Por Pedro Zambarda, editor-chefe do Drops de Jogos.
O jogo Black Sailors: A Santos Bay Tale foi anunciado recentemente e deve sair no Steam. Game é uma aula sobre história do período colonial na Bahia e dos escravizados do Brasil. Trata-se de um jogo de estratégia tática naval ambientado na Baía de Todos os Santos durante o período colonial.
No jogo, o jogador controla uma tripulação de africanos escravizados que lidera uma revolta, toma um navio negreiro e passa a libertar outras pessoas escravizadas enquanto enfrenta navios portugueses e apoia quilombos.
Os desenvolvedores encaminharam, com exclusividade ao Drops de Jogos, uma série de ataques preconceituosos contra o game indie da empresa Mandinga. Ela buscou auxílio da Afro Games para fazer denúncias. Os ataques, com teor inclusive racista, foram localizados no próprio Steam.

No primeiro print, aparece um usuário falando que pessoas escravizadas, quando são libertas, “vira ladrão”. O comentário é seguido por outro que diz que é “financiado pelo L”, ou seja, “Lula”.

Um usuário no X/Twitter ridicularizou o nome do estúdio responsável, que traz uma expressão da cultura afro.

Neste print, um dos comentaristas chamam os personagens de “macacos”, uma expressão de teor racista.

Este comentarista reclama da representatividade e chama o game indie de “medíocre”.

Nesta série de mensagens, eles reclamam de denúncias encaminhadas ao Steam.

Neste print, temos reclamações da “cruzada” contra racistas e um comentarista abaixo torce para demissões em massa na empresa brasileira.

Reclamam também de “dinheiro dos impostos” investido no game brasileiro (o que não é ilegal) e empurram uma tese negacionista de que “negros tinham milhões de escravos brancos” na África.

E esse post no Twitter/X diz que os brasileiros deveriam ser gratos à colonização de países da Península Ibérica. Ou seja, deveríamos agradecer aos portugueses.
O Steam vai deixar isso ficar rolando? Os comentários estão em sua maioria em inglês.
Posicionamento do estúdio
A empresa Mandinga mandou o seguinte posicionamento.
O Black Sailors: A Santos Bay Tale é um projeto decolonial por essência. Desenvolvido em Salvador-BA, ele nasce para confrontar a visão eurocêntrica que reduz a diáspora africana a um bloco único e homogêneo. Nosso objetivo é trazer luz à imensa riqueza dessa história, apresentando as diversas etnias (como Fon, Yorùbá e Bantu) que trouxeram culturas, línguas e cosmologias distintas para o Brasil. Quando um jogo com essa temática ‘fura a bolha’ e atinge um público acostumado a consumir apenas a perspectiva do colonizador (ou a ser colonizador), isso gera um desconforto que se manifesta em agressividade e racismo coordenado.
Não estamos buscando fazer um jogo com estereotipos e vazio, mas um produto de entretenimento sério, respeitoso e com significado profundo. Para abordar um tema tão sensível, contamos com a consultoria de uma Pós-Doutora em Diáspora Africana no Brasil e Candomblecista. Esse cuidado garante que a representação da espiritualidade e da história não seja caricata, mas um resgate ancestral legítimo. O ódio que recebemos é a prova de que a nossa abordagem histórica fere o imaginário de quem quer manter a história negra apenas no lugar de submissão.
O foco do jogo é a revolta: africanos escravizados que tomam o controle de navios negreiros e agem contra a opressão na Baía de Todos os Santos. Essa narrativa de luta pela liberdade permeia todo o jogo. Embora estivéssemos preparados para críticas, a intensidade dos ataques coordenados que enfrentamos na Steam e redes sociais superou qualquer previsão, tornando-se uma sobrecarga imensa para uma equipe pequena que precisa conciliar o desenvolvimento com a moderação de discursos de ódio.
Diante dessa crise, recebemos o apoio fundamental da Afro Games. Eles enxergaram o imenso potencial do projeto e nos deram a força necessária para não recuarmos um milímetro da nossa visão original. Esse suporte nos deu a segurança de que o Black Sailors não é apenas um desejo nosso, mas uma necessidade para o cenário de games atual. Eles nos ajudaram a ver que apesar dos ataques, há um público massivo pronto para consumir histórias de retomada e de diferentes perspectivas das que são padrão da indústria.
É fundamental ter combate antirracista e contra os preconceitos no cenário mundial de videogames.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Do meu ponto de vista, já que maioria dos racistas lá são gringos, os devs deveriam colocar a legendagem em Inglês via DLC com detalhes extras para conscientizar eles.
É difícil explicar o que leva esses FDP a criticarem um jogo que tenta abordar parte de nossa história. Todo meu apoio à equipe da Mandinga.
É dificil explicar o que leva esses FDP a criticarem um jogo que apresenta uma visão diferente de nossa história