todos estes discursos já alcançaram muitos adolescentes há bastante tempo.

A filosofia incel propaga o ódio às mulheres, e também está bastante relacionada ao feminicídio, devido à forma como os incels percebem e reagem às mulheres e à sociedade. Essa comunidade cria um ambiente onde o ressentimento se transforma em ódio, e em casos extremos, os leva a atos de violência.

Em 2014, Elliot Rodger (22 anos, EUA), matou 6 pessoas e se suicidou, deixando um manifesto onde dizia que queria se vingar das mulheres que o rejeitaram. Em 2018, Alek Minassian (25 anos, Canadá) , atropelou 10 pessoas e afirmou estar “lutando pela revolução incel”. Em 2021, Jake Davison (22 anos, Reino Unido), matou 5 pessoas, incluindo a própria mãe, e fazia parte de fóruns incel.

Fóruns incel funcionam como “câmaras de eco”, onde as frustrações são reforçadas por outros membros igualmente revoltados. Do sentimento de frustração homens e meninos podem passar para o ódio ativo e, em casos extremos, a cometer ações violentas.

O ambiente escolar é um dos cenários centrais de “Adolescência”. Os autores mostram como a escola falhou em proteger seus alunos do bullying, que está presente até mesmo diante dos professores, totalmente despreparados para lidar com estas questões. E Jamie não era o único a sofrer com isso. A própria vítima do crime era alvo de ataques constantes e teve uma foto íntima exposta, sendo ridicularizada em toda a escola. Um retrato cruel da misoginia.

Na série, a falta de intervenção eficaz dos professores transformou a escola em um espaço onde o sofrimento foi totalmente banalizado. Isso fica explícito na cena em que alguns meninos riem do fato da colega ter morrido. Os problemas dos alunos foram ignorados até se tornarem graves demais para serem contornados.

PODEMOS REALMENTE OS PROTEGER?

É óbvio que nem todos os incels são violentos, mas a cultura incel pode servir como um campo fértil para o ódio. A combinação de frustração, ressentimento e desumanização das mulheres cria um ambiente perigoso que, como vimos, já resultou em casos de feminicídio e ataques em massa.

Para evitar que essa mentalidade continue crescendo, aqui não existe fórmula mágica, cursinho ou milagre. Se não houver um olhar atento, os meninos crescerão acreditando que desvalorizar mulheres é normal, que sentir empatia é fraqueza e que impor-se significa gritar.

É mais do que reconhecido que o ambiente digital não é seguro para crianças, e que os adolescentes precisam de uma educação digital crítica. Caso contrário, serão eles os responsáveis por reproduzir essas ideias no futuro, para outros adolescentes.

É dentro de casa que essa conversa precisa acontecer, não como forma de controle, mas de conscientização. Ensinar a questionar, ouvir e respeitar é essencial. Criar um homem não é sobre torná-lo rígido, mas sim sobre humanizá-lo. Afinal, que tipo de influência está moldando a visão de mundo dos nossos filhos?

Não podemos nos furtar a dar aos nossos filhos, de qualquer gênero, uma educação emocional e sexual saudável. Ensinar desde cedo que relacionamentos exigem respeito e reciprocidade. Temos que os ensinar a reconhecer e a denunciar os discursos misóginos, e a não normalizar piadas sobre estupro ou violência contra mulheres. O silêncio e a omissão apenas fortalecem essa cultura. É preciso agir, conversar e estarmos mais presentes na vida digital e emocional de nossos filhos.

Lia Sérgia Marcondes

Mulher, mãe, cozinheira e jornalista, não necessariamente nessa mesma ordem. De esquerda até o último fio de cabelo. Vamos conversar sobre maternidade, cultura pop, arte, tecnologia, não necessariamente nessa mesma ordem. Afinal, no fim do dia tudo é política.

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