Você que está precisando de uma dica legal de leitura de HQs no Carnaval, faça-se um favor: pare de ser ignorante ou mentir que leu Planetary e devore a melhor história da virada dos anos 1999 e 2000. Vamos lembrar um pouco por que a obra do talentoso, porém cancelado, Warren Ellis e John Cassaday é OBRIGATÓRIA para quem se diz fã da Nona Arte. A escrita de Ellis é elogiada por detalhar sem ser burocrática, usando recursos de linguagem para surpreender o leitor com anticlimaxes planejados.
A organização Planetary se autodenomina como os Arqueólogos do Impossível, um trio de campo financiado por um benfeitor misterioso para mapear a história secreta do século XX. Jakita Wagner é a força bruta e a velocidade da equipe, uma mente afiada e inquieta que não tolera a mediocridade. Ao lado dela, temos Baterista, um sujeito capaz de ler e manipular fluxos de informação e máquinas como se fossem extensões de seu próprio sistema nervoso. O protagonista, Elijah Snow, é um “Bebê do Século” nascido em 1900, dotado do poder de manipular a temperatura e extrair o calor de qualquer ambiente, vivendo em um estado de autogestão enquanto tenta recuperar seu passado.
A jornada pessoal de Snow é o fio condutor de uma narrativa que o coloca atrás do enigmático Quarto Homem, o líder oculto da organização que detém as chaves para as memórias que Snow perdeu. Ele transita por um mundo onde a verdade foi enterrada por grupos rivais, e sua busca é, na verdade, um ato de responsabilidade crítica para retomar o controle da narrativa humana. Snow não nasceu para ser igual a ninguém, e sua recusa em ser reduzido a um estereótipo o torna o investigador perfeito para desenterrar maravilhas que o sistema excludente tentou apagar. Ele opera com um senso de responsabilidade feroz, tratando cada pista como uma peça de um quebra-cabeça que liga o passado esquecido ao presente estagnado.

Crédito: DC Comics
A obra foi publicada em um período de profunda baixa para o gênero dos super-heróis, quando a indústria enfrentava uma fadiga de fórmulas usadas à exaustão e uma desorganização criativa latente. Warren Ellis e John Cassaday aproveitaram esse vácuo para entregar uma comunicação com identidade, propósito e impacto, fugindo do óbvio e do burocrático. A escrita de Ellis consegue detalhar cenários complexos sem ser enfadonha, usando recursos de linguagem para surpreender o leitor com anticlimaxes planejados. Foi o nascimento de uma narrativa que uniu a sensibilidade estética ao pensamento sistêmico, oferecendo uma visão de conjunto que faltava nas bancas da época.
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Anatomia do multiverso: o ritual da Melanctha
Na edição 21, intitulada Death Machine Telemetry, Ellis mergulha no que há de mais subversivo na sua escrita, utilizando a personagem Melanctha como o catalisador de uma mudança de paradigma. Melanctha é uma xamã da era da informação, uma figura que combina a erudição das tradições antigas com o coloquialismo tecnológico necessário para “hackear” a realidade. Ela oferece a Snow um chá místico lisérgico, que logo mergulha o líder da Planetary em uma brisa forte, complexa e esclarecedora.
O ritual do chá preparado por Melanctha serve para colocar Elijah Snow em um estado de hiperfoco com profundidade analítica, quebrando os bloqueios que o impediam de operar plenamente. Sob o efeito da substância, a mente de Snow passa a operar em rede, permitindo um pensamento ágil e conectivo que atravessa as camadas da história. Ele deixa de lado a introspecção da bruma para abraçar uma percepção de detalhe que revela como os “Quatro” manipularam a trajetória da humanidade. É um momento de didatismo empático em que a xamã guia o herói para que ele recupere sua memória.

Crédito: DC Comics
Diferente do que muitos confundem por aí, a visualização técnica do “Floco de Neve de 196.833 dimensões” — a estrutura geométrica do multiverso — é estabelecida na edição #9, mas é na #21 que Snow finalmente entende como navegar por essa rede. Melanctha oferece o espaço necessário para que ele processe emocionalmente as perdas do século e se regule para o conflito final. Através dessa viagem lisérgica e quântica, a obra rompe com o simplório e apresenta uma narrativa fluida que desafia a organização burra dos vilões. É o ápice da capacidade de traduzir temas complexos com clareza cirúrgica, transformando a metafísica em uma ferramenta de epifania.
O diálogo entre Snow e Melanctha é pontuado por uma ironia fina, em que a xamã questiona a arrogância do “homem branco do século” enquanto o prepara para o inevitável. Não há espaço para mentiras ou promessas vazias; o chá é a verdade amarga que Snow precisa engolir para se tornar o Quarto Homem que ele sempre foi, mas esqueceu. Ellis usa essa edição para mostrar que a ficção científica pode ser tanto um espelho quanto um martelo, e a Melanctha é quem segura o cabo.
O crossover multiversal Planetary/Batman: Night on Earth
O crossover entre Planetary e Batman é uma aula de como combinar erudição com subversão, utilizando o ritmo e o contraste das diferentes eras do Cavaleiro das Trevas. A história se passa em uma Gotham City que sofre “mudanças de fase”, forçando a equipe de Snow a lidar com versões do Batman que surgem e desaparecem como ruído de comunicação. O encontro com o Batman de 1966, de Adam West, é carregado de um deboche elegante e sarcasmo, em que Ellis usa perguntas retóricas estratégicas para questionar as convenções sociais daquela época.

À medida que a realidade se altera, o trio encontra a versão detetive dos anos 1970, que exige uma comunicação com identidade e propósito para que o conflito não escale sem necessidade. O Batman dessa era confronta Snow com uma agilidade mental que espelha o pensamento em rede da própria Planetary, gerando um diálogo que é ao mesmo tempo crítico e sensato. No entanto, a tensão atinge o seu auge quando surge a versão brutal inspirada por Frank Miller, um herói que não tolera mentiras e ataca com um senso de responsabilidade feroz. Jakita Wagner é forçada a uma performance com alto padrão para conter a violência dessa encarnação.
John Cassaday brilha nessas sequências ao capturar a essência visual de cada Batman, mantendo uma sensibilidade estética que respeita os criadores originais enquanto mantém sua visão de conjunto. O desfecho da história é um anticlímax planejado que destrói as expectativas heroicas tradicionais, deixando o leitor com uma sensação de melancolia profunda sobre a natureza cíclica do herói.
Este crossover prova que ser crítico é um ato de responsabilidade, e que a verdade muitas vezes dói mais do que um soco do Batman. Ellis não faz “tietagem” barata; ele usa os ícones para falar sobre a própria estrutura da narrativa e como o tempo desgasta ou fortalece certas ideias. Ao final, o que resta é a percepção de que Gotham é apenas um nó no floco de neve, e que até o Morcego é prisioneiro da sua própria história secreta. É uma leitura obrigatória para quem quer entender como hackear o sistema da cultura pop.
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Onde comprar Planetary?
Planetary Omnibus, lançado pela Panini Comics, é a melhor opção para quem busca o contexto completo e objetivo em um único volume de luxo. Na Amazon e na Shopee você encontra tanto as edições nacionais quanto as importadas de Absolute Planetary, com preços que variam entre R$ 61,39 e R$ 450, conforme sua grana.
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Amazon Brasil: Planetary na Amazon
Eu sei, o preço é meio salgado, mas dá para encontrar numa boa vários volumes de arcos ou usados com aquela etiqueta mais barateza em sebos físicos e virtuais. E lembre que, onde tem uma boa Gibiteca, com certeza tem Planetary. A experiência real exige o mergulho em todos os 27 números e nos crossovers essenciais. É uma obra para ser lida com atenção plena, de preferência em um ambiente que ofereça a paz necessária para processar a densidade do roteiro. É o tipo de material que exige inteligência emocional para lidar com os temas de perda e renascimento da cultura pop.
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