Microsoft, Lex Luthor e a maldade da mente corporativa - Drops de Jogos

Microsoft, Lex Luthor e a maldade da mente corporativa

Alguns chamam o que a Microsoft faz de “decisões corporativas”. Eu só consigo ver maldade.

(Imagem: montagem feita por Rafael Silva/Drops)

Toda vez que eu penso na Microsoft eu acabo pensando também no Lex Luthor. Sim, aquele dos quadrinhos, o bilionário que odeia o Super-Homem.

Quando eu era criança, eu nunca entendia direito o porquê ele era um vilão tão competente. Afinal, era apenas um homem comum contra um Super-Homem.

Mas depois a gente aprende: o que torna ele tão poderoso é que fazer qualquer coisa real contra ele não vai agradar os acionistas. E se tem algo que qualquer governo (liberal ou conservador) do mundo evita a todo custo é desagradar os acionistas.

Você provavelmente conhece essas pessoas por outro nome: mercado. O tempo todo elas aparecem no jornal: não pode aumentar salário porque o mercado não gosta; não pode diminuir a escala de trabalho porque vai quebrar o mercado. Baixar o preço da gasolina? Mercado não deixa. Criar reserva de mercado para alimentos? Nem pensa nisso senão o Mercado fica triste.

Mercado. Acionista. Bilionário louco que sabe que pode fazer absolutamente tudo o que quiser que não vai ter ninguém que vai obrigá-lo a sofrer as consequências dos seus atos. Essa descrição encaixa certinho pro Lex Luthor. Ela também encaixa certinho para o “Deus Mercado”.

E, claro, ela também encaixa certinho para a Microsoft.

Assim como Luthor, o discurso da Microsoft como empresa é sempre “correto”. “A gente quer tornar o mundo melhor com nossa tecnologia” é algo que é dito em praticamente qualquer release pra imprensa e em qualquer entrevista de qualquer diretor da empresa. Às vezes com essas palavras exatas, às vezes com outras palavras, mas o conceito está sempre ali.

Só que, assim como com o vilão do Super-Homem, esse discurso nem sempre condiz com as decisões e atitudes tomadas. Enquanto Luthor quer “proteger o mundo” criando armas que emitem a radiação de um planetade outra galáxia sem se preocupar com o efeito que esta radiação pode ter nos humanos, a Microsoft quer “mudar o mundo” enquanto usa uma de suas tecnologias mais avançadas para contribuir com o genocídio de um povo perseguido.

As semelhanças existem porque o motivo por trás de ambos é meio que o mesmo: a de que os fins justificam os meios. Só que, enquanto para Luthor, o fim é livrar o mundo do alienígena superpoderoso, ético e moral que é tudo aquilo que ele, com todo o seu dinheiro infinito, nunca conseguirá ser, o objetivo da Microsoft é muito mais banal: garantir o maior lucro possível para acionistas.

E, como já alertou Hannah Arendt, é nessa banalidade que se esconde alguns dos maiores males. E quando a gente se debruça sobre as decisões mais recentes da Microsoft, talvez “maldade” é a única definição que podemos ter para muitas delas.

Por exemplo, eu não consigo chamar de qualquer outra coisa a decisão da empresa de continuar apoiando o exército de Israel no genocídio em curso na Palestina. Assim como eu também não consigo definir como nada além de “maldade” o fato de funcionários da empresa terem afirmado que seus gestores perseguem, assediam moralmente e demitem sem justa causa as pessoas que se opõe a isso. E a imagem da empresa fica ainda pior quando lembramos que ela possui uma declaração de direitos humanos onde afirma com todas as letras que não faria nenhuma dessas coisas (usar sua tecnologia proprietária para colaborar com um genocídio e perseguir funcionários descontentes).

Também não consigo identificar como nada além de “maldade” o fato de o CEO de uma das divisões da empresa dizer que eles nunca estiveram em uma posição tão boa no mesmo e-mail em que avisa que centenas (talvez até milhares) de pessoas da divisão seriam demitidas.

Sim, foi essa maldade que rolou em um e-mail enviado por Phil Spencer durante as demissões em massa da empresa na última quarta (02). No e-mail, Phil literalmente falou que a divisão Xbox nunca teve números tão bons no número de jogadores, quantidade de horas jogadas e no lucro obtido. Mas que, mesmo assim, uma caralhada de pessoas seria demitida porque era “esse tipo de decisão difícil que levou eles ao sucesso”.

Esse tipo de mensagem é a mais pura maldade em todos os aspectos. Se você é um dos demitidos, do que você vai se orgulhar se mesmo resultados incríveis não te mantém no emprego? E se você é uma das pessoas que ficou, por que continuar se esforçando se mesmo resultados incríveis não garantem que você ainda terá um emprego?

E o que dizer do produtor executivo que a única assistência que oferece a milhares de pessoas que perdeu o emprego é alguns prompts de IA? Sim, não é zoeira. Foi isso que fez Matt Turnbull, produtor executivo da Xbox Game Studios. O cara foi no Linkedin sugerir para seus ex-empregados que acabaram sendo demitidos entrar num ChatGPT da vida e escrever alguns prompts que pudessem ajudá-los a “lidar com a carga emocional e cognitiva de uma demissão”.

Eu queria estar zoando, mas não estou: um dos prompts sugeridos era “Eu estou sofrendo com a síndrome do impostor depois de ter sido demitido. Você pode me ajudar a rever essa experiência de um jeito que me lembre daquilo que eu sou bom?”

Maldade, pura maldade.

O executivo apagou a postagem do Linkedin horas depois da publicação, mas o print é para sempre (Imagem: captura de tela/Aftermath)

Não vou ser hipócrita e dizer que eu não consigo entender o porquê muitas pessoas ainda não aderiram ao boicote da Microsoft. Afinal, muita gente é obrigada ainda a usar programas como o Teams, o Excel e o Powerpoint em suas profissões. O mesmo sobre o Windows, que mesmo com todos os avanços do Linux ainda é o sistema operacional mais “simples” de usar (ou, pelo menos, o mais simples pra quem já usa Windows desde os anos 2000).

E eu consigo ser compreensivo mais ainda com que joga. Afinal, o Game Pass é hoje o melhor custo x benefício de qualquer serviço de streaming – e falo no geral, não apenas de jogos. Se eu tivesse um console Xbox ou um PC que serve pra algo mais do que rodar emulador de PS2 com lag, eu com certeza também seria um assinante do serviço.

Mas é preciso ser consciente e saber que o Game Pass não é bom, ele está bom. Em algum momento ele também vai se tornar pior e mais caro. Igual já aconteceu com serviços como Uber, iFood, Airbnb, Netflix e tantos outros.

Isso não é uma previsão, é uma inevitabilidade. E não apenas do Game Pass, mas de qualquer serviço de assinatura – foda-se, de qualquer serviço oferecido por uma grande empresa no geral. E é uma inevitabilidade pelo simples motivo de que o principal objetivo de todas essas empresas não é agradar o consumidor, mas agradar os acionistas.

E a única coisa que agrada os acionistas é aumentar as margens de lucro sempre, de maneira constante e exponencial. E pra isso dá-lhe demissões, dá-lhe aumento de preços, dá-lhe “enshitificação” dos serviços.

Você pode chamar isso de “decisões corporativas”. Eu chamo de maldade. Ambos estamos certos.

Porque, do ponto de vista da empresa, isso é apenas a decisão mais lógica a se tomar. Mas, do ponto de vista dos milhares de funcionários demitidos e dos consumidores que precisam pagar mais caro para ter um serviço pior, essas coisas parecem maldade pura.

No mesmo dia que demitiu 9000 funcionários, a Microsoft fez uma promessa de investir mais U$80 bilhões em seus projetos de IA. Então, esse é o plano: trocar pessoas por uma inteligência artificial que (dizem, prometem, acreditam, esperam) que faz a mesma coisa de toda a gente demitida.

Uma decisão corporativa para agradar acionistas.

Maldade pura.

Veja nossa campanha de financiamento coletivo, nosso crowdfunding.

Conheça os canais do Drops de Jogos no YouTube, no Facebook, na Twitch, no TikTok e no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments