Opinião: Como a situação do Rio Grande do Sul mostra o efeito da crise econômica nos games brasileiros

A notícia veio como uma bigorna no dia 15 de setembro. O DASH GAMES, evento organizado pela ADJogosRS de Porto Alegre, foi cancelado por cortes de patrocínio do Sebrae Nacional e do governo. A informação foi dada publicamente por Ivan Sendin diretor-executivo da associação, em conjunto com Carlos Idiart, presidente da mesma entidade. Era a crise econômica, a mesma que elevou o dólar para acima de R$ 4 no mercado financeiro, batendo na porta da cena brasileira de games.

Foto: Divulgação/ADJogosRS

Mesmo com tantos percalços em nosso caminho, a indústria nacional de jogos digitais permanece otimista. O crescimento do mercado, desde 2009, é de mais de 10% ao ano, oscilando entre 9% e 15%, de acordo com a ABRAGAMES, a maior associação do país. Diferentes empresas de games surgem por dia, embora nem todas permaneçam neste ramo. O futuro do Brasil no segmento de jogos eletrônicos poderá ser grande, considerando que um levantamento da SuperData apontou receita de R$ 3,7 bilhões no país em outubro de 2014.

Poucos dias depois do cancelamento do DASH, em 22 de setembro, 12 Arranjos Produtivos Locais (APLs) receberam R$ 150 mil do governo estadual do Rio Grande do Sul, gerido por José Ivo Sartori (PMDB). Ou seja, interesse no desenvolvimento de jogos e promoção de eventos há. Falta talvez o aporte correto destes recursos dentro do setor.

Embora a crise econômica esteja diminuindo as portas para reuniões de desenvolvimento de games e encontros de entusiastas, há membros do setor atuando por conta própria. Orlando Fonseca, do IMGNation Studios de Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul, está pagando do próprio bolso no desenvolvimento de jogos e está participando do programa GameFounders europeu para criar jogos na Malásia. Neste mesmo ano de crise econômica e recessão brasileira, a maranhense Ana Ribeiro está terminando seu Pixel Ripped 1989, primeiro game brasileiro para óculos de realidade virtual, com financiamento de US$ 20 mil pela aceleradora Boost no Vale do Silício, costa oeste dos Estados Unidos.

O governo federal, se for esperto, deveria apostar em economia criativa para fomentar este tipo de mercado numa retomada de crescimento, que pode acontecer no curto ou no médio prazo. O ministro Juca Ferreira, da pasta de Cultura, parece disposto a fazer algo pelo setor. Mas faltam ações concretas de incentivo muito além de editais de R$ 10 mil. A imobilidade da presidente Dilma Rousseff e os cortes na máquina pública parecem afastar os sonhos de quem quer desenvolver jogos digitais ou mesmo consumí-los sem pagar mais de R$ 200 por título. São jogos cujos preços são sobrecarregados por uma tributação mal aplicada.

No setor privado, a falta de empresas dispostas a investir em games faz com que desenvolvedores busquem incentivos de fora do país. O conservadorismo dos investimentos, neste contexto de crise, é esperado. Mas era esperado mais desenvolvimento nos dois mandatos de governo Lula, na década anterior.

O Rio Grande do Sul acaba sendo um exemplo de como é a cena brasileira de games em "dois mil e crise": Numa semana, fecha um de seus eventos regionais mais importantes. Na data seguinte, consegue investimentos na casa de milhares de reais. Faltam investimentos de milhões de reais e falta ousadia das pessoas para enxergar a economia criativa como um canal para superar as próprias limitações econômicas nacionais.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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