Alguns jogos, como a estreia do Brasil contra Marrocos, são fáceis de se escrever sobre assim que o jogo acaba. Afinal, as coisas que acontecem ali bem bem claras e fáceis de entender, e não geram sentimentos conflituosos logo após o apito final.
Não foi isso que vimos na vitória contra o Haiti.
Uma vitória tranquila, com três gols feitos e nenhum tomado, que já deixa o país praticamente classificado para a próxima fase da Copa mesmo se perder a partida contra a Escócia (afinal, os 4 pontos que conseguimos já deixam muito encaminhada uma vaga entre 8 melhores terceiros colocados na pior da hipóteses). Mas mesmo com tudo isso em mente, ela deixou uma sensação de que faltou “algo” – de que a vitória não foi tão acachapante quanto os números mostram.
E, neste casos, seus olhos não estão mentindo: ela não foi mesmo. E não falo exatamente pelo fato de que o placar poderia ser mais elástico. Também; mas essa impressão negativa vai além do placar em si.
A realidade é que essa Seleção mostrou o mesmo problema de todas as gerações (pelo menos desde os anos 2000) tem mostrado – a preguiça de jogo fácil. Não importa se era o time de Ronaldo, Rivaldo e Cafu; Ronaldinho, Kaká e Adriano; Neymar, David Luiz e Daniel Alves; ou o de Taison, Firmino e Renato Augusto – se o jogo estava fácil, toda a concentração ia pro brejo e o time parecia que estava disputando um Casados x Solteiros depois de duas caixas de cerveja e uma feijoada completa.
E foi exatamente isto que vimos em todo o segundo tempo contra o Haiti: uma Seleção desatenta, desentrosada e cheia de preguiça de chutar uma bola. O time segue perdendo em se livrar de uma mentalidade muito perigosa: a de achar que, antes do apito final, o jogo está ganho porque “somos o Brasil, CA-RA-LHOOO!!” (imagine isso sendo gritado na voz do seu vizinho mais insuportável de chato mas que tem certeza absoluta de que é um cara descolado e interessante). Essa falta de concentração, inclusive, foi o que nos eliminou nas últimas duas Copas: tanto na derrota para a Bélgica em 2018 quanto na para a Croácia em 2022.
Contra o Haiti ela não foi problema porque o time da América Central é bem fraco, mas ficou evidente todos os problemas clássicos de um Brasil desconcentrado: as bolas perdidas em passes displicentes, mesmo quando não havia pressão adversária; a pressão culposa na saída de bola (quando não há intenção de pressionar); e, principalmente, nas diversas bolas alçadas na área brasileira que terminaram na cabeça de um jogador do Haiti. E esta questão das disputas aéreas perdidas ainda que tenham um componente físico da altura (onde a vantagem estava toda com os brasileiros), são muito mais questão de concentração e organização. E a quantidade de bolas perdidas deste jeito, principalmente no segundo tempo, é uma prova de quem faltou ambos esses fatores ao time.
Mas é exatamente isto que torna a avaliação do jogo complicada – porque o jogo inteiro não foi apenas o segundo tempo. E nenhum desses problemas existiu na primeira metade da partida. O time entrou bem diferente do que apresentou na estreia contra Marrocos: foi uma Seleção concentrada, bem entrosada, que sabia quando ter paciência e quando tentar forçar um passe ou tentar um drible para abrir espaços que se transformavam em oportunidades de gol.
No geral, a partida foi frustrante menos pelo resultado que poderia ser mais elástico, mas porque a gente viu o Brasil que esperávamos jogar por apenas 45 minutos. Enquanto “a esperança é a última que morre” é uma frase batida, clichê e – ironicamente – um paradoxo, pois é usada quase sempre com um fundo sarcástico de quem já não espera mais nada, a Seleção nos lembrou que a maior tortura é o vislumbre da esperança. Um time que dá uma amostra do que pode ser – apenas para logo depois retornar para seus piores vícios e maus hábitos.
A esperança fica na história – aquela com “agá maiúsculo”, como dizem. Em todas as cinco vezes em que foi campeão da Copa do Mundo, o Brasil não chegou atropelando desde o primeiro jogo; o time sempre começou meio capenga, e foi melhorando a cada jogo até chegar na final com a certeza de que é o melhor time do mundo. E, ainda que hoje nós não sejamos mais o melhor time do mundo com aquela certeza absoluta de outros anos, já garantimos pelo menos a estreia tropeçante seguida de uma melhoria clara no seguinte.
Agora é torcer para que o time continue melhorando a cada jogo.
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

