A Globo errou feio, errou rude, mais uma vez. De novo, acabou divulgando inverdades que foram replicadas descontroladamente na internet e, ao ver que fez m**da, até tentou conter os danos, pero no mucho. Desta vez, a falha no cumprimento do bê-a-bá do jornalismo responsável causou danos reais, em uma pessoa de verdade — que agora vai ter que se virar para lidar com as consequências, sabe-se lá por quanto tempo e a que custo.
No comecinho da manhã de segunda-feira (31), o noticiário ao vivo do GloboNews informou que a Operação A Tropa, que investiga tráfico interestadual de drogas e armas nos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro, teria cumprido mandados de busca e apreensão na residência de dois jogadores de futebol: um deles foi David Corrêa, do Vasco, e o outro… bem, aí que deu ruim. O repórter Leo Arcoverde afirmou, garantindo ter apurado a informação com suas fontes, que este outro jogador seria Renyer Oliveira, atacante do Azuriz e ex-Santos. Só que não era. O jogador envolvido na investigação se chama Hayner William Monjardim Cordeiro, lateral do Vila Nova.
É isso mesmo: confundiram um Hayner com um Renyer. Exibiram nome, foto e informações de um inocente em reportagem sobre investigação por associação ao tráfico de drogas e de armas, ao vivo, em um dos principais canais de notícias da TV brasileira. Mas não parou por aí: logo em seguida, a notícia foi replicada no Bom Dia Brasil, da TV Globo — sim, o canal aberto, no telejornal exibido a todo o país logo pela manhã.
E claro que piora: em seguida, o bafão virou notícia em todos os sites de notícias do grupo onde faria sentido publicar tal “fato”… ou seja, g1, ge e O Globo, no mínimo. O que significa que a notícia rapidamente foi replicada e serviu como pauta para uma imensidão de outros sites, desde grandes portais como iG e O Tempo, até sites nichados e de menor expressão.
Ah! Já ia me esquecendo das redes sociais de cada uma das marcas citadas… notícias assim têm seu formato adaptado para as redes, seja em texto, imagem ou vídeo, e muitas vezes isso é feito apenas via sistema, em processo automatizado, sem que o conteúdo passe pelo crivo de um editor, um revisor, antes de ser publicado. Ou seja: comentários ficam sem resposta, e postagens ficam ali no feed até que uma pessoa de carne e osso proativamente acesse o perfil para editar ou remover algum conteúdo.
Acho que já deu pra entender aonde eu quero chegar aqui… só que eu tenho mais, muito mais a dizer. É que, desta vez, não estamos mais falando de uma falha na rotina caótica de uma redação, que acabou rendendo um erro de publicação. Também não estamos apontando dedos a um repórter acusando-o de praticar mau jornalismo. Isso aqui não é mais um erro individual, tampouco uma falha de processos de um veículo de imprensa, muito menos um causo infeliz que se acumula a outros episódios esporádicos e não relacionados entre si.
Isso é um sintoma. E eu explico melhor meu argumento nesta matéria, que eu preferia nem estar publicando, mas infelizmente tá tudo errado e eu não consigo me calar, aceitando que esse é mesmo nosso novo normal. Honestamente, enquanto eu escrevo isso aqui eu só consigo pensar no quanto eu preferia estar vendo o filme do Pelé.
“Eu apurei a informação”, garantiu o repórter
Esse detalhe aqui torna a história ainda mais incômoda, ao menos para mim. É que a informação do envolvimento de jogadores de futebol na tal investigação criminal não surgiu como uma nota expressa publicada às pressas no fechamento do turno da noite de uma equipe cansada ao fim de um plantão, tentando publicar o que ainda falta às pressas, já que uma equipe do turno seguinte logo chega e quem eventualmente assumir aquela pauta vai ter mais tempo e disposição para apurar mais a fundo, fazer direito.
Achei gritante, ensurdecedor, a notícia trocando os nomes ter sido dada ao vivo, pouco antes das 8h da manhã, diretamente de um repórter, na rua, em campo, em conversa com o âncora do telejornal da GloboNews. Isso significa que a notícia entrou no fluxo habitual da cobertura jornalística da emissora, não foi algo imediato, informado às pressas. E, bem, quando é assim, os próprios repórteres costumam falar “isso acabou de acontecer, estamos aqui apurando os fatos e vamos trazer mais informações a qualquer momento para o telespectador” — ou qualquer coisa do tipo. Definitivamente, não foi este o caso aqui.
Inclusive, o repórter Leo Arcoverde afirma, literalmente, que “a gente confirmou que ele [Renyer] é um dos alvos desta operação que mira o tráfico de drogas e o tráfico de armas”, logo em seguida reforçando que “essa informação foi confirmada por mim e pelo Rafael Nascimento, colega do g1, portal de notícias da Globo”, garantindo que “a gente cobriu isso com fontes das polícias civil tanto de São Paulo quanto do Rio de Janeiro para ter essa informação e trazer para você, assinante”. O jornalista segue reafirmando que “então, Renyer é um dos alvos”.
E onde estava Renyer naquele momento? No interior do Paraná. Estava acordando, chegando cedo ao centro de treinamento de seu clube, no que até então tinha tudo para ser apenas mais um dia normal de sua vida. Hayner e Renyer têm nomes parecidos, mas obviamente não são a mesma pessoa. Jogam em clubes diferentes, em estados diferentes, têm trajetórias diferentes e estavam em situações completamente diferentes naquela manhã. Hayner era, de fato, alvo de mandados de busca e apreensão. Renyer mal havia terminado seu café da manhã quando a indigestão bateu forte.
DESABAFO DO RENYER:
https://www.instagram.com/p/Dctk410JPWh/
E aqui a gente se faz a pergunta mais óbvia de todas: se o repórter da Globo garantiu, reforçando mais de uma vez, que ele mesmo fez a apuração, ainda citando um colega de g1 nessa verificação, como é possível que uma trapalhada tão absurdamente grave tenha acontecido a ponto de se veicular uma reportagem atribuindo à pessoa errada algo tão grave quanto o envolvimento com tráfico de drogas e armas?
Vejam bem, não tem a ver com preciosismo, com perfeccionismo. Jornalistas são humanos, e errar é humano. O erro faz parte. O reconhecimento do erro, idem. Aprender com o erro, mais ainda. Mas entendam que existe uma diferença bastante grande entre cometer um erro durante uma apuração qualquer que resulte numa informação errada sem que sejam causados danos por aí, e afirmar publicamente que uma pessoa está envolvida em uma investigação criminal com a qual ela não tem conexão alguma.
Se você (em especial um jornalista que carrega nas costas o peso de um veículo que leve o nome “Globo”) diz ao público que apurou uma informação, mas atribui a investigação à pessoa errada, a questão não é apenas o resultado final. É o próprio processo de apuração que precisa ser questionado.
O jornalismo existe, entre outras coisas, justamente para se verificar algo antes de afirmar algo.
Admitir o erro dói mais do que publicar fake news?
Hoje em dia, quando erramos na internet, o comportamento mais comum é o tal do “apaga e finge demência”. Raras são as pessoas e situações em que elas mantêm o erro no ar, porém acompanhado de um reconhecimento público de seu engano, prontamente levando o visitante à informação correta. É mais fácil, rápido e indolor simplesmente fingir que nada aconteceu.
Só que nada realmente desaparece da internet moderna. E rastros do nosso engano acabam sendo largados por aí independentemente da nossa vontade — e do nosso controle. A gente fala um “a” errado aqui, e este “a” errado pode ter se transformado em verdade absoluta em outro canto da internet, sem que a gente sequer fique sabendo, sem que tenha autorizado, concordado, participado. É como as coisas são nos meios online, e é por isso mesmo que a gente precisaria ter o dobro do cuidado, ao fazer afirmações que possam gerar consequências a terceiros. O triplo do cuidado, na verdade, ao lidar com divulgação de notícias, de fatos, de acontecimentos.
Porém, na prática, o que acontece é exatamente o oposto disso. Desta vez, a Globo rapidamente retirou do Globoplay e de suas plataformas os vídeos de seus telejornais que deram a notícia falsa. O site do ge informa que sua reportagem original foi excluída, enquanto o g1 mantém uma página específica intitulada “Correção: Operação A Tropa”, na qual admite que informou incorretamente que Renyer era alvo da operação e registra que a reportagem foi corrigida. O site do O Globo aponta erro 404 para a notícia errada original.
Só que isso não é suficiente. Nem de longe. Vídeos que foram publicados e depois retirados são replicados em outros perfis, páginas que deixam de existir ou mudam de endereço ainda deixam rastros digitais em cache, conteúdos que passam a redirecionar para outras URLs já foram replicados por terceiros e publicações em redes sociais podem permanecer disponíveis por puro e simples esquecimento.
Então uma informação publicada pela Globo não fica mais dentro dos domínios da dona Globo: ela é compartilhada, reproduzida e ainda utilizada como fonte por outras redações. A informação errada pode desaparecer de uma página e continuar perfeitamente viva em outro lugar, e o autor do erro não tem controle algum sobre o que sobra de um erro jornalístico depois que a publicação original desaparece. Está além de seu alcance.
O próprio Azuriz chamou atenção para isso em seu pronunciamento oficial, publicado nas redes sociais. O clube diz: “O clube ressalta que eventual similaridade de nomes não dispensa a checagem dos fatos antes da publicação. A veiculação de informação não apurada serve de lastro para a reprodução em cadeia de outras notas igualmente equivocadas, ampliando os danos à imagem do atleta e da instituição.”
NOTA OFICIAL AZURIZ:
https://www.instagram.com/reel/Dctlcchp0oq/
Pois é, apagar uma matéria errada não apaga o estrago que ela possa ter causado. Uma errata responsável mesmo no jornalismo online exige muito mais do que soltar um parágrafo preguiçoso dizendo que “falamos XYZ, erramos. a informação certa é ABC, beijos de luz”.
Só que a Globo não é a causa do problema…
Infelizmente, isso aqui não é só “mais um erro da Globo”. A Globo é só a bola da vez, que foi atirada na boca do estômago do coitado do Renyer, é verdade. Uma bola particularmente grotesca, porque colocou o nome de uma pessoa inocente no meio de uma investigação criminal. Mas não é um problema dela, só dela, causado por ela e, portanto, a ser corrigido também por ela.
A verdade é que estamos lidando com mais um sintoma de uma doença espalhada por todo o organismo do jornalismo brasileiro. Doença esta que já vem se manifestando há uns bons anos, mas pelo visto o paciente ainda não está incomodado o suficiente para admitir que está doente (e que, se quiser sobreviver, precisa se tratar).
Quem trabalha com jornalismo há algum tempo já viu a mesma coisa acontecer em outros veículos, com outras informações, envolvendo outros assuntos, em outras situações, com outras consequências, sobre outras coisas e pessoas. O caso muda, mas o mecanismo parece ser sempre o mesmo. Ou seja: isso não é apenas um erro, ocasionalmente cometido por jornalistas negligentes por aí. Isso é um sintoma. Repito: é um sintoma de uma doença.
COMUNICADO OFICIAL AZURIZ FUTEBOL CLUBE:
https://www.instagram.com/azuriz/p/DctRy20u2dQ/
Sim, o jornalismo está doente
Quando erros graves começam a deixar de parecer acidentes isolados e passam a parecer consequência previsível da maneira como a informação está sendo produzida, não dá para continuar apontando dedos (e, por vezes, culpabilizando) aos profissionais da ponta da cadeia da produção (e cujos nomes acabam assinando o erro publicado), sem olhar para o macro, sem analisar o cenário geral, sem estudar o hemograma completo do paciente.
O jornalista do século 21 lida com uma quantidade sem precedentes de informações em um intervalo de tempo cada vez mais curto, tudo acontecendo em velocidades cada vez mais rápidas, o volume de dados que nosso cérebro precisa processar simultaneamente é cada vez maior. O profissional do jornalismo atual precisa se desdobrar em dois, três, quatro, cinco, enfim, precisa atuar como se fosse toda uma equipe condensada em um só indivíduo — e ainda dar o retorno financeiro esperado ao seu empregador, naturalmente. É publicação contínua, pressão por produtividade, análise de ‘trocentas’ métricas em tempo real, cada vez mais pensando em como obter resultados em números que se convertem em lucro para o atingimento de metas que crescem progressivamente mês a mês, ano a ano. Isso sem falar na necessidade de estar sempre produzindo alguma coisa, descobrindo alguma coisa, ou até mesmo inventando alguma coisa, para “fazer valer o seu salário”. Para que seu trabalho “se pague”. Para ser considerado um recurso que vale a pena ser mantido no negócio.
Agora me diga: como é possível realizar uma checagem aprofundada de fatos, com cruzamento de dados, com escuta de todos os lados de um acontecimento, com pesquisa, com desenvolvimento de argumento, neste cenário que acabei de descrever? Então, claro que o “tempo perdido” com o processo da apuração, da garantia da qualidade de seu conteúdo, da certeza de estar dando a notícia certa, do jeito certo, acaba impactando negativamente na performance do profissional de acordo com o esperado dele por parte de “quem manda”.
Pois é: checar demora, mas o capitalismo selvagem tem pressa. O resultado é um ambiente em que a apuração muitas vezes acaba sendo uma etapa que atrapalha a produção, quando deveria ser justamente o que diferencia o jornalismo de qualquer pessoa falando qualquer asneira e apertando o botão “publicar”.
O caso Renyer é um exemplo particularmente brutal disso, porque não foi uma vírgula fora do lugar, não foi uma data trocada, não foi um número errado numa tabela. Foi uma pessoa acusada de estar envolvida com o crime. Foi o nome de um clube de futebol falsamente envolvido em uma investigação de tráfico de drogas e de armas. São patrocinadores e parceiros comerciais potencialmente encerrando contratos, é risco de haver cortes na folha de pagamento caso uma história assim acabe fedendo mais do que se imaginava, porque o nome do acusado foi envolvido em polêmica e as marcas não querem se associar a isso, tanto faz se o acusado tem culpa no cartório ou não.
Então, quando um resultado previsível continua acontecendo sem que o sistema mude, já não estamos diante de acidentes, de erros. Estamos diante de um modelo de funcionamento. Um funcionamento doente, uma doença fatal para o jornalismo de fato. Consequentemente, fatal para a própria sociedade.
Quanto dano ainda tem que acontecer até alguma coisa mudar?

Dias depois do ocorrido, o Modo IA do Google ainda mostra a informação errada vinculada a Renyer Oliveira, dizendo que ele se tornou alvo da operação policial. Apesar de os links que a IA do Google informa como fontes estarem corrigidos ou redirecionados desde o dia 01, neste dia 04 a inteligência artificial ainda não se atentou a isso…
A função social do jornalismo está sendo corroída quando esse tipo de coisa deixa de ser exceção e se torna a nova regra do jogo. Quando os sintomas aparecem em veículos diferentes, ao longo de anos, em assuntos diferentes, com impactos diferentes, e nada estrutural muda, talvez esteja na hora de parar de chamar tudo de acidente. E por isso que eu a partir de agora chamo o que estamos enfrentando de doença.
O jornalismo continua trabalhando, publicando conteúdo, produzindo notícia e gerando audiência. O organismo ainda está de pé, porque é forte, é vivido, é robusto. Porém, está doente, com dor, ferido, cambaleando. Se nada começar a mudar de fato, logo ele cai. E aí, quanto dano o jornalismo precisa causar até que uma intervenção seja necessária?
Eu fico extremamente desconfortável (para não dizer furiosa) de fazer parte deste meio, enxergar essas problemáticas, apontar os danos causados por elas, e não ter poder algum de causar uma mudança. E nem falo de revolução. O que mais me entristece é que eu falo apenas de o jornalismo poder voltar a ser jornalismo. De o jornalista poder atuar como um jornalista de novo. De a sociedade poder confiar novamente no que está lendo, no que está ouvindo, no que está assistindo. Não é pedir demais. Mas, ao mesmo tempo, é. E aí eu fico puta…
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

