Depois de anos de conversas, a CBF finalmente conseguiu realizar seu desejo e confirmou o nome do italiano Carlo Ancelotti como o próximo técnico da Seleção Brasileira.
Ancelotti irá assumir oficialmente o comando da Seleção no dia 26 de maio, e estará no banco na próxima “data-Fifa”. Ou seja, o treinador já será o responsável pela convocação e pelo treinamento do time que enfrenta o Equador no dia 05 de junho e o Paraguai no dia 10 de junho, ambos os jogos válidos pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026.
De acordo com a CBF, o contrato com o treinador é válido até o fim da próxima Copa. Ancelotti comandará o Real Madrid nas últimas três partidas da La Liga (que finaliza em 25 de maio) e já assumirá a Seleção logo depois.
Matematicamente, o Real Madrid ainda pode ser campeão espanhol, mas as chances disso realmente acontecer são baixas: o time não apenas precisa ganhar todas as três partidas restantes, como ainda precisa torcer para o Barcelona também perder todos os jogos. O time catalão está na liderança da competição, e precisa de apenas mais 3 pontos em três jogos para confirmar o título.
Ancelotti é um dos principais treinadores do mundo na atualidade. Ele é o único técnico que possui cinco títulos da Liga dos Campeões (três pelo Real Madrid e dois pelo Milan) e também o único treinador da a vencer as cinco principais ligas da Europa (campeão italiano pelo Milan, francês pelo PSG, alemão pelo Bayern de Munique, inglês pelo Chelsea e espanhol pelo Real Madrid).
Ele também é o técnico mais vencedor da história do Real Madrid, time com o qual ganhou 15 títulos: duas Copas do Rei, três Ligas dos Campeões da UEFA, três Supercopas da UEFA, duas Copas do Mundo de Clubes da FIFA, duas Supercopas da Espanha, dois títulos da La Liga (a primeira divisão da Espanha) e uma Copa Intercontinental da FIFA.
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Qual a importância de Ancelotti para a Seleção Brasileira?
A contratação de Ancelotti para a Seleção Brasileira não é apenas a realização de um sonho antigo da CBF – o treinador já era apontado como o principal alvo da federação desde o ano retrasado, e Fernando Diniz teria supostamente assumido como um “interino” do italiano – mas também a confirmação de um movimento recente de técnicos “com mercado” assumindo Seleções.
Durante muito tempo, as Seleções eram meio que a “segunda divisão” quando falávamos de treinadores. Os grandes nomes treinavam os principais clubes de futebol do mundo (os Real Madrid, Manchester United, Milan, Ajax, Barcelona, Bayern de Munique, e outros clubes nesse patamar) enquanto as seleções nacionais eram o local onde treinadores “sem mercado” iam para mostrar serviço e tentar conseguir uma ascensão na carreira.
E a Seleção Brasileira sempre foi uma “diferentona” nessa caso. No Brasil, o cargo de técnico da Seleção não era uma escada para trabalhos de maior prestígio, mas o ponto mais alto da carreira desses profissionais. O técnico da Seleção Brasileira era sempre o melhor técnico brasileiro da atualidade, e isso se manteve como a realidade de contratação até a contratação de Dorival Júnior.
Mas o mundo mudou, e a recusa da Seleção em mudar fez com que o Brasil sofresse muito. Primeiro, porque nós não temos uma geração com craques “alienígenas” como em outras épocas. O último atleta deste nível que tivemos foi Neymar, e ele meio que desistiu de jogar futebol pra se dedicar a ser uma estrela das redes sociais assim que a Copa de 2022 acabou. Nossa geração não é tão ruim quanto muita gente acha (afinal, nossos atletas continuam sendo titulares em times que disputam títulos nos maiores campeonatos do mundo), mas o nível de talento dela não é tão grande que ela joga sozinha. Ao contrário de outros momentos, o Brasil de 2025 precisa de um treinador de verdade.
E é aí que fica claro um outro problema: o Brasil não soube acompanhar a evolução tática, técnica e de treinamentos que o mundo do futebol passou nas últimas décadas. E isso ficou claríssimo nos dois últimos trabalhos: Fernando Diniz e Dorival Jr. se credenciavam como os melhores treinadores brasileiros no momento em que foram contratados, mas o nível deles estava muito abaixo de qualquer treinador estrangeiro mediano – e não foram poucas as vezes que tomaram “nós táticos” de times que não tinham um único jogador em campo com capacidade para ser titular na Seleção Brasileira.
Fechar com Ancelotti é não apenas seguir uma tendência mundial de fechar com treinadores de renome e que ainda disputam mercado entre os principais times do mundo (como os EUA contratando Mauricio Pochettino, a Inglaterra anunciando Thomas Tuchel e a alemanha com Julian Nagelsmann), como é um sinal de que o país com mais Copa do Mundo percebeu que ficar se bancando em um passado de vitórias não vai garantir o sucesso do futuro; é preciso acompanhar as mudanças do futebol mundial se o Brasil quiser continuar ganhando títulos.
Mas, ao mesmo tempo que essa assinatura significa uma mudança positiva, ela também pode ser uma mudança para não mudar nada – e aqui falo especificamente da cúpula da CBF. Ednaldo Rodrigues, atual presidente da federação, é um articulador político de muita habilidade e, ao mesmo tempo, alguém que aparece como responsável por uma gestão que gastou milhões com mordomias e gerou dívidas milionárias.

Ednaldo Rodrigues, presidente da CBF e o homem que não dormiu até assinar com Ancelotti (Imagem: Ricardo Stuckert/via Wikimedia Commons)
E mesmo com as diversas reportagens que destrincham os diversos problemas da gestão atual da federação, a única coisa que realmente estava minando o poder de Ednaldo eram os resultados em campo. A vergonha que foi a “contratação” de Ancelotti em 2023 – que viu o presidente da CBF anunciar publicamente que estava tudo certo para no dia seguinte o treinador renovar com o Real Madrid – e os trabalhos ruins de Diniz e Dorival Jr. foram tornando Edvaldo uma figura cada vez mais “tóxica”. E, se o Brasil não conseguisse se classificar para a Copa de 2026 (algo que era bem possível), poderíamos ter a revolta popular necessária para forçar as mudanças necessárias na cúpula da CBF.
Mas, com a confirmação de Ancelotti, Ednaldo basicamente se consagra como o “salvador” da Seleção. É bem possível que o time faça um bom fim de Eliminatórias e chegue embalado para a Copa do Mundo porque Ancelotti é um ótimo técnico – talvez até o melhor que já tivemos desde Telê Santana na década de 1980. E, se isso acontecer mesmo, ninguém mais tira Ednaldo do cargo.
No fim, Ancelotti é a mudança que o Brasil precisava para o agora. Mas, ironicamente, pode ser também a peça que vai impedir que mudanças estruturais reais sejam feitas.
Como já dizia Lampedusa, é preciso que tudo mude para que fique tudo na mesma. E o técnico italiano parece ser exatamente esse tipo de mudança para a Seleção Brasileira.
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

