Uma opinião sobre o fim do Ministério da Cultura. Por Renato Degiovani, colunista do Drops de Jogos

Vamos combinar uma coisa: Ninguém extinguiu o Ministério da Cultura. Ele foi encampado pelo Ministério da Educação (como era antes) e isso não autoriza ou valida nenhuma bola de cristal quanto ao funcionamento de um, de outro ou de ambos.

Foto: Divulgação/MinC

Se é para distribuir verbas, editais para produção e renúncia fiscal seletiva, então não há muito o que reclamar da fusão. Basta uma salinha, um computador, dois ou três funcionários públicos e pode até chamar de secretaria nacional da cultura.

A pergunta que parece sem resposta é: no setor de games, pra que serve um Ministério da Cultura? Será que é para fomentar a produção cultural ou para criar espaços onde não exista a presença de canais de disseminação cultural? São importantes iniciativas como mostras e festivais e (por que não) até mesmo o vale cultura pode ser "vendido" como algo que visa facilitar o acesso das pessoas à produção cultural.

Mas dar dinheiro (não importa sob qual justificativa ou modelo funcional) para a produção?

Alguns defendem a participação do ministério no incentivo à produção comercial de jogos, mas isso não ficaria melhor no Ministério da Indústria e Comércio? Por que raios um ministério da cultura tem que se meter com o lado comercial da produção, se já existe ministério para isso? E quanto aos impostos? Compete mesmo ao (ex) minc intermediar uma briga que deve ser travada entre os setores produtivos e o ministério da fazenda? O que dizer das inovações e dos aspectos tecnológicos? As pessoas querem debater tudo dentro do ministério da cultura, mas cultura nacional que é a razão de ser do próprio ministério, quando aparece na mesa de debate, todo mundo torce o nariz.

São as pessoas, as comunidades, as empresas, os artistas, etc, que produzem bens de natureza cultural e o governo deveria pelo menos esperar pela existência real deles, antes de gastar por conta. Subvencionar produção, na base de projeto de intenção, pode parecer direcionamento do que se pretende ser "cultura" ao invés de deixar a cultura nascer como uma iniciativa das pessoas ou grupos.

Que tal uma mostra anual e democrática de jogos digitais produzidos no Brasil? Que tal painéis para debate sobre meios de produção, inclusão de minorias, qualidade dos produtos e qualidade do conteúdo e da temática nacional? Que tal um prêmio pelo destaque e importância ou relevância de jogos que, a despeito das dificuldades do mercado, chegaram até o consumidor final. Que tal valorizar o esforço daqueles que foram até as últimas instâncias com suas criações, ao invés de simplesmente distribuir benesses a quem pedir ou a quem vencer uma disputa?

O valor da criação cultural não é uma característica que possa ser projetada como um produto comercial pleno, mas pode ser reconhecida e divulgada como um bem comum da nação. É preciso avaliar se o que todo o setor de games nacional espera (esperava) do Ministério da Cultura não seria de competência das associações, que deveriam representar os interesses do setor.

Antes que joguem as pedras, quero deixar bem claro que considero a fusão dos ministérios um erro de proporções bíblicas, dada a importância de ambos.

Renato Degiovani é o primeiro desenvolvedor de jogos brasileiro, desde 1981. É colunista do site Drops de Jogos no espaço DEV.LOG, com textos regulares sobre sua experiência de décadas. Foi o desenvolvedor do jogo Amazônia, é conhecido na comunidade nacional do aparelho MSX, editou a revista Micro Sistemas e é responsável pelo espaço TILT Online.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Cultura