Por Pedro Zambarda, editor-chefe.
Aftermath é um site de notícias de games, de internet e de cultura digital que foi lançado em novembro de 2023 – com uma cobertura descrita por eles como “humana”. Rogue foi criado em setembro de 2025 com demitidos da imprensa americana de jogos. Além desses dois, há o 404 Media, de ex-funcionários do Motherboard, site da Vice Media.
O primeiro site é de demitidos do Kotaku, minha referência ao criar este Drops de Jogos, posterior Drops. Um dos fundadores do Aftermath é Nathan Greyson, um dos jornalistas mais atacados no escândalo do GamerGate e autor do livro Stream Big, sobre a história da Twitch. O segundo é de demitidos do Polygon, outra referência da mídia de games 2000-2010.
E as demissões e cortes vem na época em que a produção de notícias está afundada em releases de relações públicas e textos redigidos por IAs generativas. Em que o público deixou de valorizar a escrita pelos vídeos, muitos deles curtos, entregando conteúdos mais interativos.
Mas antes de me lamentar sobre a situação da imprensa a nível global, há de se lembrar a minha própria mobilização em minha carreira. No ano de 2015, depois de sair do TechTudo da Globo, hoje a maior página de notícias de tecnologia do país, eu decidi também fazer mídia independente. E o caminho parece ser esse mesmo.
Em maio de 2024, IGN Entertainment comprou a família de marcas digitais Gamer Network por um valor não público. As publicações da Gamer Network são GamesIndustry.biz, Eurogamer (incluindo seis edições no idioma local) , Rock Paper Shotgun, VG247 e Dicebreaker . A empresa também detém ações da Outside Xbox, Digital Foundry e Hookshot (que opera Nintendolife, PushSquare, PureXbox e Time Extension ).
IGN Entertainment é a divisão da Ziff Davis que inclui IGN , MapGenie , HowLongToBeat e Humble Bundle. Ela adquiriu os sites da PAX e do organizador da Comic-Con de Nova York, ReedPop, que inicialmente comprou o negócio da Gamer Network em 2018. Não estão incluídos na venda os eventos EGX ou MCM com sede no Reino Unido, ou a marca digital Popverse, que permanecem com a ReedPop.
Na prática, aquela movimentação no ano passado significou que diversos veículos de comunicação passaram a pertencer à IGN, concebida como Imagine Games Network em 1996 – que já era a somatória de outros sites dos anos 90, tais como: N64.com (mais tarde renomeado ign64.com), PSXPower, Saturnworld, Next-Generation.com. Depois expandiu seus sites próprios e operados criando uma rede de afiliados que incluía vários fansites independentes, como PSX Nation.com, Sega-Saturn.com, Game Sages e GameFAQs.
Um recorte importante da mídia de games global, Estados Unidos e Reino Unido principalmente, concentrou agora no IGN, que já faz o Summer Game Fest no lugar da E3.
Diante de tamanha concentração midiática e encolhimento do mercado de games pelo mundo, com estimativas que variam em torno de 30 mil demissões na indústria, era óbvio que o jornalismo encolheria junto com a falta de anunciantes e de financiamento direto.
E é exatamente neste momento de automatização e redimensionamento do mercado que a mídia se torna fundamental. Para auxiliar os trabalhadores em sua luta por sindicalização, direitos humanos em seu ofício e numa melhoria real do mercado e não apenas da fortuna do andar de cima entre os executivos.
Falar de Aftermath e Rogue é abordar menos os demitidos do Kotaku e Polygon, páginas que foram referência do meu trabalho, e é falar mais sobre a situação real que abordam os mercados reais do mundo conectado que temos. Hoje permeados pelo caos climático e por novas guerras.
Escrever sobre videogames, há um tempo atrás, era quase sempre assessoria de marcas que se tornaram milionárias e algumas no tamanho do bilhão. Hoje, escrever sobre jogos eletrônicos é refletir sobre o empregado que já não está deslumbrado com as novas tecnologias e que busca sobreviver na era das big techs.
Não acredito em uma mídia totalmente independente.

Aftermath e Rogue. Foto: Divulgação
No entanto, acredito sim na independência em relação a alguns preceitos. É independente em relação ao que as grandes empresas fazem com seus empregados. Se for nesse sentido, somos indies juntos.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
