Ser ou não ser não gamer? E como isso não importa. Por Ana “Zezé”, jornalista trans

Texto originalmente publicado no site Geração Gamer, focado na cena brasileira de jogos digitais.

Foto: Divulgação/Creative Commons

Olá pessoal! Eu sou a Ana “Zezé”, e vim falar de um tema um tanto delicado…

Este não é um texto para impor conceitos ou dogmas. O objetivo aqui será propor uma discussão que aparentemente parece pueril mas gera debates acalorados. Sentimos mal estar, atrito entre irmãos e até final de relacionamentos envolvem este tema. E, pasmem: Não é política mas de algo tão feroz quanto.

Já se perguntou isso? Você é um gamer? Porque?

Sua irmã caçula joga, seus priminhos, sua mãe e todas as pessoas jogam. Mesmo se for em um aparelho não dedicado. A pessoa pode ir até um smartphone ou um emulador no navegador do PC.

De uma forma ou de outra todos estão jogando, certo? Logo, todos nós somos… gamers!

Ou não?

Como surgiu o termo gamer?

Primeiramente vamos falar um pouco sobre da onde veio o termo gamer. É fundamental ter uma ideia da origem da denominação da palavra. Dessa maneira, podemos compreender melhor porque tantas pessoas se apegam a esse nome com ar de exclusividade, como se fizessem parte de uma irmandade ou de uma torcida de futebol.

O termo gamer também pode gerar repulsa para algumas pessoas que não jogam, algo semelhante a nerd.

É tudo uma questão de ponto de vista.

De acordo com Brandon Sheffield, desenvolverdor de jogos, em um artigo para o Gamasutra, o termo gamer foi criado para classificar e especificar pessoas que gostassem de jogar videogames.

Ganhou força especialmente na década de 80, época em que aparelhos como Atari e ZX Spectrum tinham como principal público alvo crianças. Sendo assim, estes computadores domésticos passaram a ser tratados como brinquedos.

Mesmo com a crise no mercado de games ocidentais, uma parcela de pessoas que ainda jogavam videogames invariavelmente acabou crescendo e mantendo o hábito. Dessa forma, o termo em inglês gamer foi uma definição pejorativa de pessoa que fica trancada no quarto e longe do convívio social.

Um ponto de vista mais histórico e diferente do padrão foi destacado na entrevista de Jon Peterson ao site Polygon. Ele alega que gamer era a pessoa que jogava “wargames”, uma modalidade de jogos de tabuleiro com temática militar.

Não confundam com aquele jogo de conquistar 20 territórios, destruir todo exército amarelo e coisas do gênero. Esse é legal também, mas wargames tem uma profundidade do ponto de vista estratégico e de simulação maior.

Isso remonta ao século 18, era em que esse tipo de jogo era restrito basicamente ao ambiente militar. Mesmo que você fosse um homem, se estivesse fora do exército não teria acesso a esse tipo de jogo. Portanto você não seria gamer.

Se fosse mulher? Só se for piada cogitar isso naquele tempo. E se fosse uma trans… bom, deixa pra lá.

Depois de jogar wargames, os jogos se tornaram uma atividade mais “democrática”, passando de um hobby militar para clubes de jogadores como estudantes de Oxford onde não se aceitavam mulheres. Nem como jogadoras e tão pouco como estudantes.

Após analisar essa história, fica bem claro que ser gamer tem um viés de exclusão.

Ou você é gamer, seguindo determinados ritos e pré-requisitos, ou você não é.

Gostar de jogar não necessariamente torna você gamer. O que tornaria você um gamer neste caso seria estar de acordo com toda uma tendência que forçaria você a agir de um modo. Seria consumir determinados produtos e seguir valores não necessariamente condizentes com os seus.

Você será um gamer, mas quanto ainda restaria de você?

O fato de ser gamer e levar isso como uma condição abre espaço para exclusão e isso não é legal com ninguém. Hoje você pode estar em um lado confortável, mas como será amanhã?

Mas como é ser gamer hoje?

Saiu em 2016 uma pesquisa da Game Brasil, cujo conteúdo mostra que, atualmente, 52,6% do público que joga algum game em nosso país é mulher. O resultado gerou os mais diversos comentários. Os “gamers” contestaram o resultado na sua maioria, quase replicando o que Brandon Sheffield relatou sobre o público de games na década de 80.

Quem busca diversão, interação ou apenas jogar em seu princípio básico de entreter, sociabilizar ou treinar raciocínio, não é e nunca será um gamer de verdade.

Mas e quem só joga em mobile é gamer ou não é?

Se mesmo depois de tudo você ainda achar importante diferenciar quem é ou não é gamer, vai ficar mais dificíl ainda de definir. Talvez quem é ou não é gamer seja uma questão subjetiva. Afinal o que você prioza mais? O tempo que você se dedica jogando ou falando sobre? Quem sabe lendo e escrevendo sobre games? Será estes os requisitos necessários? Diferenciais entre gamers e mortais.

Eu adoro games desde sempre. Com o passar dos anos isso se tornou fundamental para mim devido a diversos fatores. A questão de imersão, entrar em um outro mundo e ser uma outra pessoa são pontos que me importaram. Nessas horas em que jogava eu sentia que podia ser realmente quem eu era.

Jogava especialmente em um PS3 e no PC. Eram horas e horas na frente de um monitor até comprar um Vita. Eu tenho um, mas acabo usando ele mais pra ver filmes e ouvir música em streaming…

Nesta mesma época minha mãe ganhou um celular. Um smartphone intermediário só pra fazer umas ligaçãoes, ver um pouco de TV, um videozinho de gatinho aqui e acolá e jogar, é claro.

Minha mãe não jogava nem dominó. Aquele “Pet Rescue Saga” foi o equivalente a descoberta do fogo para ela. Assim, aquele smartphone passou a ter um novo valor, com um peso maior do que a TV ou qualquer outra plataforma de mídia na vida de minha mãe. Ela chegou a perder o bendito celular, mas rapidamente providenciou um outro aparelho mais sofisticado.

Quem é realmente gamer? Eu ou minha mãe? E isso seria mesmo relevante?

Não quero ser gamer de verdade. Nem minha mãe quer ser gamer. Queremos apenas jogar!

Queremos diversão, ter assunto para falar com amigos das antigas e com novos amigos. Escrever sobre ou quem sabe fazer um curso na área de programação ou artes. No final das contas esse tal de “ser gamer” não é e nem pode ser mais importante do que jogar . Algo tão grande e que abarca tanta coisa numa variedade tão diversa e rica de pessoas que uma nomenclatura não se faz o bastante para ilustrar nossa diversidade. Somos todas (os) pessoas e jogadoras (es) também. E isso é ótimo.

Deixo uma provocação, por fim. Ale McHaddo, presidente da ABRAGAMES (Assossiação Brasileira de Jogos Digitais) e meu professor no curso de design de games, deu entrevista ao portal IGN Brasil. Ele levantou uma questão interessante entre jogos e jogadores casuais:

“Se você parar para pensar, não há nada mais hardcore que um jogo casual… e nada mais casual do que um jogo hardcore. Afinal, o que é mais hardcore? Um game que você joga no sofá e só de vez em quando tem tempo para ele, ou um jogo que te acompanha o dia inteiro, no ônibus, no banheiro e na fila do dentista?”

Não deixa de ser um ponto a se considerar…

Ana “Zezé” é mulher trans e estudante de jornalismo na Universidade Anhembi Morumbi. Ela diz que sua vida é movida a jogos de todos os tipos e de qualquer plataforma. Gosta do digital e do analógico e considera tanto a imersão quanto a interação como as experiências que contam. É fã de ficção científica, FPS, (NeoTokyo) e Visual Novels.

Acompanhe Drops de Jogos no Facebook e no Twitter.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Categorias:
Cultura