Por Pedro Zambarda, editor-chefe.
Quero resgatar uma entrevista velha, da boa jornalista Bárbara Castro, publicada no IGN Brasil em 10 de novembro de 2024. A entrevistada é minha amiga e colega da cena brasileira de games, a Érika Caramello. A reportagem é longa e foi capa do maior site de videogames do Brasil.
Já mencionei esse texto por aqui, mas gostaria de retomar alguns trechos da fala de Érika.
“Tem uma necessidade de questões até de gênero, porque se a gente não se esforça para ficar cada vez melhor, acaba que muitas vezes você é questionada. E mesmo você tendo uma carreira e cases de sucesso, e tendo uma alta formação, as pessoas ainda não validam tanto você, simplesmente porque você é mulher. É uma dificuldade que até hoje não adianta dizer que não [existe]. Essa é uma área majoritariamente masculina, branca, hétera e cis e nós [mulheres] sempre temos que trabalhar duas, três vezes mais e melhor do que os outros porque as oportunidades são sempre escassas.”
“O Brasil está mais hostil. Eu acho que nesses últimos anos, até por conta da gestão federal anterior, tivemos um incentivo, uma liberdade maior das pessoas falarem isso. Até porque altas figuras públicas falavam isso, então [as pessoas] se sentiram no direito também. Mas também tem a ver com a questão do renascimento do movimento feminista em 2015, com a Primavera das Mulheres em vários lugares do mundo, e inclusive aqui com posicionamentos contra o Eduardo Cunha, que proibiria todo e qualquer tipo de aborto – conquistas substanciais que estavam sendo questionadas. É óbvio que qualquer mudança, mexe com as peças do tabuleiro. Acho que é inevitável isso. Até fazendo doutorado, eu tive aula com a professora Márcia Tiburi, que me marcou muito, que na filosofia alguns autores falavam ‘alguns corpos precisavam ser sacrificados, precisam entrar em sacrifício, para que mudanças aconteçam’.”
“Nunca imaginei que trabalharia com jogos e que isso tudo iria acontecer, sabemos que é resultado de trabalho e ter afinco naquilo que fazemos”.
As mulheres que são caladas e a necessidade de escuta e do espaço
A carreira da Érika, graças à Rede Progressista de Games, a RPG, que fundamos juntos, é uma trajetória que acompanho de perto. No entanto, os silenciamentos, os questionamentos e os ataques não são exclusividade dela. Fazem parte de um problema coletivo feminino, LGBTQIAPN+ e negro dentro do setor.
O setor de videogames infelizmente tornou-se, com a ascensão de Trump e de Bolsonaro, um entreposto do fascismo em escala global. Tal como representante desse segmento, ele precisa exercer sua força através de estruturas de misoginia.
O papel deste Drops não é se calar perante esses ataques. É reorganizar o campo. E eu, como homem, branco, hétero e cis, gozando de privilégios, preciso enquanto jornalista dar mais espaço para essas vozes.

Érika Caramello. Foto: DMD/Reprodução
Érika recentemente nos concedeu uma entrevista há três semanas no programa Dropando A Real que está acima. Recomendo que vocês assistam.
Futuramente teremos novas participações dela aqui nos canais do Drops de Jogos.
Especialmente para que as vozes de mulheres jamais sejam ignoradas.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
