Entre o Veríssimo e o Carta. Por Márcio Filho - Drops de Jogos

Entre o Veríssimo e o Carta. Por Márcio Filho

Luis Fernando Veríssimo e Mino Carta tem lugar marcado na história – minha e do país. E agora?

  • por em 3 de setembro de 2025

Por Márcio Filho. É presidente da Associação de Criadores de Jogos do Rio de Janeiro (ACJOGOS-RJ) e diretor executivo da GF Corp, empresa voltada para soluções gamificadas. Com uma trajetória sólida que abrange mais de duas décadas, destaca-se pelo seu engajamento social em defesa de políticas públicas voltadas para o setor de jogos, como na participação ativa na aprovação do Marco Legal dos Games.

É especialista em Games e Sociedade, e atua diretamente no desenvolvimento de tecnologias enquanto potencializadoras da educação.

Fazer videogames não é mero exercício tecnológico. Em estúdios de criação dos jogos eletrônicos, é comum perceber times 2×1 – 2 profissionais artísticos para cada profissional de tecnologia. Portanto, não é incorreto dizer que fazer games é também sobre fazer artes e, mais especialmente, sobre contar histórias.

Aliás, contar histórias é a habilidade que nos trouxe até aqui. Afinal, em que pese não sermos os bichos mais fortes, nem os mais rápidos, nem os que nadam melhor e muito menos os que sabem voar, nossa habilidade social é o nosso ponto forte – e a capacidade de contar e recontar histórias foi fundamental para nossa sobrevivência e evolução.

Essa percepção de que a escrita e a fala são parte do entretenimento, mas também responsáveis pela sobrevivência humana ganha camadas interessantes de serem observadas, especialmente quando, em um intervalo inferior a uma semana, perdemos 2 gênios da escrita, cada qual a seu modo.

Luis Fernando Veríssimo foi, para muitos, o maior cronista do país. Responsável por observar a realidade e escrever textos que pareciam ser alguém muito próximo te contando uma história imperdível observada diretamente da realidade, Veríssimo encantou o país com inúmeros personagens e livros.

Mino Carta, por sua vez, foi responsável não por contar histórias que pareciam realidades, mas justamente por falar somente daquilo que realmente aconteceu. Criador de veículos de imprensa como as revistas semanais Veja e Istoé, por periódicos temáticos respeitados como Quatro Rodas e, claro, por Carta Capital, veículo que carregava seu sobrenome.

Apesar de ter escrito uma coluna de humor semanal para a revista Veja nos idos de 1982, Luis Fernando não trabalhou com Mino, que saiu da revista em 1976 para fundar a IstoÉ. Mas, para mim, a história dos dois se cruza. Eu começo em um para chegar no outro.

Com a genial obra “Comédias para se ler na escola”, Luis Fernando Veríssimo me atraiu de maneira arrebatadora para os “livros de verdade”. Quero dizer, é claro que as revistinhas da Turma da Mônica conviveram comigo desde o primeiro bê-a-bá, mas foi com o livro em sua edição de capa laranja e com a caricatura em 3D do escritor gaúcho que aprendi a ler livros “com um montão de letrinhas, sem nenhuma figura”, como diria certo ex-mandatário nacional que frequenta o banco dos réus por tentativa de golpe de estado.

O problema de ler as crônicas do autor colorado é que você passa a achar que pode escrever também. Só que escrever fácil é difícil pra caramba! Observar a realidade de maneira tão apurada é, então, tarefa hercúlea. 

O contato com a arte, no entanto, te muda pra sempre. Tal qual num game onde é impossível jogá-lo de novo como da primeira vez, o contato com o mundo artístico te causa mudanças profundas. Foi a partir dos textos do Veríssimo que aprendi que podia observar o mundo também, e que podia (devia?) contar a história a partir do ponto de vista de gente como a gente.

E nessa de contar histórias, a gente descobre nosso papel no mundo. Nossa função como agente da coletividade, no fazer político, no arranjo das coisas, onde é fundamental que possamos contar, de maneira verbal ou escrita, os nossos pontos de vista de modo que possam fazer quem lê ou escuta sentir aquilo que nós sentimos.

Na luta pela construção do nosso setor de games – onde a gente também vive de contar histórias, afinal – foi fundamental conseguirmos apresentar nossas dores, ganhar espaço na sociedade e contar nossa visão de mundo. E foi nessa luta que conheci a Manu Carta e, portanto, tive a chance de colaborar no veículo criado por seu pai, Mino Carta.

Foi lá que publiquei tantos artigos importantes, ora sozinho, ora acompanhado, mas sempre buscando fazer aquilo que o velho Mino praticava com seu jornalismo apurado: trazer os fatos, sem medo de analisá-los e contar sobre o que se tratava a história sendo contada. Falei do Mercado de Jogos, sobre a sanção do PL 2796/2021, sobre Games e Inteligência Artificial e, mais recentemente, sobre Discord e regulação das redes.

Em cada texto, o desejo sempre de impactar a sociedade com os fatos, como nos ensinou o Carta.

Em cada texto, o desejo de fazer o leitor entender que estava em uma conversa com o autor, como nos ensinou o Veríssimo.

O Carta vai inventar alguma publicação nova onde estiver. O Veríssimo certamente vai rechear as páginas da publicação. A contribuição que não aconteceu em vida vai rolar.

E nós? Nós vamos seguir observando o mundo, relatando os fatos, contando histórias. 

Que descansem em paz Mino Carta e Luis Fernando Veríssimo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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