Editorial: No Dia da Mentira queremos falar um pouco sobre a Verdade

Hoje é Primeiro de Abril, Dia da Mentira. E queremos falar sobre um assunto diferente e, também, chato.

Foto: Divulgação

Fake news não é novidade. Boatos sempre existiram na história da humanidade, na imprensa, e o Dia da Mentira acaba se tornando um dia de brincadeiras nas principais publicações digitais. Neste ano, eu e o editor de conteúdo deste site, o Kao Tokio, decidimos não fazer nenhuma brincadeira com mentira.

As notícias falsas se tornaram um problema no noticiário político e estão presentes também em outros assuntos. Não é exclusividade de eleições e são as mentiras que exigem uma maior pluralidade na imprensa. É necessária uma grande diversidade de meios de comunicação para evitar que erros sejam passados para frente e para que exista uma fiscalização efetiva da mídia. É desta maneira que se criam ferramentas de checagem de notícias, cruzando os dados.

E há outro problema envolvido na disseminação de mentiras: As condições de trabalho dos jornalistas.

O Brasil é o oitavo país no mundo que mais mata jornalistas segundo a Press Emblem Campaign (PEC), instituição com sede na Suíça que reúne o número de profissionais mortos em casos de trabalho. No total, foram registrados 113 assassinatos de jornalistas em 2018, um aumento de 14% em comparação ao ano de 2017. Ficamos atrás do Afeganistão, México, Síria, Iêmen, Índia, Estados Unidos e Paquistão, nesta ordem. Os números são similares aos da ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

Com a crise da publicidade em meios tradicionais como televisão e jornais, o salário médio dos repórteres caiu e as condições de trabalho na imprensa se deterioraram com a multiplicação de freelancers. Se, por um lado, você tem grandes produtores de conteúdo no YouTube, por outro você tem redações minúsculas na imprensa especializada. Em 2014, a Folha de S.Paulo eliminou a versão impressa do Tec, seu caderno de tecnologia. A revista Info Exame, da Editora Abril, foi descontinuada em 2015. E, neste ano, a mesma Folha teve 18 jornalistas demitidos.

A profissão é ruim para boa parte das mulheres, que não estão em posição de comando, assim como LGBTs, negros e outras minorias.

Com todos estes dados, temos a imagem que ilustra este editorial acima: As capas de "Pessoa do Ano" da revista americana TIME, uma das mais prestigiadas semanais do mundo.

A TIME colocou em sua principal capa de 2018 os "Guardiões da Verdade", com diferentes histórias de acordo com a capa escolhida pelo leitor.

Uma dessas capas é dedicada ao jornalista saudita Jamal Khashoggi, que foi assassinado no consulado do seu país em Istambul. Também está representada a equipe do jornal Capital Gazette, de Anápolis, no estado americano de Maryland, onde cinco jornalistas foram mortos em um atentado. Há também uma capa para a jornalista filipina Maria Ressa, do site Rappler, que investiga o governo de Rodrigo Duterte e é perseguida. Por fim, também estão representados os jornalistas da Agência Reuters Wa Lone e Kyaw Soe Oo, que foram presos em Mianmar por investigar o massacre de integrantes da etnia muçulmana rohingya.

Investigar a verdade, para muitos jornalistas, implica em morte, prisão e perseguição. Porque a verdade é em si um valor incômodo.

Por que estou falando sobre estes assuntos?

Nós do Drops de Jogos estamos há quatro anos trabalhando com jornalismo de videogames, que nem de longe implica nos mesmos riscos. Prezamos pela independência e pela honestidade com quem nos lê.

Nem por ser um assunto da mídia especializada isso nos inibe de ataques. Já criticamos abertamente eventos de games realizados no Brasil, não deixamos de dar uma nota baixa para um jogo que não nos agradou e não deixamos de publicar uma análise ou uma opinião que não julgamos relevante para o debate público.

Isso atraiu críticas de pessoas abordadas nesses materiais, instituições e de alguns leitores que julgam que fazemos "falamos de outros assuntos que não são games" e "publicamos opinião e não fatos". Em casos mais complexos, o servidor deste site chegou a sofrer ataques digitais (que felizmente foram solucionados pelo time responsável que temos).

Faz parte do jogo. Dizer a verdade incomoda.

Por todos esses fatores, nossa equipe achou relevante não fazer nenhuma brincadeira de Primeiro de Abril. Continuamos com o humor de sempre, como você pode ver no trabalho engraçado do nosso editor Kao Tokio e suas charges que registramos em vídeo. "Melhor humor do que rancor", como diz o eterno José "Macaco" Simão.

Mas, para além das brincadeiras e dos memes que tornam o dia mais leve e que também informam, reafirmamos aqui o nosso compromisso com a verdade.

Forneceremos dados, relatos e opiniões que tomamos como verdadeiros. E esperamos que a comunidade que nos acompanha cresça conosco.

Incomodando quem deve ser incomodado e auxiliando as pessoas que precisam de divulgação na cena brasileira e internacional de jogos.

No Dia da Mentira também é importante falar sobre a Verdade e como tentamos transmiti-la para vocês.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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