[Opinião] Empate na estreia foi ótimo para o Brasil - Drops de Jogos

[Opinião] Empate na estreia foi ótimo para o Brasil

Enquanto muita gente viu o 1×1 entre Brasil e Marrocos como uma catástrofe, o empate na verdade foi um ótimo resultado para a Seleção.

(Imagem: captura de tela/YouTube)

É galera: Brasil estreou na Copa do Mundo com um empate em 1×1 contra o Marrocos que deixou muita gente decepcionada. O sentimento de muita gente depois do jogo foi “já era o hexa!”, “que time horrível” e “vamo fazer mais um vexame”.

Mas calma galera! Segura o coração aí que muito provavelmente você está sendo enganado pela nostalgia. Esse 1×1 não foi um resultado ruim. Pelo contrário: foi um resultado ótimo para esta estreia onde uma derrota acachapante – algo tipo um 3×0 onde o Brasil não via a cor da bola – não estava fora de jogo.

Primeiro, nós precisamos abandonar aquela ideia de que “ah, é Brasil e o resto”. Sim, o Brasil ainda é uma das seleções mais fortes da Copa e entra como um dos favoritos para o título, mas aquela superioridade técnica que a gente tinha sobre todo o resto da galera é coisa do passado. Há uma série de fatores nisso, que passa de uma mudança na formação de jogadores, avanços táticos do jogo e a evolução de ligas que até pouco tempo atrás eram vistas como fraquíssimas. Mas todas convergem para uma realidade: a diferença entre o Brasil e outros times é cada vez menor.

Sim, nossa atual safra não tem jogadores que tecnicamente são tão “alienígenas” quanto eram nomes como Ronaldo, Romário, Rivaldo, Zico e etc. Mas qualquer um dos zagueiros do grupo atual é melhor e mais completo do que Ronaldão, convocado em 1994; qualquer meio-campista é melhor que o Kléberson, que foi à Copa em 2022. O Brasil de hoje não tem tantos craques daqueles que definem o jogo (o elenco todo tem teoricamente três, mas apenas um jogou neste sábado), mas é repleto de jogadores muito habilidosos e completos que, se treinados adequadamente, podem tornar o time fortíssimo.

Se formos comparar com clubes, o nosso problema é que estávamos acostumados com seleções que eram como o Barcelona da Era Messi (meia dúzia de jogadores tão fora da curva jogando juntos que compensava o fato do time ter passado quase uma década sem um único lateral decente) e hoje nosso time é mais a cara do Arsenal campeão da Premier League deste ano (com um, talvez dois craques de verdade, mas que tem jogadores extremamente competentes em todas as posições, que permite efetuar trocas sem perder qualidade).

E é aí que mora o grande problema no Brasil: nós temos um grupo de jogadores que pode ser incrível se bem treinado, e que está sendo treinado de verdade há apenas um ano. Entre a eliminação na Copa de 2022 e a estreia nesta, nós passamos por quatro treinadores durante o ciclo: dois interinos (Ramon Menezes e Fernando Diniz) e Dorival Júnior, que é apenas um técnico mediano. Carlo Ancelotti é o tipo de treinador perfeito para este estilo de grupo que o Brasil possui (afinal, foi campeão de tudo com o Real Madrid que tinha um perfil bem parecido com o do Brasil atual), mas chegou apenas no ano passado e fez pouco mais de dez jogos antes da estreia na Copa. Ou seja, o time chegou para o campeonato mais importante entre seleções do mundo ainda tentando assimilar as ideias do treinador.

E fica ainda mais feio quando comparamos com Marrocos. Sim, eles trocaram de treinador bem mais recente – Mohamed Ouahbi assumiu o time há apenas três meses – mas a história é bem diferente. Ouahbi não é uma figura totalmente nova para o grupo (ele treina o time sub-21 de Marrocos desde 2020) e não tentou mudar do dia pra noite toda a filosofia de jogo do antigo técnico Regregi, apenas fez alguns ajustes que ajudaram o time a resolver o que era a sua maior dificuldade: manter a posse de bola e criar jogadas que não fossem no contra-ataque.

Isso quer dizer que Marrocos já era um time fortíssimo em 2022 (terminou inclusive na frente do Brasil: enquanto nossa seleção caiu nas quartas-de-final, Marrocos chegou nas semis) e que chegou para esta Copa ainda mais forte. O time tem um perfil parecido com o da Seleção Brasileira (poucos craques, muitos bons jogadores com alto QI tático), com a vantagem de que todos estão extremamente bem treinados no plano de jogo que querem executar.

E isto ficou bastante claro durante todo o jogo: tinha um único time no confronto que parecia não se desesperar, que conseguia dominar as ações com a bola e se defender de forma tranquila e organizada sem ela – e esse time não era o Brasil.

Como a noção futebolística de muitas pessoas – principalmente aquelas que só assistem à Copa do Mundo – parou ali nos anos 90/2000 (quando o Brasil foi campeão, afinal a nostalgia nos faz refém apenas das lembranças de vitórias como se elas fossem a regra), há ainda uma certa noção erradíssima de que Marrocos é um time “fraco” e que o Brasil deveria “atropelar”. Não! Marrocos era um dos piores adversários que o Brasil poderia pegar na estreia, pois não apenas é um time fortíssimo como é um time altamente bem treinado – uma verdadeira kriptonita para uma Seleção que ainda está tentando se encontrar em campo.

E essa diferença ficou clara naqueles dez minutos entre o gol de Marrocos e o gol brasileiro. Em um momento do jogo onde o Brasil era superior e estava dominando o jogo, o time marroquino, em apenas dois toques, armou um contra-ataque mortal que pegou uma defesa desprevenida e abriu o placar. Tanto Gabriel Magalhães quanto Marquinhos não tomam gols desse tipo em seus clubes; mas eles também não são pegos em nenhum momento com o campo tão aberto e sendo a primeira e última linha de defesa de contra-ataques quando o time perde a bola. O gol de Marrocos não foi um erro individual, mas um erro coletivo de uma Seleção que esqueceu que deve jogar como um time sério e abandonou o conceito de linhas e não deixar os zagueiros isolados porque estava atacando.

E o que se seguiu nos próximos minutos era exatamente o tipo de tragédia que a gente viu no 7×1 que tomamos da Alemanha: um time perdido, correndo igual barata tonta, abandonando todos os conceitos táticos e não sabendo o que fazer tanto quanto tinha a bola tanto quando perdia ela. Nesta hora, o craque do jogo foi a obrigatoriedade da parada para hidratação. Sem ela, eu tenho certeza que Marrocos teria conseguido aproveitar o apagão tático do time e fazer mais dois ou três gols antes do fim do primeiro tempo.

Mas a salvadora parada para hidratação veio, e logo depois Vini Jr. (um dos poucos craques que esse time tem) resolveu a situação numa jogada individual e deixou tudo igual. E, a partir de então, a seleção passou a jogar como a Seleção – não aquela seleção nostálgica que dominava a todos e que é tão real quanto o Neymar hipotético, mas a Seleção que deveria chegar como um dos times mais fortes de 2026 e jogar como joga um time de elite em 2026.

Sim, não tivemos firulas, grandes dribles ou mesmo muitas chances de gol. Mas também não tivemos muitos sustos; depois do empate, Marrocos pouco chegou ao gol brasileiro, e sempre que tentava algo parava em uma defesa que estava sempre bem posicionada e pronta para efetuar a ação correta.

Claro, 1×1 contra Marrocos não é a “estreia de sonhos” que a gente espera em uma Copa do Mundo. Mas, na situação que esse empate aconteceu, ele deve ser visto como um resultado extremamente positivo. Eu não sei se o hexa realmente vem nesta Copa, mas de uma coisa podemos ter certeza: pelo menos vergonha a gente não vai passar.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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