Por Victor Hidalgo, jornalista e autor do canal na Twitch Camarada Hidalgo. Também no YouTube.
Em 1960, o então presidente Jânio Quadros, olhou para os biquínis que as mulheres usavam nas praias e piscinas e os considerou “indecentes”, pornográficos. Levando a uma proibição, não muito duradoura, dos trajes de banho que só foram se tornando cada vez menores durante os anos seguintes.
O que molda o que nós acreditamos ser algo imoral, indecente ou pornográfico, é a sociedade que nos rodeia e as leis criadas dentro dela. E tudo isso muda com o passar do tempo. O curto governo de Jânio não conseguiu implementar a censura que gostaria, o presidente renunciou ao posto e pouco tempo depois, um golpe de estado aconteceu.
Mas você deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com o Steam, Itch.io, bandeiras de cartão internacional e um grupo de feministas radicais que no passado tentou tirar “Detroit:Become Human” das lojas virtuais, não é? Bom, é que pornografia é o que você acha que é pornografia, e isso vai gerar implicações e interpretações diversas.
No meio de julho, a Valve removeu silenciosamente dezenas de jogos adultos da sua plataforma para ficar em conformidade com demandas de empresas processadoras de pagamento como a Paypal, e redes bancárias como a Visa e Mastercard, que historicamente não querem ter sua imagem associada com esse tipo de conteúdo. Isso ocorreu após uma atualização nos termos de onboarding da plataforma.
15.Conteúdo que possa violar as regras e normas definidas pelos processadores de pagamento do Steam, operadoras de cartões de crédito, bancos e/ou provedores de internet. Em particular, determinados tipos de conteúdos voltados exclusivamente ao público adulto. – Valve.
O problema disso é o quão vago e aberto é. A Valve não deu exemplos dos tipos de conteúdo que podem ser encaixados nessa cláusula, deixando desenvolvedores de jogos adultos no escuro. Cerca de 22 jogos foram removidos, segundo dados resgatados do site SteamDB, todos com temática de incesto, mas sem explicação se a remoção teve alguma relação com a nova política.
Mas não são somente jogos com conteúdo sexual explícito que estão sendo afetados com essa nova política, o jogo “Vile:Exhumed”, da desenvolvedora independente Cara Cadaver, da Final Girl Games, foi removido do Steam definitivamente. O jogo se passa nos arquivos e em salas de bate-papo, como aquela que tínhamos acesso no UOL. E em como jogos como “Her Story” e “Telling Lies”, o jogador tem o papel de investigar e encontrar pistas dentro de um PC antigo sobre o desaparecimento de uma atriz de filmes adultos, Candy Corpse.

Ich.io e os cartões de crédito. Foto: Reprodução/Wikimedia Commons/Montagem Pedro Zambarda/Drops
É um jogo criado por uma desenvolvedora mulher que aborda misoginia e violência contra mulheres, mas por conta das novas regras do Steam, foi removido da loja sem direito a apelo da desenvolvedora.
“Eu me dediquei de corpo e alma a esse jogo — era uma história incrivelmente pessoal, feita de pedaços das minhas experiências da vida real, dos meus sentimentos reais, e refletia isso para muitas outras pessoas também”, disse Cara ao site Engadget.
O Steam disse a Cara que a ação foi desencadeada por cenas de “conteúdo sexual com representações de pessoas reais”, uma descrição que, segundo ela, não se aplica ao seu jogo, já que ele envolve texto e insinuações. No final, a voz de uma desenvolvedora independente foi silenciada e sua história foi removida da maior loja de jogos digitais do mundo.
Collective Shout Assume responsabilidade da remoção de jogos adultos.
O grupo de feministas radicais australianas, Collective Shout, assumiu a responsabilidade das remoções dos jogos das plataformas e soltou uma nota não muito tempo depois em seu próprio site falando que “O Itch.io tomou a decisão de remover todo o conteúdo NSFW. Nossas objeções eram contra conteúdos que envolviam violência e tortura sexualizada contra mulheres”. E que tomaram a decisão de envolver processadores de pagamentos pela objeção de jogos com estupo e incesto no Steam após meses de pressão.
Segundo o Itch.io, eles tiverem que tomar uma decisão mais radical na questão da desindexação de conteúdos NSFW por conta do Steam ser uma plataforma “fechada”, enquanto a Itch.io é aberta, com Conteúdo Gerado Pelo Usuário (UGC), com mais de dois milhões de páginas de produtos, onde qualquer pessoa pode publicar a qualquer momento com o mínimo de barreiras.
“Além disso, a itch.io é uma empresa pequena, tanto em tamanho de equipe quanto em volume de transações, em comparação com uma empresa como o Steam. Temos capacidade limitada de “reação”, segundo nota da página oficial da Itch.io.
Então a solução, segundo eles, foi desindexar todo o conteúdo adulto da plataforma. Mas o que é considerado conteúdo adulto, no final das contas? Bom, esse é o problema: depende pra quem você pergunta. Eu posso gostar tanto de jogar com uma personagem como a Claire em “Resident Evil 2: Remake” quanto a 2B de “Nier:Automata”, mas uma pessoa pode olhar para a bunda exposta de uma enquanto destroi robôs e tem discussões filosóficas e dizer: “isso é indecente”.
O compositor Jiro, que já produziu trilhas sonoras para jogos adultos como o “Castelo da Vania”, disse que essas medidas podem impactar jogos que já foram colocados no mercado, e que recentemente “No que já produzi, nesse caso vai impactar o que já colocamos a venda. A Itch.io conseguiu voltar com algumas coisas com o tempo, mas com algumas restrições em geral. Mas isso no final impacta enquanto tudo vai poder ser divulgado”, respondeu em entrevista para o Drops.
“Vimos essas mudanças afetarem outras plataformas, como o Patreon. Eles nunca são transparentes sobre as “regras”, mas podemos dizer o que é banido e o que não é. No caso do Patreon (e atualmente do Steam), parece que eles estão mirando em jogos que apresentam “incesto” e “sexo não consensual”. O problema é que, sem deixar isso claro, eles basicamente dizem que qualquer coisa NSFW pode ser banida — não temos ideia de onde estão os limites.” Diz Milk Cartel, desenvolvedor do jogo adulto “Succupie: A Erotic Short Story”, um slice-of-life onde dois adultos numa relação heteronormativa fazem sexo de forma consensual, em entrevista para o Drops.
Segundo Milk Cartel, o que o Steam vai considerar “passar dos limites” ainda é incerto. Mas que isso acendeu um farol vermelho nos desenvolvedores que vão começar a repensar algumas coisas como “por exemplo, em Game Of Thrones, apesar de não ser um jogo, temos sexo não-consesual e incesto, um jogo de GOT seria banido no Steam?”, o que levanta o ponto do que pode ou não ser abordado em uma obra de arte.
Collective Shout tenta censurar Detroit:Become Human

Cena de “Detroit:Become Human” com Kara
O grupo deixou claro que segue uma política de tolerância zero na questão de representações de abuso em jogos. Em 2018, compartilharam um abaixo-assinado para que lojas parassem de vender “Detroit:Become Human” na Austrália por mostrar o comportamento violento de um pai abusivo contra sua filha e a personagem Kara, uma empregada doméstica. O jogo coloca o jogador na pele da Kara nesse cenário, buscando gerar empatia pela personagem, que é uma robô, e a criança abusada. Mas parece que isso não passou pela cabeça do coletivo na época.
“A violência doméstica é um grande problema neste país e não é algo que deva ser considerado entretenimento”, diz a petição. “É uma vergonha para a SONY permitir o lançamento de tamanha obscenidade, e peço à Austrália que se posicione contra isso e proíba sua venda em nosso país.”
Segundo a jornalista e criadora de conteúdo adulto, Ana Valens, em seu artigo censurado pela Vice, ela diz que não está claro se “o Collective Shout está ativamente visando “Detroit:Become Human” em 2025, a remoção de tal jogo seria semelhante à censura artística de material que discute abuso misógino contra mulheres da família. Atacar o jogo, em outras palavras, poderia ser considerado antifeminista.” finaliza.
Mas enquanto o grupo age criticamente contra esse tipo de conteúdo ser representado em jogos, por outro defendem que ele seja abordado em filmes como “Cuties”. Fica claro que existe um viés na hora de validar qual tipo de mídia pode falar de determinados assuntos.

Tuíte de 2020 do grupo Collective Shout elogiando o filme “Cuties”.
O mesmo grupo foi responsável por compartilhar uma campanha contra o lançamento de GTA V na Austrália em 2014, que obteve sucesso e removeu os jogos das lojas físicas da Target e Kmart.
Essa diferenciação do grupo entre o que pode ou não ser incluído em um jogo de videogame, diferente de um filme, por exemplo, pode também ser um reflexo de como a Austrália classifica esse tipo de conteúdo. Disco Elysium – The Final Cut, já foi banido no país por conta do uso de drogas, e por isso, não recebeu uma classificação.
O orgão disse na época que jogos de computador que “retratam, expressam ou de outra forma lidam com questões de sexo, uso indevido ou vício em drogas, crime, crueldade, violência ou fenômenos revoltantes ou abomináveis de tal forma que ofendem os padrões de moralidade, decência e propriedade geralmente aceitos por adultos razoáveis, a ponto de não deverem ser classificados”.
Disco Elysium foi considerado “indecente” e “imoral” em 2021 pelo Australian Classification Board. Mas após saberem que na narrativa o jogador era desincentivado a utilizar drogas e que elas causavam status negativos no personagem, ele foi classificado. Mas esse não foi o último jogo a ser banido pela Austrália, recentemente o jogo de luta “Hunter x Hunter: Nen x Impact” foi banido por “sugestões de violência sexual contra menores”. Provavelmente por conta do personagem Hisoka.
Quem realmente está por trás de tudo isso
A jornalista e criadora de conteúdo adulto, Ana Valens, mostrou que o grupo “Collective Shout” tem o apoio de diversas organizações conservadoras anti-pornografia em sua matéria censurada pela Vice.
Na sua investigação, ela relata que no dia 11 de julho, “Collective Shout” publicou uma carta aberta para os CEOs da Paypal, MasterCard, Visa, Paysafe, Discover e JCB. Na postagem, Collective Shout incluiu assinaturas de executivos dessas organizações como a National Center on Sexual Exploitation (NCOSE), Exodus Cry, Coalition Against Trafficking in Women e a organização da Inglaterra CEASE.
NCOSE em 2018 colocou um alvo nas costas de diversas visual novels no Steam, que foram brevemente removidas da loja virtual. Porém, o Steam na época reverteu a decisão e abriu as portas para jogos adultos na plataforma. NCOSE originalmente era conhecida como “Morality in Media”, que anteriormente era conhecida como “Operation Yorkville”, um grupo religioso conservador.
Em 1990, fizeram um boicote a Disney por começar a oferecer benefícios conjugais a parceiros do mesmo sexo. A organização já foi filiada a Christian Coalition, e declararia que “defende firmemente os valores familiares tradicionais e os preceitos judaico-cristãos”. Bob Peters, presidente do MIM na época, chegou a dizer que a revolução sexual e o “declínio da moralidade” eram a causa subjacente dos assassinatos em massa. Afinal, homossexualidade é “indecente” e “imoral”.
Na época da sua reportagem, Ana e a Vice pediram para o grupo mostrar a lista de jogos que retratam “abuso infantil” que o grupo diz estar combatendo. Talvez nunca tenhamos essa lista, já que a reportagem foi censurada e as contribuições da jornalista para a empresa encerradas.
A Valve já havia removido no passado uma visual novel que continha uma cena oculta em seus arquivos com uma cena adulta que a empresa considerou ter um menor de idade, apesar da desenvolvedora do jogo negar a alegação. Tanto que a visual novel voltou para o Steam assim que o arquivo foi removido. Então é improvável que a Valve tenha esses jogos na plataforma.
Nas últimas semanas, a Mastercard soltou uma nota se justificando, dizendo que permite todos os tipos de compras legais nas suas redes, mas que exigem que comerciantes tenham controle adequado para garantir que os cartões não sejam usados para compras ilegais.
Dizendo que “permitimos todas as compras legais em nossa rede. Ao mesmo tempo exigimos que os comerciantes tenham controles adequados para garantir que os cartões Mastercard não possam ser usados para compras ilegais, incluindo conteúdo adulto ilegal.”
Mas a realidade conta outra história. Em 2024 o site japonês de mangás, Manga Library Z, soltou uma nota dizendo que iria fechar às portas por conta de pressão de empresas de cartões Internacionais para remover conteúdos do site.
Segundo o funcionário da operadora, Yasuyuki Otokawa, em maio daquele ano, uma agência de pagamentos que servia de mediadora entre a Manga Library Z e às operadoras de cartões de crédito, mandou uma lista de 50 palavras. Entre elas, “estupro” e “tortura”.
Eles foram informados que caso o site não removesse qualquer obra que tivesse essas palavras, os serviços com a plataforma seriam encerrados. Segundo ele, apesar de terem deletado os conteúdos que estavam sujeitos a essas regras, a empresa de pagamento terminou o contrato com eles em outubro, com a justificativa de que eles ainda estavam vendendo conteúdo adulto.
90% dos pagamentos da Manga Library Z eram feitos via cartão de crédito. O que tornou a operação do site impossível. Apenas 20% do conteúdo do site era direcionado para o público adulto.
A situação foi tão crítica que até Yoko Taro, desenvolvedor de Nier:Automata, comentou em seu Twitter:

Tuíte de Yoko Taro @yokotaro
“Empresas de pagamento com cartão de crédito estão se recusando a aceitar pagamentos legítimos por conteúdo adulto”, escreveu o diretor. “Regulamentações além da lei já existem em vigor em publicações e outros setores, mas o fato de um processador de pagamentos, que está envolvido em toda a infraestrutura de distribuição, poder fazê-lo a seu próprio critério me parece um nível diferente de perigo. Se eles têm o controle das empresas de pagamentos, podem até usá-la para controlar a liberdade de expressão em outros países.”
Em outro tuíte ele ainda comentou que “Sinto que não se trata apenas de censurar conteúdo adulto ou de colocar em risco a liberdade de expressão, mas sim de uma falha de segurança que coloca em risco a própria democracia.”
O site conseguiu voltar ao ar após uma campanha de financiamento coletivo bem sucedida. Mas mostra como estamos dependentes de empresas estrangeiras para gerir nossos pagamentos, e que na mudança da maré, eles podem decidir parar de prestar os serviços caso não aceitemos suas condições, como sequestradores exigindo um resgate.
Mas voltando ainda mais no tempo, em 2021 o site OnlyFans foi obrigado a banir conteúdo explícito da plataforma. O CEO Tim Stokely disse na época que “O JPMorgan Chase é particularmente agressivo no fechamento de contas de profissionais do sexo ou… qualquer empresa que apoie profissionais do sexo”, em resposta ao Financial Times.
Segundo ele, o Bank of New York Mellon, que eles usaram como banco intermediário para transferir dinheiro dos assinantes para criadores, “sinalizou e rejeitou” todas as transferências relacionadas à empresa, dificultando o pagamento dos criadores.
Stokely disse que o Bank of New York Mellon, que o OnlyFans usou como banco intermediário para ajudar a transferir dinheiro dos assinantes para os criadores, “sinalizou e rejeitou” todas as transferências conectadas à empresa, “dificultando o pagamento aos nossos criadores”.
Foi o mesmo que nos relatou a putativista e criadora de conteúdo adulto, Svetlanna. Que nessa época, ela estava trabalhando com OnlyFans. E teve uma semana que barraram conteúdo sexualmente explícito na plataforma.
“Tivemos que deletar um monte de fotos e as trabalhadoras sexuais estavam com muito medo de serem expulsas. Isso foi consequência direta da influência da Mastercard. Depois eles voltaram com o conteúdo adulto na plataforma, e os bancos, como o JP Morgan, alegaram que isso dava problema de reputação para eles. Isso tem ligação com a lei SESTA /FOSTA, assinada em 2018 pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao lado de feministas radicais.” finalizou.
Em resumo, a lei SESTA/FOSTA remove a proteção para sites sob a seção 230 da Communications Decency Act e responsabiliza sites e serviços por hospedar o que define vagamente como tráfico sexual e prostituição. Ela praticamente estabelece que trabalho sexual e tráfico sexual são a mesma coisa e torna a discussão e a publicidade crime nos Estados Unidos.
Isso tornou a vida de trabalhadores sexuais muito mais difícil e perigosa, tirando do ar fóruns usados para compartilhar perfis e contatos de clientes problemáticos: violentos, caloteiros ou que passavam dos limites das profissionais. Um estudo de 2017 constatou que após o compartilhamento dessas informações no Craig’s List, o índice de homicídios no meio caiu em surpreendentes 17%. Portanto, a alegação de que essa lei visa a segurança e o bem-estar das mulheres não é verdade.
Então podemos perceber que, apesar de assumirem a responsabilidade da censura recente, o grupo “Collective Shout” foi usado pela extrema-direita para avançar com suas pautas conservadoras e censura na internet daqueles que eles julgam “Imorais” e “indecentes”.. Essa não é a primeira e nem a última vez que feministas radicais serão feitas de marionetes e servirão de escada para conservadores.
Quem decide o que é conteúdo adulto?
Tiani Pixel. Foto: Reprodução/Kao Tokio
Tiani Pixel, uma das fundadoras do Studio Pixel Punk e desenvolvedora do metroidvania “UNSIGHTED” e que hoje está trabalhando em “ABBYS X ZERO”, respondeu em entrevista para o Drops de Jogos que um dos principais problemas é quem decide o que é conteúdo adulto ou não.
“Tivemos um problema parecido no BlueSky, onde fotos comuns de pessoas de roupa um pouco mais curta, ou na praia, etc, estavam sendo marcadas como “conteúdo adulto”. E naturalmente isso afetava desproporcionalmente mais mulheres e pessoas LGBT, que são constantemente vistas como inerentemente sexuais para o resto da sociedade.” disse ela.
Segundo ela, historicamente relacionamentos LGBTQIA+ são tratados como “mais sexuais” do que relacionamentos héteros, e que “É comum até hoje se ouvir que não se deve mostrar “esse tipo de coisa” pra crianças, por mais leve que seja. Enquanto a sexualização de relações ou visões héterossexuais da sociedade são aceitas e disseminadas por toda a sociedade, independente da idade “, relatou.
Ela continua dizendo que constantemente algoritmos colocam relacionamentos LGBTQIA+ como “conteúdo adulto” em redes sociais, enquanto não aplicam o mesmo padrão para relacionamentos heterossexuais.
“É óbvio que existe sim um problema de sexualização de mulheres na mídia, e a indústria da pornografia possui um histórico de abusos (assim como todas as indústrias no capitalismo). Porém, medidas conservadoras como essa não resolvem o problema real e apenas prejudicam pessoas que já estão marginalizadas na sociedade, e muitas vezes que já são vítimas destes problemas citados. Trabalho sexual, ou criação de obras de arte que retratam sexo ou discutem o tema, são válidos como qualquer outro tipo de trabalho e obra de arte.” finalizou a desenvolvedora.
A censura sempre existiu no Steam, só que não era para todos
O criador do estúdio Male Doll, de jogos adultos voltados para a população LGBTQIA+, Pieve Rodrigues, relata que o Steam já censurava capas de jogos LGBTQIA+, mesmo sem nada explícito.
Segundo ele, nada muda. que para o LGBTQIA+ entrar na mídia, ele tem que ser muito higienizado. Que desde antes dessa atualização de política do Steam, eles estavam barrando capas de jogos do seu estúdio que “às vezes os caras estão sem camisa, ou mostrando mais do corpo”, de acordo com ele.
Enquanto os jogos heteros, ele coloca a personagem peituda na capa e passa, sem problema algum. “O Steam está formalizando o que já estava fazendo”, finaliza.
“Acho que essa questão de censura é mais um ponto de vista de quem está fora do meio LGBTQIA+. A gente se considera os “intocáveis”, sabemos que não teremos nossos jogos falados na mídia, que as pessoas não querem falar da gente, por que a gente faz um conteúdo “sujo”.
Por estarmos falando da parte negativa do ser LGBTQIA+ que é o sexo. Que questiona várias das lógicas da sociedade machista. Não vejo como preocupação ou questão de censura, esse é o nosso dia a dia. Somos barrados por questões muito mais pontuais, quem dira sobre sexo? Então não vejo como censura, mas a lógica se mantendo e caindo na grande mídia e gerando caos. Mas quem está do nosso lado já sabe que nada está mudando, vamos continuar enfrentando as mesmas barreiras, mas talvez de outras formas. Mas vamos continuar nesse lugar de sermos “censurados”, como a gente sempre foi”, finaliza Pieve.
Milk Cartel, desenvolvedor de jogos adultos, diz ter fé na Valve como empresa, mas que “precisamos estar cientes do papel que os lobistas cristãos desempenham ao pressionar processadores de pagamento como a Visa e Mastercard a fazer esse tipo de coisa (censura)”.
E que se é da vontade deles que os processadores de pagamento reprimam a “pornografia extrema” hoje, não há nada que impeça esses mesmos lobistas cristãos de “voltarem suas atenções para conteúdo LGBTQIA+, ou qualquer outra comunidade que consideram contárias aos seus valores) amanhã” concluí.
Tudo está acontecendo novamente
Existe um poema famoso gravado em pedra no memorial do holocausto em Boston, escrito por Martin Niemoller, um pastor anticomunista que apoiou a ascensão de Hitler na Alemanha, mas que se arrependeu e formou um glupo de clérigos almães opostos ao regime. Ele começa com “primeiro eles vieram pelos comunistas, e eu fiquei calado pois não era um comunista”. A questão é que eles vieram por muito mais gente antes, mas essas pessoas não entraram no poema.
Os nazistas vieram pelas pessoas LGBTQIA+, queimando os livros do Institut für Sexualwissenschaft, Instituto de Pesquisa Sexual, que fazia campanha pelos direitos dos homossexuais e transgêneros. Mais de 20 mil livros e 5 mil fotografias foram queimadas na fogueira junto de outras obras que eram consideradas “não alemãs”. Afinal, tudo isso era considerado “imoral” e “indecente”.
Aqui não importa se você acha que trabalho sexual é trabalho ou não, essas ações não estão ajudando nenhum trabalhador sexual a ter um trabalho mais seguro ou ser aceito na sociedade e ter relações saúdaveis com outras pessoas sem ser julgado pelo o que faz para ganhar a vida. Estão usando grupos de pessoas extremamente infelizes, como feministas radicais, para avançar pautas conservadoras que usam das dores de mulheres e crianças como desculpa para proibir a existência dessas pessoas em nossa sociedade.
Se eles estão vindo pelos seus joguinhos agora, é porque eles já vieram por muito mais gente antes. O Brasil também está sofrendo pressão internacional de operadoras de cartões de crédito por conta do Pix, vocês acham que tudo isso é apenas uma grande coincidência ou medo de perder o poder de abuso monetário sobre outros países? Afinal, se temos soberania, não somos dependentes.
Você é o próximo da lista dos “imorais” e “indecentes”. De que lado estará quando a hora chegar?
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Eu ja fui pega, afinal eu consumo jogos de romance adultos pra mulheres que caem muitas vezes nessa censura e como gamedev indie também ja que minha plataforma é o itchio, um jogo mesmo que estou escrevendo não seria aceito nele, simplesmente porque menciona escravidão moderna do capitalismo,mas sem filtros, abuso que alguém sofreu e faz parte da história de fundo do personagem e conteúdo sexual descritivo.
Esquerda dormi de calça jeans X mulheres normais.