Local versus Global: Mesclando-se ao Se Destacar. Por Pedro Giglio - Drops de Jogos

Local versus Global: Mesclando-se ao Se Destacar. Por Pedro Giglio

Discussão importantíssima

Substituir Liberty City por Rio de Janeiro não é suficiente. (Rockstar Games, Neuzelio Lima, Pixabay)

Substituir Liberty City por Rio de Janeiro não é suficiente. (Rockstar Games, Neuzelio Lima, Pixabay)

Texto do designer de narrativa no LinkedIn. Ensaio originalmente publicado em inglês no livro The Game Narrative Kaleidoscope, compilado por Jon Ingold e publicado pela Inkle Studio.

Reunindo mais de 100 textos de veteranos a entusiastas e estudantes da escrita para jogos (incluindo profissionais envolvidos em jogos como Prince of Persia, Control, Assassin’s Creed, Call of Duty e Baldur’s Gate 3), o livro está disponível para compra em forma física e digital neste site, além de uma série de podcasts com seus participantes. [Click here to read the English version.]

Viver no Sul Global (admito, já respondi “come to Brazil!” a vários anúncios de minhas bandas favoritas nas mídias sociais) significa uma constante exposição a vários tipos de influência estrangeira na mídia e na cultura pop; algumas mais pervasivas que outras — de filmes de Hollywood e séries de TV ao K-pop. Isso também significa que eu já vi uma quantidade insalubre de aspirantes a desenvolvedores promovendo seu jogo como “o Grand Theft Auto brasileiro”.

Alcançar um equilíbrio entre a autenticidade às suas referências culturais e costumes locais sem alienar públicos em potencial, enquanto cria histórias que ressoam com pessoas de outros países sem diluí-las, é um desafio que escritores perigam enfrentar diariamente. Existem várias maneiras de conseguir isso, mas nem sempre é de fácil realização.

Substituir Liberty City por Rio de Janeiro não é suficiente

Aí, quando desenvolvedores de uma região em ascensão põem as mãos à obra para criar um jogo inédito, não é incomum que recebam feedback sobre como deveriam representar a real cultura e costumes de seu país — em vez de ir na garupa de seja lá o que vier de uma terra muito, muito distante, à sua tela. Como um amigo disse, é difícil apoiar escritores iniciantes em plataformas como o Wattpad quando suas histórias se tratam do interior da Irlanda, estreladas por uma jovem ruiva dirigindo um conversível.

Vejamos a personagem da Iara. Uma das mais populares histórias de origem desta lenda do povo tupi-guarani relata a guerreira jovem e habilidosa que, vítima do ciúme de seus irmãos, é assassinada. Depois que eles se livram do corpo dela no rio, ela é ressuscitada por Jaci, a misericordiosa deusa da lua. Para a surpresa de todos, Iara retorna em uma forma nova e fantástica: agora, ela é uma bela meia-mulher, meio-peixe, que ocasionalmente atrai os homens para uma morte sob as águas. Parece familiar?

Uma mulher-peixe por qualquer outro nome

Considere que a variedade aquática da sirene da mitologia grega não deve nem ser a primeira instância deste tipo de criatura mitológica— e, detalhes regionais à parte, ela compartilha o espaço mental de sereias, selkies, rusalkas, e… Eu ficaria surpreso se essa lista não continuasse para sempre. E tenho ciência de que este é um exemplo bem facinho. Justiça seja feita, identificar ecos temáticos em outros lugares ao desenvolver trabalho criativo é apenas outra quinta-feira normal de escritores por aí. Mas e se alguns conceitos se revelarem exóticos ou incomuns demais a jogadores estrangeiros?

Defensores vocais do anticolonialismo podem escolher manter as coisas o mais puras possível, sem explicar demais as coisas para olhos estrangeiros. Afinal, se obras de fontes onipresentes de cultura não se esforçam para soletrar tudo bonitinho para outras regiões, então por que a gente deveria fazer isso para o resto do mundo? Ou, como diz um parceiro meu na cena de desenvolvimento, “os gringos que se virem“. É uma postura que respeito.

(Um toque: chamar qualquer estrangeiro de “gringo” ou “gringa” é comum no Brasil; se é algo carinhoso ou pejorativo depende inteiramente do contexto.)

Boa ideia inicial; agora, esqueça que ela existiu

Por outro lado, esta abordagem pode sair pela culatra nos mercados locais. Um público cansado pode revirar os olhos, reclamando do desenvolvedor preguiçoso que escolheu pegar a fruta no galho mais baixo da árvore; que está se esforçando demais para demonstrar sua brasilidade. E um efeito colateral infeliz disso é ver bons jogos que sigam esta abordagem sendo deixados de lado devido a este cinismo reacionário. É um cenário sem chance de vitória?

Trazendo uma analogia vinda da escrita de comédia, descartar sua primeira ideia costuma significa se livrar da reação automática que todo mundo e sua respectiva avó tiveram. O mesmo se aplica àqueles que adaptam para terror as obras originalmente criadas para público infantil assim que vira o calendário do domínio público. Quanto mais cedo você perceber que você consegue ir bem além do esperado, melhor.

Tenha certeza de que você consegue atingir seus objetivos enquanto se esquiva de estereótipos e da previsibilidade– uma sensação libertadora! Existe uma miríade de formas de explorar e expandir – e espaço de sobra para trazer experiências que reconheçam e retratem as referências que você deseja sem depender de escolhas óbvias. Qualquer conceito que você desenvolver se beneficiará de investir mais atenção e carinho antes de virar a chave.

Aprofunde-se nas possibilidades de adaptar os elementos do material de origem para personagens e histórias que poderiam funcionar em qualquer lugar, sem exigir conhecimento prévio. Destilar o que faz certas histórias e personagens funcionarem em lugares diferentes é essencial, não interessa se você está escrevendo um romance tórrido, uma história de superação, ou um tratado sobre a vingança. Ou até mesmo os três juntos, vai saber?

Substituir Liberty City por Rio de Janeiro não é suficiente. (Rockstar Games, Neuzelio Lima, Pixabay)

Substituir Liberty City por Rio de Janeiro não é suficiente. (Rockstar Games, Neuzelio Lima, Pixabay)

Qualquer história no mundo tem os ingredientes para que funcionem em outro lugar como uma nova história. Então, o que você está esperando? Pegue a receita da sua avó, mexa aqui e ali, e surpreenda seus vizinhos e as pessoas planeta afora. O mundo é seu restaurante!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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