Vingadores: saiba como três sagas das HQs conectam Guerra Infinita e Ultimato a Doomsday e Guerras Secretas nos cinemas - Drops de Jogos

Vingadores: saiba como três sagas das HQs conectam Guerra Infinita e Ultimato a Doomsday e Guerras Secretas nos cinemas

Entenda como a complexa arquitetura multiversal de Jonathan Hickman e o desespero ético dos Illuminati pavimentaram a estrada para o fim de tudo e o inevitável renascimento do Universo Cinematográfico Marvel.

Marvel Comics

Mesmo que você não seja fã de super-heróis, especialmente da Marvel Comics, anda quase impossível ignorar a caralhada de notícias, projeções, vazamentos e rumores sobre a aguardada reunião massiva de personagens nos filmes dos Vingadores que prometem trazer de volta os dias de glória do Universo Cinematográfico Marvel (MCU): Doomsday e Guerras Secretas. Para compreender como a coisa toda aconteceu nos quadrinhos — e o que deve ser removido e mantido no MCU — é preciso resgatar três grandes sagas que pavimentaram o caminho dos Maiores Heróis da Terra rumo ao estrelato.

Antes de entrar nos detalhes, aqui vai apenas um contexto rápido de bastidores. Com a “fadiga dos heróis” nos quadrinhos da Marvel e DC nos anos 1990 — sim, aconteceu já nas revistas —, a Marvel resolveu criar um universo paralelo para revitalizar suas franquias em uma nova pegada, o Universo Ultimate, em uma Terra do Multiverso, em 2001. Simultaneamente, o editor-chefe Joe Quesada e o roteirista Brian Michael Bendis começaram a construir uma fórmula que conseguiu trazer de volta os Vingadores, que estavam em baixa, como sua equipe headliner novamente.

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Como? Bem, em vez de sagas de continuidade retroativa escrota que nada mudava de fato e tudo se repetia, os eventos começaram a determinar pontos de progressão e consequências narrativas. Ou seja, as decisões editorais que viravam reboots inconsistentes e mortes gratuitas caça-níqueis se tornaram parte da própria narrativa. Então, se um personagem precisava sumir um pouco para ser atualizado, isso passou a acontecer por meio de uma história que mostrasse o peso disso de forma dramática, divertida e verossímil. E mais importante: de uma maneira que realmente começamos a sentir uma passagem de fase, com um desenvolvimento palpável na trajetória dos personagens e do próprio mundo fictício — e, desde então, a continuidade vem sendo constantemente revisada dessa forma.

Lá já quase no final dos anos 2000, quando o Universo Ultimate degringolou e os Inumanos foram equivocadamente usados como substitutos dos X-Men em uma época de restrições editoriais, a hierarquia cósmica da Marvel também ficou zoada, assim como as timelines e realidades e Terras paralelas. E, em vez de simplesmente cancelar títulos com eventos “bombásticos” sem um pingo de criatividade, a Casa das Ideias, então, pavimentou um caminho com fluxo dinâmico de narrativa que explicou cada elemento responsável por trazer mudanças.

A decisão editorial de encerrar o Universo Ultimate e povoar o Multiverso, assim como a de reposicionar os X-Men, os Inumanos e o Quarteto Fantástico, tornou-se uma jornada que explico abaixo. Entendido? Bom, leia que fica mais fácil.

Infinito: Capitão América arregaça como estrategista em treta cósmica

Se você acha que a grandiosidade de Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato veio do nada, é porque não prestou atenção em Infinito (2013). Essa saga foi o primeiro grande teste de Jonathan Hickman à frente dos Maiores Heróis da Terra, e o resultado foi uma ópera espacial que deixou qualquer ficção científica de alto orçamento no chinelo. O enredo é dividido em duas frentes brutais: enquanto grande parte dos Vingadores viajam para o espaço profundo para enfrentar os Construtores — uma raça ancestral que decidiu que o universo precisava de uma “limpeza” — a Terra fica vulnerável à invasão de Thanos e sua recém-apresentada Ordem Negra.

É aqui que vemos a faceta estrategista de Steve Rogers em seu ápice. Hickman tirou o Capitão do papel de apenas “líder de campo” e o transformou em um General Espacial de verdade. Quando o Conselho Galáctico, formado por Spartax, Krees, Skrulls e Shi’ars, estava pronto para aceitar a derrota, foi Rogers quem assumiu o comando da resistência. Ele não apenas planejou a libertação de heróis capturados, como usou o Thor como uma peça de xadrez diplomática em Hala. Isso culminou na cena antológica em que o Deus do Trovão finge rendição apenas para invocar o Mjolnir através do peito de um Construtor, provando que até entidades milenares podem ser derrubadas com um bom plano e um martelo encantado.

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A influência dessa HQ no MCU é óbvia, mas frequentemente subestimada. A Ordem Negra, a estética dos exércitos alienígenas e a dinâmica de invasão global que vimos no cinema vieram diretamente dessas páginas. Nos quadrinhos, a vitória no espaço foi celebrada com a frase “Este é um mundo de Vingadores”, o que expandiu a jurisdição do grupo para além da nossa atmosfera. No cinema, os Irmãos Russo beberam dessa fonte para criar a escala de desespero de Guerra Infinita, e o que vem por aí em Doomsday deve resgatar a outra metade da trama: a de que, enquanto o Capitão salvava o dia sob os holofotes, os Illuminati estavam escondidos nos porões tomando decisões deploráveis — os Illuminati foram o mais próximo que os heróis estiveram da vilania, na verdade.

E por falar em trabalho sujo, Infinito serviu para consolidar as Incursões. Enquanto os Vingadores brilhavam nas estrelas, o grupo secreto formado por Tony Stark, Reed Richards, Namor, Pantera Negra, Doutor Estranho e Fera descobria que o Multiverso estava colapsando. O ponto focal desse desastre era a nossa Terra, e esses “gênios” começaram a acumular armas de destruição em massa na surdina. Chegaram ao cúmulo de lobotomizar Steve Rogers, apagando suas memórias quando ele se opôs aos seus métodos moralmente falidos. É essa dualidade — a glória pública contra a podridão ética dos bastidores — que vai conectar os filmes passados aos próximos desastres multiversais.

Os X-Men passaram para o segundo plano enquanto as restrições editorais ridículas alimentadas pelos direitos sob domínio da Fox obrigaram também as equipes criativas a “congelar” o Quarteto Fantástico. Os criadores, então, “promoveram” os Inumanos ao bombardear toda a Terra com a Névoa Terrígena deles, o que causou uma doença nos mutantes — foi uma maneira de deixar os Filhos do Átomo sem grande destaque nessa época, já que qualquer inovação na linha de Wolverine e e seus amigos poderia alimentar mais propriedades para a Fox.

Só para complementar, isso durou todo os anos 2010, quando os X-Men e o Quarteto Fantástico praticamente desapareceram do merchandising e até mesmo dos videogames. Eles só voltariam com força total em 2019, depois que a Disney comprou a Fox e essa putaria acabou com o retorno da Primeira Família de Heróis e a controversa, genial e complexa fase de Hickman na “Era Krakoana” dos mutantes.

Time Runs Out: O desespero moral e a estrada para o colapso

Após os eventos de Infinito, entramos no arco Time Runs Out (Tempo Esgotado), que funciona como a contagem regressiva definitiva para o apocalipse. A história dá um salto de oito meses no futuro e nos joga em um cenário onde a esperança é um conceito morto. As Incursões tornaram-se eventos frequentes e os heróis desistiram de ser os “mocinhos”. A SHIELD, sob o comando de um Steve Rogers envelhecido e amargurado, caça os Illuminati como criminosos de guerra. É o ambiente mais cínico e pessimista que a Marvel já produziu, e é exatamente esse o tom que esperamos ver em Vingadores: Doomsday.

Nesta fase, a bússola moral foi estraçalhada. Para salvar a Terra-616, os Illuminati foram forçados a tomar decisões impossíveis, como detonar planetas inteiros para evitar a colisão de universos. Quando o grupo original hesitou diante do genocídio, Namor — sempre o pragmático insuportável — fundou a Cabala, um grupo de vilões liderado por Thanos que não tinha escrúpulos em destruir realidades habitadas para garantir a própria sobrevivência. Imagine isso na tela grande: personagens que o público ama sendo obrigados a escolher qual universo deve perecer para que o MCU continue existindo. É o ápice do drama existencial que Hickman costurou tão bem.

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Enquanto a pancadaria rolava entre Vingadores e Illuminati, o Doutor Destino estava na Latvéria movendo suas peças com uma paciência sinistra. Com a ajuda do Homem-Molecular, Victor Von Doom descobriu que as entidades onipotentes e visualmente malfeitas Beyonders estavam usando as variantes de Owen Reece em cada universo como “bombas” para obliterar o Multiverso de uma vez por todas. Destino, em vez de esperar pelo fim, agiu de forma implacável: começou a assassinar cada versão do Homem-Molecular, criando sem querer o efeito cascata das incursões na tentativa desesperada de salvar o que restava. É aqui que o Victor de Robert Downey Jr. deve se provar: não como um vilão de opereta, mas como o único homem com a frieza necessária para encarar o fim do mundo de frente.

No encerramento de Time Runs Out, sobram apenas dois universos: o principal (616) e o Ultimate (1610). É o momento em que a Marvel decide implodir sua própria continuidade. Nick Fury e o Criador (o Reed Richards psicopata do Universo Ultimate) iniciam uma guerra total entre as duas Terras, enquanto os heróis tentam construir “balsas salva-vidas” para preservar o que for possível da humanidade. Se os Irmãos Russo seguirem essa linha, veremos o MCU colidindo com outras franquias em um espetáculo de destruição que finalmente dará peso ao conceito de “Guerra Multiversal” que a série do Loki tanto mencionou.

Lembra dos bastidores que eu disse? Bem aqui nessa parte da trama, foi a Marvel, basicamente, detonando tudo o que não prestava mais no Universo Ultimate e aproveitando somente os produtos que davam retorno e tinham potencial, como Miles Morales, o Criador e uma ou outra coisa que ainda não tinha se tornado uma bosta.

Guerras Secretas: o reinado de deus e o soft reboot do MCU

As Guerras Secretas de 2015 não foram apenas um evento caça-níquel; foram a conclusão apoteótica de anos de planejamento narrativo. Esqueça a arena de gladiadores datada de 1984. Aqui, Hickman apresenta o Battleworld (Mundo Bélico): uma colcha de retalhos feita dos restos mortais de universos destruídos, governada pelo “Deus Destino”. Victor Von Doom conseguiu usurpar o poder dos Beyonders e, com o Doutor Estranho atuando como seu conselheiro e xerife, moldou uma realidade onde ele é o senhor absoluto, o Quarteto Fantástico original foi apagado da existência (com Sue Storm sendo sua “esposa”) e uma legião de Thors serve como sua força policial.

Essa saga opera como um drama político de alta voltagem. Cada região do Mundo Bélico é um fragmento de realidades clássicas: tem o território dos Zumbis Marvel, a Nova York futurista de 2099 e as terras áridas do Velho Logan. O conflito central explode quando os sobreviventes das balsas de Time Runs Out despertam nesse mundo distorcido. A batalha final entre Reed Richards e Victor Von Doom não é apenas física, mas uma disputa sobre quem tem a melhor visão para a humanidade. É uma rivalidade que a Marvel Studios precisa tratar com o respeito que merece, especialmente agora que o Quarteto Fantástico está chegando para ocupar seu lugar de direito.

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Para o MCU, as Guerras Secretas são a desculpa perfeita para o tão falado “soft reboot”. Nos quadrinhos, a saga serviu para limpar a casa, trazendo Miles Morales e o Velho Logan para a cronologia principal e dando um “descanso” para o Quarteto Fantástico enquanto eles reconstruíam o Multiverso. No cinema, isso resolve problemas burocráticos imensos, como contratos astronômicos e atores que já estão cansados da rotina de academia e efeitos visuais. Ao final do filme, teremos uma nova Terra-616, permitindo que X-Men e Quarteto coexistam com os Vingadores sem as ginásticas mentais que o roteiro precisa fazer hoje.

A grandiosidade visual que os Irmãos Russo prometem deve focar nesse sentimento de “fim de uma era”. Se eles honrarem o material de 2015, teremos momentos iconográficos, como o Pantera Negra usando a Manopla do Infinito para peitar um Destino onipotente. É o fechamento de um arco monumental que começou lá atrás e que vai culminar na maior mudança de status quo que o cinema de entretenimento já viu. Prepare-se, porque o que vem depois de Guerras Secretas será uma Marvel completamente diferente — e, esperançosamente, muito mais coesa.

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O mistério de Henry Cavill e o poder devastador dos Beyonders

Os rumores de que Henry Cavill pode assumir o manto do Beyonder em Guerras Secretas elevaram as expectativas a um nível estratosférico. Mas, para além do visual de galã, quem é essa entidade? Nos quadrinhos de 1984, ele era uma presença quase infantil e onipotente. Porém, Hickman e o roteirista Al Ewing expandiram essa mitologia: os Beyonders são, na verdade, uma raça de entidades que habitam o “Espaço Branco” além do Multiverso. Eles são os “operários” cósmicos criados pelos Celestiais para monitorar — e eventualmente descartar — ciclos inteiros de existência. Eles não veem os heróis como ameaças, mas como bactérias em uma Placa de Petri.

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Escalar Cavill para esse papel seria uma jogada genial de subversão. O Beyonder não precisa ser o vilão que grita e faz discursos; ele pode ser uma figura de calma absoluta e frieza divina, alguém que decide o destino de trilhões de vidas com a mesma indiferença com que a gente limpa a tela de um celular. Sua interação com o Doutor Destino é o que move as engrenagens da saga: Destino é o homem que se atreveu a roubar o fogo dos deuses, e os Beyonders são os deuses que vieram cobrar a conta. Com a imponência física de Cavill, o personagem ganha a gravidade necessária para que o público entenda que, desta vez, os Vingadores não estão lutando contra um Titã Louco, mas contra as leis da própria criação.

Saber que os Beyonders são remanescentes de ciclos universais passados dá um peso extra à trama. Eles são o lembrete de que tudo o que conhecemos é cíclico e destinado a acabar. No cinema, essa entidade pode ser o catalisador que obriga os heróis de diferentes franquias (Fox, Sony e MCU) a se unirem, não por amizade, mas por uma necessidade desesperada de não serem apagados da história por um ser que mal nota a presença deles.

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Cinco personagens cruciais de Guerras Secretas que (ainda) não estrearam no MCU

Para que essa adaptação não seja apenas um festival de participações especiais vazias, a Marvel precisa introduzir esses cinco pilares da narrativa de Hickman:

  • Miles Morales: O coração do Universo Ultimate. Sua sobrevivência ao colapso e sua interação com o Homem-Molecular são a chave para a restauração da esperança no final da saga.

  • Homem-Molecular (Owen Reece): O personagem mais importante e subestimado. Ele é a âncora de poder que sustenta o Mundo Bélico do Destino e a ferramenta usada pelos Beyonders para o reset multiversal.

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  • Cisne Negro: A personagem que serve como o prenúncio da desgraça. Ela é quem traz o conhecimento técnico sobre as Incursões e expõe a hipocrisia dos heróis que tentam salvar o mundo.

  • Beyonder: Seja como uma entidade individual ou uma raça, ele é o motivo de tudo existir. Sem o Beyonder, não há “Guerras” e muito menos “Secretas”; é o conceito que eleva o conflito ao nível divino.

  • Manifold (Eden Fesi): O mutante que consegue “falar” com o universo. Ele foi essencial para salvar o núcleo central de heróis em Time Runs Out, permitindo que houvesse alguém para lutar no Mundo Bélico.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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