Eu vi Black Mirror Bandersnatch e é muito bom… Por Renato Degiovani, colunista do Drops de Jogos

Publicado originalmente no perfil de Facebook do autor em 30 de dezembro de 2018.

Foto: Divulgação

Trata-se de um filme interativo e não de um game, portanto, quem se deixou contaminar por esse detalhe certamente perdeu o que o filme tem de melhor, que é justamente o controle do andamento da narrativa.

Ambientado nos anos 80, a maior parte das cenas de gamedev retratam exatamente como eram aqueles tempos, inclusive a dificuldade de desenvolver um conceito novo para a narrativa (menos a calça de veludo, que foi top no final dos anos 60 início dos 70 e depois foi sumariamente abolida do guarda roupa das pessoas descoladas).

Sim, é funcionalmente falando um "livro de aventuras dos anos 70", sem a maior parte dos recursos tecnológicos que estão disponíveis hoje em dia, mas, como já disse antes, é um filme e não um game.

Considerações pro povo que entende do riscado (ou finge entender):

1- Quando a gente trabalha com múltiplas escolhas em narrativas, precisa determinar o limiar da interatividade, ou seja, onde está o limite entre "contar" e "vivenciar" um enredo. Se o enredo for complexo demais, faça um jogo e não um filme.

2- Não creio que essa experiência da netflix (e que nem mesmo é a primeira vez que ela faz isso) nos mostre tudo que é possível fazer. Acredito que ainda teremos surpresas pela frente.

3- Entendo como opção dos criadores o clima "neurótico" do personagem mas não acredito que isso seja necessário para inserir o espectador num ambiente que, de certa forma, retrata multiplas alternativas ou realidades. A vida real não é assim e a imaginária não precisa ser caótica para parecer diferente e/ou chamar a atenção.

4- A netflix está de parabéns pela iniciativa porque rompe com um modelo pré estabelecido de entretenimento eletrônico e eu não ficaria surpreso se um dia ela lançasse uma linha de games completamente fora da caixinha (literalmente).

Renato Degiovani é o primeiro game designer de jogos digitais, desde 1981. É colunista do site Drops de Jogos no espaço DEV.LOG, com textos regulares sobre sua experiência de décadas. Foi o desenvolvedor do jogo Amazônia, é conhecido na comunidade nacional do aparelho MSX, editou a revista Micro Sistemas e é responsável pelo espaço TILT Online.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Cultura