“Jogos sul-americanos estão explodindo agora como o Reino Unido dos anos 80”, diz o músico escocês Barry Leitch

Compositor de videogames há 30 anos, o escocês Barry Leitch (46) nasceu em Strathaven e fez sucesso com as músicas dos games Lotus Turbo Challenge, Top Gear e Rush nos anos 1990. Recentemente, no entanto, ele se juntou com a empresa gaúcha Aquiris e fez a trilha de Horizon Chase, o jogo brasileiro mais premiado em 2015, inclusive através do site Geração Gamer e até pelo UOL Jogos. 

Foto: Reprodução/Facebook

Recentemente, neste mês de maio, Barry relançou a trilha de Horizon com os remixes elaborados por músicos brasileiros para agregar valor ao seu trabalho já consolidado.

Para entender a trajetória do escocês, o DJ fez uma entrevista. Confira.

Drops de Jogos: Como foi seu trabalho com o Aquiris Game Studio? Quanto tempo levou todo o processo criativo?

Barry Leitch: Trabalhar com o Aquiris era muito um emprego dos sonhos, porque eles realmente não tentaram limitar de qualquer forma ou mesmo direcionar a música em qualquer direção sem meu consentimento. O trabalho soa como Top Gear, só que é melhor e mais moderno. Foi intencional capturar a mesma sensação musicalmente do jogo original dos anos 90, deixando eu fazer o que eu sempre faço. Eles me deram a liberdade para realmente mexer e remixar dentro das minhas zonas de conforto, muitas vezes.

A única vez que tive alguma dificuldade foi ao escrever a trilha da Race 4. Tinha usado alguns instrumentos indianos que geraram impasse geográfico. Me aconselharam a usar algo mais genérico, para ser aplicado em outros países.

Inicialmente eu queria levar cerca de três ou quatro semanas compondo neste trabalho. Acabei de trabalhando por oito semanas, com três ou quatro de mixagem e ajustes depois.

DJ: O que você tem a dizer sobre os compositores brasileiros? Tem algo a comentar sobre as composições deles na trilha de Horizon Chase?

BL: Os compositores brasileiros me surpreenderam, constantemente, por sua criatividade e paixão. Quando fizemos o concurso de remix do Horizon, vi uma diversidade enorme de trabalhos e cada um veio de um ângulo que eu não esperava para o game. Muitos desses caras fazem o que eu não posso fazer num jogo, porque eles atiram as melodias ao vivo e isso me deixa vidrado. Nino Megadriver conseguiu encaixar aquele solo de guitarra louco que eu escrevi, Quando eu compus, viajei ao passado para trás tornando o processo mais complexo. Me emocionei quando ele postou um vídeo no facebook dele tocando o que criei.

Os remixes do DJ Vyper e Danilo Ercole são algumas grandes faixas. Eles trazem uma atmosfera bem dark club. O remix James Bon de Patrick Nevians também foi muito inesperado, levando a música em uma direção que eu nunca imaginei. No geral, a qualidade foi incrível, melhor que a minha, muitas vezes!

DJ: Como foi a reação global ao seu trabalho em Horizon?

BL: A recepção global do Horizon está excelente. O game foi o mais popular para o público do Brasil por causa sua conexão aberta com Top Gear. Na Europa, o jogo gerou identificação com o Lotus 2 do Amiga. Eu vendi alguns CDs autografados na internet através do meu site quando lançamos Horizon Chase. Mandei discos pro mundo todo, incluindo lugares distantes. Foi muito gratificante saber que, enquanto eu passo 99% do meu tempo no meu pequeno estúdio, a minha música ainda pode viajar globalmente.

DJ: Qual é o seu compositor favorito?

BL: Meu compositor de jogos favorito é o Rob Hubbard, porque sou da velha escola. As coisas que o homem fez com um Commodore 64 com chiptune não era apenas musicalmente brilhante, mas tecnicamente inspirador. Ele foi um verdadeiro pioneiro. Eu também trabalhei com um compositor da Ocean Software chamado Dean Evans, um homem muito talentoso também. Quanto a banda favorita ou artista, eu realmente gosto de Angelo Badalamenti, Bach, Covenant, The Sisters of Mercy. Ouço tudo dependendo do meu humor. Muitas vezes escuto remixes de videogames antigos, clássicos.

DJ: Que tipo de música influenciou sua carreira?

BL: Quando você é um compositor, tudo influencia sua carreira. Muitas vezes você se direciona a um estilo ou gênero musical específico. E, às vezes, é necessário abraçar desafios com tipos de músicas que eu realmente não gosto. Claro que eu adoraria escrever mais 20 faixas como em Horizon Chase, mas eu ficarei entediado depois de um tempo. Quando alguém chega e diz "Você pode nos escrever algum Death Metal? Ou baladas subaquáticas atmosféricas no estilo de Jean Michelle Jarre misturado com Shania Twain". Esse tipo de loucura é uma luta de verdade.

O maior desafio recente que tive foi criar o arranjo para o medley Top Gear/Horizon Chase para a Video Games Live (VGL). Orquestração é um trabalho grande e eu nunca tinha feito isso de maneira completa antes. Felizmente, a música que montei foi aprovada por Tommy Tallarico, que tem muito mais experiência com os arranjos orquestrais. Como essa trilha não foi gravada ainda, tenho que ouvir o que Tommy fez. Acredito que ele levou meu trabalho para o próximo nível, mantendo todas as coisas importantes que eu queria lá.

DJ: Você gostaria de trabalhar com brasileiros novamente? Em qual tipo de projeto?

BL: Eu adoraria trabalhar com desenvolvedores brasileiros mais uma vez. Mas sei que a situação de vocês no país está difícil, com o câmbio numa taxa horrenda, o que torna as coisas difíceis. Todos nós temos que pagar o aluguel todos os meses. Acho que a cena de desenvolvimento de jogos sul-americanos está explodindo agora, num nível de criatividade e paixão que eu não via desde que a indústria de games no Reino Unido durante o final dos anos 80.

Portanto, há um espírito de pioneiro com vocês que eu realmente gosto.

Quanto ao que tipo de projeto. Eu acho que eu adoraria fazer um jogo em realidade virtual (VR) atmosférico. Gostaria de trabalhar em algo com uma história que me permita compôr algo mais emocional. Queria fazer vocês chorarem. Atualmente estou trabalhando com um par de times europeus em títulos que esperamos concluir nos próximos meses.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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