[Opinião] Inglaterra será a campeã da Copa do Mundo de 2026 - Drops de Jogos

[Opinião] Inglaterra será a campeã da Copa do Mundo de 2026

Após títulos de Arsenal e Knicks, a Inglaterra chega como a favorita narrativa para levar a Copa do Mundo de 2026.

(Imagem: divulgação/FA)

Sim, você não leu o título errado: a Inglaterra será a campeã da Copa do Mundo de 2026. Não, não é uma previsão – é uma afirmação. E uma afirmação que eu faço antes do time inglês fazer a estreia na Copa, para ninguém falar que eu estou caindo num possível “oba oba” de uma (hipotética) boa estreia.

E não, eu não joguei búzios, joguei cartas ou perguntei ao ChatGPT para afirmar isso tão categoricamente. Eu apenas li as notícias e interpretei os sinais do mundo, e é por isso que eu afirmo categoricamente que a Inglaterra não apenas é uma das favoritas – como eu já apontei em outro post por aqui – como é ela que será a campeã da Copa.

E não, o time inglês não tem nenhuma vantagem tática ou técnica contra os outros favoritos dessa Copa. Mas ele indiscutivelmente tem vantagem sobre todas as outras 47 seleções em um quesito: narrativa.

Para quem não é muito ligado ao futebol, uma das piadas mais clássicas antes de qualquer Copa do Mundo é os torcedores ingleses cantando “it’s coming home!”. Como o futebol foi um esporte inventado por eles, esta frase (“está voltando pra casa!”, em português) serve para indicar um otimismo de que o time vai levar o título – um otimismo muitas vezes irônico, já que o mais comum é a Inglaterra ser eliminada de forma desastrosa e humilhante durante a fase de mata-mata.

Mas, este ano em específico, o otimismo que esconde o medo de mais uma humilhação soa como profecia. E o principal aliado dessa profecia é a narrativa.

(Imagem: divulgação/Arsenal)

Em maio, o Arsenal garantiu o título da Premier League contra todos os prognósticos. Na Inglaterra, o clube londrino tem uma fama mais ou menos parecida com a do Vasco aqui no Brasil: “eterno vice”, daqueles times que “nadam pra morrer na praia” e que era visto como uma piada por todos os adversários. Apesar de ser considerado um dos grandes clubes da Inglaterra, ele não conseguia um título de expressão desde 2004, quando foi o único time a ganhar a Premier League de forma invicta. Desde então, são duas décadas marcadas por humilhações e derrotas inesperadas. Inclusive quando comandado por Unai Emery, o Arsenal chegou na final da Liga Europa e perdeu o título – esta foi a única vez que o técnico chegou na final e perdeu, saindo campeão em todas as outras cinco vezes, todas com elencos bem menos estrelados do que o dos Gunners (foi campeão com Sevilla, Villareal e Aston Villa).

Uma piada recorrente nos últimos anos na Inglaterra era de que “o Arsenal só dependia de si mesmo para ser campeão – e era por isso que ele nunca seria”. E isso foi verdade nos últimos dois campeonatos, que o Arsenal liderou por um bom período, mas acabou perdendo pontos importantes para times brigando contra o rebaixamento e deixou o título escapar. Mas este ano, o time conseguiu superar toda a mística negativa que o envolvia e finalmente voltou a levantar a taça de campeão inglês.

https://www.youtube.com/watch?v=sCVDSaRgmWw

Neste último sábado (13) o New York Knicks se consagrou campeão da NBA – um título que não ganhava desde 1973. Apesar de ser considerado um dos maiores times da Liga, o Knicks também era visto como uma enorme piada pelos adversários. Não apenas ele não ganhou um título desde a década de 1970 – algo que todos os outros times “grandes” da NBA conseguiram – como ele não chegava nem mesmo a disputar um título desde 1999 (a última vez que o time chegou às finais).

Até os anos 2000, o Knicks era visto como um time bastante azarado – e, após isso, como uma piada de mau gosto da Liga. Apesar de ser o time preferido da maior cidade dos EUA, nas últimas quase três décadas ele era conhecido menos por ser uma força no basquete e mais por ser um time que gastava demais em jogadores que não valiam o salário que ganhavam.  Ao invés de se destacar pelos feitos em quadra, o que dominava as manchetes eram as polêmicas de James Dolan, o bilionário dono do time que usou o sistema de monitoramento do Madison Square Garden para impedir a entrada nos jogos do Knicks de qualquer pessoa que falou mal dele no Twitter.

Ambas as histórias possuem a mesma narrativa: um time desacreditado, com a moral em frangalhos, que passou por uma reestruturação de todas as suas operações e que foi colher os resultados desse trabalho com um título em 2026. Com o Arsenal, essa reestruturação se iniciou com a contratação do técnico Mikel Arteta em 2019; com o Knicks, com a nomeação de Leon Rose – um agente esportivo que representava diversos jogadores da Liga – como presidente do time. E sabe quem passa por um arco narrativo bem parecido? A Inglaterra.

(Imagem: Eddie Keogh/FA)

A reestruturação do futebol inglês começou com a contratação de Gareth Southgate, que treinou o time entre 2016 e 2024. Southgate não é um grande técnico no quesito tático da coisa, mas ajudou a realizar uma transformação moral no time. Assim como Knicks e Arsenal, a Inglaterra sempre foi vista como uma da “grandes” da Europa – mas, ao mesmo tempo, também era visto como uma grande piada. Colocar a Inglaterra como “favorita” em uma competição sempre vinha com um asterisco; ela era favorita, mas ninguém esperava que ela realmente disputasse qualquer coisa.

E, no geral, era exatamente isso que acontecia: entre Copa do Mundo e Eurocopa (as duas principais competições disputadas pelas seleções européias), a Inglaterra tem um único título desde a década de 1930: a Copa do Mundo de 1966, que aconteceu justamente na Inglaterra e não faltam teorias da conspiração sobre como foi um título “comprado”. No geral, quando não era eliminada ainda na fase de grupos, os ingleses nunca passavam das quartas-de-final de qualquer competição – confirmando o status de “bons, mas não o suficiente para ganhar algo”.

Isso começou a mudar na era Southgate. Em 2018, os terminaram em quarto lugar na Copa do Mundo da Rússia – o melhor resultado na competição desde o título de 66. E este bom resultado foi seguido por dois vice-campeonatos seguidos nas Eurocopas de 2020 e 2024. Nenhum desses times jogava um futebol exatamente convincente, mas o técnico – que fez parte da “geração perdida” da seleção inglesa (aquele time que tinha nomes como Beckham, Campbell, Michael Owen,  e que foi eliminado por um golaço de falta do Ronaldinho Gaúcho em 2002) – conseguiu pela primeira vez afirmar o time inglês como aquilo que antes só existia no papel: uma potência do futebol que está pronto para disputar títulos.

E este projeto chega no auge dessa reformulação com a contratação de Thomas Tuchel em 2025. Assim como Ancelotti no Brasil, Tuchel é comprovadamente um dos melhores técnicos do mundo: ganhou títulos importantes em todos os clubes pelo qual passou e colecionou honrarias de “melhor treinador” nas ligas mais disputadas da Europa. Ele chegou na Inglaterra com um objetivo: pegar um time que já estava com o moral recuperado e fazer eles jogarem um futebol digno das melhores equipes da Premier League.

Thomas Tuchel, técnico da Inglaterra (Imagem: Eddie Keogh/FA)

E é isto que o treinador fez desde que assumiu o posto: ele definiu uma identidade de jogo para o time inglês que torna o selecionado uma equipe que sabe se defender de forma compacta, mas também tenta roubar a bola no campo adversário e consegue tanto armar um contra-ataque fulminante com poucos toques na bola quanto segurar a posse por diversos minutos enquanto se movimenta para abrir espaços e desmontar todo o plano defensivo do adversário.

Este projeto fica ainda mais claro quando o técnico deixou de levar para a Copa do Mundo três jogadores que muitos ficaram surpresos de não fazer parte do time: Phil Foden, Cole Palmer e Trent-Alexander Arnold. Os três são alguns dos maiores talentos técnicos da atual geração de jogadores ingleses, craques no sentido mais puro da palavra. Mas, na forma de jogar pensada por Tuchel, esses jogadores não se encaixam nos planos porque não possuem a disciplina tática para serem craques não apenas quando o time está com a bola, mas também quando ele está sem.

E este tipo de coragem de ter uma ideia de jogo tão definida que não vai sucumbir às pressões da mídia e da torcida que torna o atual time inglês tão perigoso. Afinal, esta será a primeira Copa do Mundo que veremos uma seleção inglesa que não vai perder nada em qualidade técnica e tática para os melhores times da Premier League – e isto é algo que deve deixar os adversários assustados.

Em um ano que tivemos Arsenal e Knicks campeão, a Inglaterra surge como a grande favorita narrativa para o título. E, se ele realmente vier, será mais um exemplo de que, no panorama esportivo atual, títulos não são resultado de um golpe de genialidade de um treinador ou craque fora da curva, mas de anos de trabalho sério para chegar a este objetivo. E este trabalho sério que a Inglaterra fez e o Brasil deixou de fazer que torna – pela primeira vez na história da Copa do Mundo – os criadores do esporte como verdadeiros favoritos sem um pingo de ironia.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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