Haddad, ministro de Lula, retorna à USP e defende engajamento político baseado em conhecimento - Drops de Jogos

Haddad, ministro de Lula, retorna à USP e defende engajamento político baseado em conhecimento

Em palestra na Faculdade de Direito, ex-aluno e ministro da Fazenda destacou papel da universidade na formação cidadã e criticou desigualdade social no Brasil

  • por em 1 de julho de 2025

Reg. 027-25 FD. Palestra de Fernando Haddad na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. 2025/06/27 Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Do Jornal da USP. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, retornou à Faculdade de Direito da USP, na última sexta-feira, 27 de junho, para a palestra Juventude, democracia e os novos caminhos para a política no Brasil, realizada a convite da Associação dos Antigos Alunos da instituição. Diante de estudantes, professores e ex-colegas, Haddad revisitou sua trajetória pessoal e acadêmica e defendeu a importância do engajamento político qualificado como instrumento para enfrentar injustiças e fortalecer a democracia no País. Durante a palestra, o ministro criticou o elevado nível de desigualdade social no Brasil e defendeu políticas públicas voltadas a um equilíbrio tributário e à garantia de direitos para todos os brasileiros.

Formado em Direito pela USP, Haddad presidiu o Centro Acadêmico XI de Agosto durante o curso e, em seguida, realizou pós-graduação na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) e tornou-se docente da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).

Ao abrir o encontro, o reitor, Carlos Gilberto Carlotti Junior, destacou a personalidade do convidado e seu comprometimento com a causa pública: “O Haddad é uma pessoa conhecida por sua boa índole, voltada para a sociedade. A vida dele tem sido toda dedicada à política pública, marcada pelo bom senso e pela sua excelente formação acadêmica. É um orgulho para a Universidade de São Paulo ter um aluno e professor ocupando os cargos que ele tem ocupado, em Brasília e em São Paulo, sempre defendendo boas causas e políticas que realmente fazem a diferença para o povo de São Paulo e para o povo do Brasil. Sabemos que ele defende propósitos justos, bem planejados e com base sólida. É por isso que podemos dizer que há uma universidade que torce sempre por ele nas melhores decisões possíveis para o nosso país”.

Na palestra, Haddad lembrou do impacto que vivenciou ao ingressar na Universidade: “Vim de uma família de um imigrante que nunca frequentou a escola e de uma dona de casa. Então, a minha vida até entrar na faculdade era muito singela do ponto de vista do acesso à cultura. Eu não tinha dimensão do que era a vida cultural, sobretudo comparando com os meus colegas aqui. O meu primeiro choque foi ver quanta gente inteligente tinha nessa faculdade. Era uma coisa extraordinária. Eu cheguei aqui sem leitura, e encontrava gente que já tinha lido muito, infinitamente mais do que eu, que só tinha lido o necessário para passar no vestibular. Eram pessoas realmente muito cultas e muito letradas. E aquele choque cultural me fascinou. Comecei a estudar muito e me interessar pela vida acadêmica. O XI de Agosto sempre foi, sobretudo naquele período, do último governo militar, um espaço marcante. Todos nós estávamos desejosos de votar para presidente da República. Nunca tínhamos votado, desde 1964, e eu comecei a me aproximar de várias correntes políticas para conhecer, para entender. Passei a ler, a me interessar por muita coisa”.

Reg. 027-25 FD. Palestra de Fernando Haddad na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. 2025/06/27 Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Aos estudantes, o ministro fez questão de destacar a transformação proporcionada pela vivência universitária: “O que eu quero dizer para vocês é que a passagem pela São Francisco é algo que vai marcar vocês para o resto da vida. Estar aqui desperta uma curiosidade imensa, um desejo profundo de mudar o mundo para melhor, de construir uma sociedade mais justa. Vocês vão ouvir professores, colegas e funcionários, todos despertando em vocês um desejo que, muitas vezes, estava adormecido por conta da trajetória familiar. E aqui, esse desejo vai se revelar com toda a intensidade”, afirmou.

Haddad também refletiu sobre o papel da universidade pública na formação crítica dos cidadãos. Para ele, o conhecimento deve estar a serviço do interesse coletivo e da ação política, entendida de forma ampla: “A Universidade de São Paulo é um templo neste país. Um templo do conhecimento. Quando eu piso em qualquer universidade, mas especialmente na nossa, eu me sinto entrando num templo. Porque colocar o conhecimento à disposição das pessoas, colocá-lo a serviço de uma boa causa, é algo que muda tudo. E não muda só para você. Muda para todo mundo com quem você vai poder colaborar ao longo da vida, seja profissionalmente, seja na vida cidadã. De preferência, eu diria, se envolvendo com a política. E se envolver com a política não é, necessariamente, disputar uma eleição ou ter uma vida ligada a governos ou partidos. É participar da vida pública, é colocar os seus sentimentos, os seus conhecimentos, à disposição da comunidade a que você pertence. A USP, como um todo, fascina. Eu sempre me inspirei muito na Universidade de São Paulo na minha atuação nos cargos que ocupei e na elaboração de políticas públicas”.

Ao comparar sua geração de estudantes com a atual, o convidado observou mudanças significativas no acesso à informação e ressaltou o novo papel que isso impõe ao cidadão: “A geração que cursou Direito comigo aqui vivia uma realidade muito diferente. Era incomum, na faculdade, alguém saber o que estava acontecendo nos países da América do Sul, da América Central, ou mesmo acompanhar os acontecimentos na Europa ou na Ásia”.

“Quando alguém se destacava nos debates, fosse um companheiro de partido ou um adversário influente, e começava a falar com profundidade sobre a situação na Polônia, na Iugoslávia ou na América Central, aquilo impressionava. A gente se perguntava: ‘De onde ele tirou tanta informação?’. Hoje, isso mudou. Você tem, literalmente na palma da mão, acesso às informações sobre o que está acontecendo no mundo. Agora o cidadão comum tem meios para entender as consequências, para o seu próprio país, da eleição de um presidente numa nação distante. O desafio da política hoje não é apenas saber o que acontece na sua cidade, no seu estado ou no seu país. É acompanhar os grandes eventos internacionais, estar antenado com o mundo. Isso exige de nós um esforço adicional, porque o risco de tomar decisões ou adotar posicionamentos mal informados, que não condizem com o nosso desejo de uma sociedade justa, é muito alto. Digo isso para destacar o quanto a formação privilegiada que tivemos — e que ainda podemos ter numa universidade pública — deve ser colocada à disposição do País. É um imperativo que esse conhecimento seja mobilizado a favor de causas. E muitas das causas atuais exigem ciência, conhecimento científico. Você não consegue se manifestar com propriedade sobre mudança climática sem acompanhar o debate, sem entender o que aquilo representa para o futuro do planeta. Se você não acompanha a evolução científica na medicina, por exemplo, não tem condições de opinar de forma consistente. O desafio de ser um cidadão que participa da vida pública com conhecimento é proporcional à quantidade de informação disponível. Felizmente, hoje temos essas informações. Nosso objetivo, então, deve ser organizá-las e, mais do que isso, mobilizá-las em torno de um projeto, de uma visão de futuro”, avaliou.

Assista à íntegra da palestra a seguir:

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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