[Opinião] A "Neymar dependência" da imprensa já tá feia - Drops de Jogos

[Opinião] A “Neymar dependência” da imprensa já tá feia

Assim como as Bets nas transmissões, nós deveríamos falar também sobre toda a cobertura da Seleção Brasileira gira em torno de Neymar.

neymar junior

neymar junior

Ontem, o Brasil conseguiu uma incrível vitória contra a Escócia fazendo não apenas o seu melhor jogo na Copa do Mundo, mas o melhor jogo da Seleção desde a Copa de 2022. Com dois gols de Vini Jr. e um time que não só venceu como convenceu, a Seleção segue para a fase mata-mata em alta. Mas a receita se repete: após o jogo, parece que a imprensa só quer falar do Neymar.

E sim, eu entendo a ironia que é fazer um texto sobre a imprensa exagerar no tema Neymar quando eu literalmente estou no papel de imprensa falando sobre o Neymar. Mas esta é uma ironia natural de qualquer crítica a um assunto já saturado – afinal, não dá pra reclamar de algo sem citar o algo.

Eu entendo que o Neymar é um assunto de interesse. Afinal, o cara é o jogador brasileiro mais midiático desta geração, e falar dele sempre atrai olhares e cliques – seja falando bem ou seja falando mal. Mas, assim como acontece com as Bets, a coisa já saiu do controle.

Já era complicado a enorme pressão pra ele ser convocado quando o cara literalmente tava contundido (e, nos poucos jogos que fez, estava bem longe do craque que a opinião pública pintava); ficou ainda mais complicado quando a cobertura dos preparativos da seleção se tornou a cobertura de se Neymar entrava ou não em campo. A impressão que se tinha é que, para um minuto discutindo sobre possíveis alterações no time feitas pelo técnico Ancelotti, cinco eram dedicadas a falar o que Neymar comeu no café da manhã e se ele foi direto pra musculação ou voltou pro quarto jogar um fifinha.

E essa sensação de “exagero de Neymar” continuou durante os jogos, com qualquer coisinha que acontecia em campo nós rapidamente tínhamos uma câmera exclusiva com reações do Neymar à jogada – nos oferecendo um dos piores formatos de react já vistos na internet. Mas, pra mim, essa dependência de fazer com que toda a narrativa da Seleção gire em torno do “menino” (de 34 anos!) Ney superou todos os limites no jogo contra a Escócia: no momento que o Brasil tinha acabado de fazer o terceiro gol e a torcida comemorava, alguém (não lembro se o narrador ou um dos comentaristas da CazéTV) comentou que a torcida estava cantando porque o Neymar estava no aquecimento.

Claro, claro, o time ACABOU de fazer um gol – o terceiro do jogo – e, obviamente, o grande motivo da torcida estar cantando era porque um jogador específico estava dando corridinhas do lado de fora do campo. Aham, com certeza, aconteceu muito.

E o que já estava exagerado superou todos os limites quando, no pós-jogo que foi uma das melhores partidas de Vini Jr. com a camisa do Brasil, a maior parte das conversas nos programas de debate eram sobre o retorno de Neymar aos campos – um retorno que coincidiu com a queda de rendimento do time como um todo, porque tínhamos em campo um jogador claramente fora de ritmo e que perdia a bola em quase todas as oportunidades que teve com ela.

De novo, eu entendo porque o Neymar é uma figura importante para a mídia esportiva. Mas a gente realmente precisa fazer com que toda a narrativa dessa Copa gire em torno dele? A impressão é que querem emplacar um novo Ronaldo em 2002 – o jogador contundido que, contra todas as expectativas, retorna em uma Copa do Mundo e lidera a Seleção para mais um título. Mas o Ronaldo de 2002 se contundiu no auge da carreira, enquanto o Neymar atual talvez nem tivesse lugar nesse time se o futebol fosse o único critério de convocação.

Quando se contundiu em 2002, Ronaldo ainda era considerado um dos melhores jogadores do mundo e ainda teve mais cinco anos jogando em alto nível como titular no Real Madrid. Enquanto antes da contusão, Neymar já era considerado como insuficiente para ser a estrela de um time saudita e teve um impacto no Santos menor do que o de um Ronaldo quase 40kg acima do peso quando jogou no Corinthians.

Então, querer forçar essa similaridade narrativa é injusto com todas as partes envolvidas: com o público, que acha que é aquele Neymar de 2014, de 2018 e de 2022 – o Neymar que realmente carregava a Seleção nas costas com seu talento – que vai retornar da contusão; com o resto do time, que não recebe o reconhecimento que deveriam receber; e com o próprio Neymar, que precisa conviver com uma enorme pressão pra não apenas voltar a jogar, mas voltar em um nível técnico que ele já não apresentou em nenhum momento dos últimos três anos.

Eu sei que reclamar aqui é gritar para o vazio e toda a narrativa desta Copa continuará circulando em torno do Neymar Hipotético. Mas antes morrer gritando para o vazio do que afogado no próprio silêncio.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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