Após o primeiro jogo do Brasil na Copa, eu escrevi que o time tinha dado indícios de que poderia até não ser campeão, mas não iria passar vexame. E, por isso, começo esse último texto sobre a participação do Brasil fazendo uma retratação: eu estava errado.
Porque esta eliminação contra a Noruega foi um verdadeiro vexame.
Não o jogo todo, para sermos justos. O time começou com uma formação bem estranha (Martinelli de meia? O mais estranho foi só o fato dele ter comprometido menos do que o Paquetá), mas vimos durante um bom tempo aquele Brasil que nos acostumamos a ver nesta Copa: um time bem estruturado defensivamente que tem dificuldades em criar espaços por si só, mas que muito perigoso quando consegue roubar uma bola e pegar a defesa adversária despreparada. E, no geral, a única coisa que parecia impedir a vitória naquele momento era um dia inspirado do goleiro norueguês e um problema de pontaria dos jogadores.
Mas não foi exatamente o pênalti perdido por Bruno Guimarães que mudou a história do jogo. Não; o que mudou mesmo foi a entrada de Neymar aos 23 minutos do segundo tempo. Assim como previu todos os fãs e parte da imprensa que sofre de Neymardependência, a entrada do atacante mudou o jogo. Nisso eles estavam certos.
E o time praticamente morreu depois da entrada do já-não-tão-mais-craque que, a cada dia que passa, fica mais claro que usou a fama para cavar uma vaga nesta Copa do Mundo na qual ele nunca mereceu ser convocado. Até a entrada do atacante, o time jogou como os melhores momentos do Brasil nesta Copa – não era brilhante, mas era competitivo. A entrada do atacante, na cabeça dos fãs mais obcecados, iria trazer algum brilhantismo a esta competitividade, mas o que causou foi apenas o fim da competitividade em troca de afagar o ego de um jogador que mal tem condições físicas e técnicas de se destacar no Paulistão.
Antes de Neymar, Vini Jr. e Endrick tinha mais liberdade para não se dedicar tanto no momento defensivo. Com a entrada do atacante das corridinhas que servem apenas para parecer para a câmera que ele está se esforçando em marcar mas que na real não colocam pressão nenhuma em quem está com a bola, Vini e Endrick precisaram começar a marcar de verdade – e isso é um problema, porque ambos tem muitas qualidades, mas o foco necessário para fazer uma marcação de jogador com bola sem deixar espaços atrás de si não é uma delas.
Assim, foi com a entrada de Neymar que o confronto deixou de ser equilibrado, e a Noruega passou a controlar todas as ações. E foi a partir daí que os dois gols europeus surgiram.
Claro, nem toda a culpa é apenas de Neymar – o primeiro gol em específico nasce de uma falha grotesca de Ederson, que largou sua posição para ir conversar alguma coisa com o Douglas Santos na esquerda, e isto criou o espaço que a Noruega usou para cruzar a bola na cabeça de um Haaland livre – mas a queda de rendimento com a entrada do atacante do Santos fica muito claro no gráfico de momento da partida.

O gráfico aí em cima mostra o mapa de momento da partida – barras verdes são o Brasil, barras cinzas a Noruega, e quanto maior a barra mais dominante era o time naquele período. E até a linha vermelha (o momento que Neymar entrou no time), o Brasil seguia jogando como um time de Ancelotti: deixa a posse com o adversário, mas sem deixar ele fazer muita coisa com ela, e é sempre muito perigoso quando recupera essa posse e ataca os espaços. Após a entrada do jogador dos Santos nós vemos uma representação gráfica do que o time virou: uma equipe que deixa a posse com o adversário, mas se deixa ser dominada e não causa perigo nenhum a eles. E foi justamente neste período que os Noruegueses fizeram os dois gols da nossa eliminação.
O mais doído para mim é que esta foi uma eliminação parnasiana como não víamos há muito tempo. Isto porque, assim como no movimento literário do século XIX, o conteúdo era muito menos importante do que a forma. Ok, o Brasil foi eliminado nas oitavas, mas isso não era um problema para muita gente que não acreditava nesse time nem na qualidade dos jogadores. O problema também nem foi o adversário em si – afinal, a Noruega é o tipo de seleção que sempre elimina o Brasil nas últimas Copas (time europeu mediano bem treinado) – mas a forma como essa eliminação aconteceu. A forma que o Brasil foi eliminado jogando o pior futebol e repetindo os erros mais crassos desse ciclo que nos preparou para essa Copa com um número recorde de demissões de treinadores e confiando na mesma base que já não tinha ido bem em 2022 e que estava quatro anos mais velha agora.
Claro, vai aparecer um monte de “mestre de obra feita” falando aquelas mesmas coisas que todo mundo fala quando o Brasil é eliminado de uma Copa do Mundo: que o time tem que jogar “como se fosse Libertadores” e outros conceitos subjetivos que não dizem nada em específico e que é o equivalente do conceito político de “tem que mudar tudo o que está aí”. Mas o pior erro que a gente pode fazer é imitar o que a gente já fez em outras eliminações (mandar toda a comissão técnica embora e começar um trabalho do zero para agradar a opinião pública) assim como também poderíamos usar essa experiência para aprender que não é uma boa ideia fazer um grande clamor popular e pressão midiática para convocar jogadores pela fama que possuem ao invés de pelo futebol que jogam.
Vamos aprender essas lições? Eu poderia apostar que não.
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

