Enquanto assistia Brasil x Japão na recepção de um Pronto Socorro ontem, eu escrevi três textos na minha cabeça conforme a partida ia rolando.
O primeiro deles ficou pronto segundos depois do gol do Japão. Estava tudo muito claro: a Seleção começou o jogo pressionando, perdeu inúmeras chances e a história das duas últimas décadas de Copas do Mundo se repetiu; um passe errado, uma demora na recomposição da defesa, um jogador que não quis ser mais agressivo na roubada de bola porque já estava amarelado – gol do Japão. E a partir daí a história seguiu o mesmo script de toda vez que a Seleção saía atrás no placar: muita vontade para tentar o empate. Mas, sem sucesso, a vontade ia virando desespero; o desespero, desorganização; a desorganização, frustração; e a frustração sempre termina em derrota. E seguiríamos a mesma cartilha de todas as outras eliminações precoces em Copas do Mundo: jogador chorando em campo, pedindo desculpa em entrevista, técnico demitido e, dali dois dias, todo o grupo é flagrado bebendo caipirinhas na beira da piscina de um resort cinco estrelas.
O texto estava pronto, mas nunca foi pro papel.
https://youtube.com/shorts/45hFd3nP37A?si=wb5cE-fXRUtOuFLw
O segundo foi com sete minutos de jogo no segundo tempo, quando o Casemiro teve a chance de empatar mas o zagueiro Tomiyasu conseguiu evitar o gol, salvando a bola em cima da linha. De nova, a história estava pronta: o Brasil foi guerreiro e lutou com todas as suas forças para empatar o jogo, mas parecia que os Deuses do Futebol estavam contra nós dessa vez. Eu poderia questionar quais pecados nós cometemos para deixar isso acontecer, e até citar algumas possíveis origens dessa maldição: o gato que um membro da comissão técnica expulsou de forma violenta de uma coletiva com a imprensa, a fala de um dos nossos maiores ídolos do esporte dando a entender que estádios de futebol eram mais importantes que hospitais, ou a escolha de tornar a camisa da Seleção Brasileira o símbolo político de um candidato (e partido, e ideologia) específico. Mas a explicação não era importante; o que aconteceu é que, mesmo com muita vontade, até o sobrenatural tinha jogado contra nós neste jogo. E a vontade ia virando desespero; o desespero, desorganização; a desorganização, frustração; e a frustração sempre termina em derrota. E seguiríamos a mesma cartilha de todas as outras eliminações precoces em Copas do Mundo: jogador chorando em campo, pedindo desculpa em entrevista, técnico demitido e, dali dois dias, todo o grupo é flagrado bebendo caipirinhas na beira da piscina de um resort cinco estrelas.
Este texto também estava pronto mas, também, nunca foi pro papel.
O terceiro se escreveu sozinho apenas cinco minutos depois, quando a bola, cheia de malícia, escolheu tocar a trave e – que ousadia! – se manter em campo após uma jogada magistral de Vini Jr. Aquele era não apenas pra ser o gol da virada; era pra ser o gol mais bonito da Copa. Um dos gols mais bonitos da HISTÓRIA das Copas. Aquele gol que ia ser usado em qualquer programa de TV que fosse falar da Copa do Mundo de 2026 até o fim da vida na Terra (ou seja, por mais uns 50 anos, mais ou menos); o tipo de gol que iria vigorar em Reels e TikToks e Shorts do YouTube com alguma música que parece ter sido do álbum Summer Eletrohits de fundo e uma legenda com algo tipo “Top 10 gols mais bonitos da história das Copas” que iria viralizar a cada quatro anos.
https://youtube.com/shorts/mRJzFoirrBc?si=yTL7wM02RYnpjPXd
Mas o destino foi caprichoso, a bola não entrou e a história estava selada. Essa jogada teria sido o símbolo desta Seleção: lampejos de genialidade que não davam em nada. E o resto do script já estava escrito: a vontade ia virando desespero; o desespero, desorganização; a desorganização, frustração; e a frustração sempre termina em derrota – dessa vez, em uma disputa de pênaltis.
E, pela terceira vez, este texto pronto também não foi pro papel.
Todos esses três textos já estavam prontos não porque eu sou um gênio das palavras, mas porque esta era a realidade da Seleção após o Penta: lampejos de genialidade que não davam em nada e um time com muita vontade mas pouca organização e ainda menos força mental; um time que, se tomava um gol em um momento decisivo, desmoronava e não conseguia se reagrupar, manter a concentração e correr atrás do resultado.
Mas não foi este o time que enfrentou o Japão ontem. Ontem aconteceu algo que eu achava que nunca mais iria ver acontecer na Seleção Brasileira: um time que toma um gol num momento decisivo, sente o baque – algo normal, qualquer outro time sentiria – mas consegue manter a concentração, a organização ofensiva e defensiva, e não perder a confiança de que eles são a SELEÇÃO BRASILEIRA e é só continuar fazendo aquilo que eles sabem saber que a vitória vem.
E a vitória veio. Com um de Casemiro logo depois daquela cabeçada que não entrou, e um de Gabriel Martinelli tão nos acréscimos que todo mundo já estava se preparando mentalmente para aguentar (pelo menos) mais trinta minutos de prorrogação. E eu, ainda na recepção do hospital, joguei fora todos os três textos que já estavam prontos mesmo sem nunca terem ido pro papel.
E fiz isso com um sorriso no rosto, e a certeza de que este time mostrou algo que eu não achava capaz há alguns meses atrás: uma Seleção que não deixa o medo de mais uma frustração atrapalhar o caminho para a vitória.
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

