Perfil: Conheça Brianna Wu, voz das causas feminista e trans na indústria de games. Por Ana “Zezé”, jornalista trans

Brianna Wu é uma desenvolvedora de jogos, ativista dos direitos femininos, raciais, LGBT, e jornalista norte-americana. Ganhou notoriedade após o escândalo do GamerGate, que atacou mulheres em difamações contra Zoe Quinn. Mas Brianna já era bem-relacionada no meio indie internacional.

Foto: Divulgação

Ela foi alvo de ataques machistas na internet, mas resolveu não se calar.

“Ameaças de morte e estupro já fazem parte do meu trabalho”, diz Brianna Wu em entrevista para a revista Época no ápice do GamerGate.

Este perfil tem como objetivo ilustrar um pouco sua trajetória, pontos de vista e projetos. De uma pessoa que se sentia deslocada no Mississipi para uma desenvolvedora de jogos e feroz ativista pelas causas de minorias. Seus tuítes não são apenas referentes ao GameGate ou casos semelhantes, mas também sobre a corrida presidencial norte-americana com forte oposição a Donald Trump.

A desenvolvedora já falou na internet aobre atentado a balada LGBT Pulse, em Orlando, e o movimento Black Lives Matter, que combate a violência policial contra os negros e recentemente ganhou projeção internacional.

Carreira dev

Brianna é chefe de desenvolvimento da Giant Spacekat, um estúdio de jogos independentes baseada em Boston, Massachusetts, onde é cofundadora junto com Amanda Warner. Ela também mantém um blog e podcast na rede Relay FM em que aborda assuntos relacionados a indústria de games e seus impactos na sociedade, especialmente na questão da representação feminina.

Nascida em West, Virginia, Brianna foi criada por pais adotivos bastante religiosos e conservadores. Mudou-se com sua família no início dos anos 80 para o estado do Mississipi, onde viveu a maior parte de sua vida. Seu pai, um médico aposentado da marinha dos EUA, montou sua própria clínica, enquanto sua mãe teve um histórico de empreendedorismo por várias empresas. Sua criação foi basicamente dentro de um ambiente empresarial.

Desde jovem Brianna já demonstrava gosto pelo mundo dos jogos eletrônicos e tecnologia, mas também um lado crítico a respeito deles. Um de seus jogos preferidos na época, uma versão modificada de Super Mario Bros 2, tinha a princesa Peach como uma personagem jogável, o que acabou tornando-se uma influência poderosa em sua vida.

Seu pai também notou e incentivou o interesse de Brianna pelo desenvolvimento e estudos relacionados a tecnologia e programação com a compra de hardwares muito caros para a época. Brianna já declarou que algumas de suas memórias mais felizes como criança envolviam aprender a programar e modificar os computadores que sua família comprava para ela.

Quando a Sony estreou no mundo dos consoles com o Playstation, sua mãe comprou para ela uma edição especial "net yaroze", um Playstation que permitia a programação de seus jogos semelhante a um kit de desenvolvimento profissional. O material, no entanto, era simplificado para o público geral.

Ao descrever sua infância, Brianna a define como “difícil”, por se sentir “alienada pela cultura do Mississipi”. Tentou encontrar sentido indo à igreja com frequência. Participando até três vezes por semana. 

Chegou a seguir pontos de vista conservadores extremos de seu pai em um esforço para se relacionar melhor com ele. 

Ainda na juventude, Brianna já tinha forte interesse pelo empreendedorismo, resultado da criação de seus pais. Aos 15 anos já tinha um negócio na garagem da casa de sua família modificando carros e computadores. Aos 19, tentou criar um pequeno estúdio de animação. 

Entrando na Universidade de Mississipi, Brianna, não acreditava em racismo ou demais questões progressistas. Não gostava de ambientalistas, foi fortemente contra o feminismo e direitos dos homossexuais. Hoje ela se tornou o oposto do que era.

Chegou a alugar uma casa e transformá-lo em um estúdio para a produção de um piloto no valor de US$ 200 mil. A empreitada acabou não sendo tão bem sucedida o que acarretou sua saída da faculdade. Brianna cursava jornalismo e ciência política na Universidade do Mississipi.
Largando tudo diante da experiência negativa de seu primeiro estúdio de animação, Brianna resolve se mudar para Washington. 

Política e vida adulta

Com 23 anos, sem oportunidade de trabalho e morando na capital norte-americana, Brianna começa a fazer captação de recursos para o Partido Republicano. Esta fase de sua vida é bastante lembrada por Brianna Wu, pois foi esse período que acabou levando a uma forte mudança em seus pontos de vista políticos e fazendo reavaliar suas crenças a partir da leitura de proeminentes escritores liberais. “O Partido Republicano tem forte contraste com os meus ideais”, afirmou Brianna sobre sua experiência política ao Fox News.

Em 2004, frustrada com a administração Bush, passou o ano fazendo forte campanha para John Kerry. Chegando em 2005, foi rejeitada por seus pais devido as diferenças sobre direitos eleitorais e LGBT.

Brianna diz ter sido uma sem-teto durante este período.

Já aos 26 anos e decepcionada com os pontos de vista republicanos, resolve deixar a capital para retornar e terminar sua licenciatura em jornalismo investigativo na Universidade de Mississipi. Brianna sempre buscou trabalhar com tecnologias, especialmente as emergentes, tornando-se especialista em linguagem Palm OS e produzindo sites com programas como GoLive e Dreamweaver. Também fez trabalhos como ilustradora freelancer e realizando trabalhos de jornalismo investigativo.

Concluindo sua graduação, resolve retornar ao mundo dos games desenvolvendo para a plataforma IOS tornado-se game designer especialista em plataformas móveis.

Casou-se em 2008 com Frank Wu, após 11 meses de relacionamento. Frank Wu foi quatro vezes vencedor do Prêmio Hugo por Melhor Arte de Fã.

Seu estúdio

Em 2010, animada com as novas possibilidades diante do lançamento da Unreal para iOS, decidiu lançar uma empresa para fazer jogos com a tecnologia. Assim nasceu o estúdio Giant Spacekat, um estúdio com foco em jogos mobile que tragam grande experiência narrativa. 

"Eu sinto que há uma enorme lacuna no mercado neste momento", diz Brianna Wu. "Os jogadores tem ânsia narrativa e a tecnologia atual já é avançada o suficiente para o que nós pretendemos entregar. Quando penso nas experiências mais emocionantes que tive jogando, tudo está em torno do personagem e da história".

Brianna não tinha experiência com este novo motor gráfico, então, estudou programas de desenvolvimento em 3D, novas linguagens de computação e montou uma equipe. 

Junto com Amanda Stenquist Warner, criou a Giant Spacekat, trazendo a sua equipe, Maria Enderton, como principal programadora no intuito de fazer jogos mobile com forte apelo para o público feminino. "Estava muito animada quando vi seu portfólio de animação", disse Brianna a respeito dos trabalhos de Amanda. "Nós duas passamos nossa infância desenhando nossas próprias heroínas. Eu queria trazer algo para o mercado onde as mulheres eram os heróis, e não uma reflexão tardia". 

Quando começou a Giant Spacekat, Brianna se definia como “apenas uma feminista”, seu intuito com o novo estúdio era de criar jogos com personagens femininos fortes, mas com o tempo achou mais seguro "apenas fazer um bom trabalho e não fazer um grande negócio fora do mesmo".

O carro-chefe da Giant Spacekat é o jogo Revolution 60, um game protagonizado por mulheres, incluindo vilãs e demais NPC’s, que estreou para IOS em 2014, com uma boa recepção tanto da crítica quanto do público, chegando a ser listado entre os 10 melhores jogos indies da conferência PAX East 2013. Também teve uma ótima recepção e boas notas de sites como Macworld, Kotaku, Gamebreker e 148Apps. Esta planejada para breve uma sequência para Revolution 60. 

Ao começar a trabalhar, Brianna começou ficar deprimida com a mentalidade  de “clube de garotos” que existe no mundo dos games incluindo a própria indústria de jogos. Inclusive sendo mais hostil do que qualquer local do qual ela já tenha trabalhado. Este ambiente basicamente masculino a incentivou ainda mais na criação e no tom de Revolution 60, jogo que muitos descrevem como tendo fortes tons feministas.

No decorrer da criação do game, Brianna começou a falar cada vez mais com as mulheres que trabalham na indústria de jogos, chegando a escrever um artigo jornalistico literário, “Choose Your Character” (Escolha seu Personagem), para o The Magazine, onde ela relata suas mudanças de pontos de vista e novas percepções a respeito da indústria após ela começar a liderar um estúdio.

Pode-se considerar a criação do estúdio Giant Spacekat e o lançamento de Revolution 60, como marcos para que Brianna Wu de fato entrasse com uma postura mais ativa no que diz respeito a cultura de games e sua visão com relação as mulheres. 

Brianna começa palestrar por todo os EUA em conferências de tecnologia abordando questões feministas e seu papel na indústria de games. Além disso, fez mais um artigo, desta vez para a Polygon “No skin enough: The daily harassment of women in the game industry”, (Sem pele o suficiente: O assédio diário de mulheres na indústria de games), sobre o assédio diário das mulheres na indústria de desenvolvimento de jogos. Neste texto de opinião, Brianna junta o depoimento de diversas mulheres que trabalham no meio e comparam seus assédios sofridos com os que homens alegam também sofrer.

"As mulheres são as nigger de gênero." Nigger é uma expressão racista para afro-americanos. "Se você se matar, eu teria que estuprar seu cadáver." Coloquei “estuprar”, mas esta pessoa usou um termo bem mais ofensivo. Estas são algumas das mensagens recebidas por Brianna e expostas em seu texto.

Além de liderar a Giant Spacekat, Brianna também mantém um podcast na Relay FM, lançado em 2014 o podcast “Rocket”, onde Brianna junto com demais mulheres, podem expressar seus pontos de vista com relação ao mundo dos games, tecendo críticas e análises.

O escândalo de dois anos atrás

Em outubro de 2014, Brianna postou vários tuítes se referindo aos que usavam do termo GamerGate para nas palavras de Brianna, “combater um futuro apocalíptico onde as mulheres são 8% dos programadores e não 3%.”

Usando de sua experiência como jornalista investigativa, Brianna passou a monitorar e denunciar grupos que se uniam na internet e usavam o GamerGate como desculpa para comentários misóginos e ataques a mulheres.

A partir disso, usuários anônimos alegando defesa e luta pelo GamerGate, passaram a assediar Brianna divulgando informações referentes a sua vida pessoal. Também enviaram para seu e-mail mensagens que revelavam o conhecimento de seu endereço, nomes de familiares e as mais diversas ameaças como estupro e morte seguida de imagens de animais mutilados. 

Brianna tinha perdido recentemente seu cachorro de estimação.

Diante destas ações Brianna Wu chegou a abandonar sua própria residência e buscar ajuda das autoridades devido a falta de segurança.

Obviamente que a Brianna não foi o único alvo relacionado ao GamerGate. Neste mesmo período, outras mulheres também sofreram represálias devido a suas posições como Anita Sarkeesian, Zoë Quinn e Leigh Alexander.  

De certa forma Brianna é uma mulher acostumada a desafios e portanto difícil de se intimidar, ainda mais com ameaças de anônimos na internet “Por me atacar tão violentamente, eles estão me ajudando a dar visibilidade para inaugurar a indústria de jogos. Isso os deixa apavorados”.

Outras causas

Brianna também busca uma representatividade de personagens LGBT no mundo dos games, quando por exemplo se envolveu em polêmica ao tentar provar em um artigo junto a escritora e ativista trans, Ellen McGrody em que a protagonista de Metroid, Samus Aran, fosse uma mulher transgênero. Brianna encontrou forte oposição por parte de outros sites, além de claro, alguns ataques na internet. A Nintendo não tomou nenhum partido com relação a este caso mas talvez isso não importe tanto, afinal, sabemos da importância e quebra de paradigmas que não só Samus Aran, mas toda mitologia de Metroid já fizeram para o mundo dos games bem como para a representação feminina em si.

Brianna aceitou o papel de voz destoante no mundo dos games. Ela e demais mulheres resolveram abalar o status quo. Tal atitude acarreta uma oposição desproporcional, completamente desnecessária e sem foco, que fomenta a violência e preconceito. 

Discordar e contestar faz parte do jogo democrático e mais do que isso: É fundamental para a democracia em nossa sociedade. Isso é diferente de atacar pessoas. Pode-se não concordar, mas o mundo pode ser e é melhor quando todos podem se fazer ouvir e se respeitar.  

Ana “Zezé” é mulher trans e estudante de jornalismo na Universidade Anhembi Morumbi. Ela diz que sua vida é movida a jogos de todos os tipos e de qualquer plataforma. Gosta do digital e do analógico e considera tanto a imersão quanto a interação como as experiências que contam. É fã de ficção científica, FPS, (NeoTokyo) e Visual Novels.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Categorias:
Indie