O dinheiro que não quer um pedaço do seu jogo. Por Mauricio Alegretti - Drops de Jogos

O dinheiro que não quer um pedaço do seu jogo. Por Mauricio Alegretti

Isso existe?

Do Indústria de Jogos. Vinte desenvolvedores vão receber US$ 100 mil por ano, sem entregar participação, sem ceder direito e sem dever nada a nenhuma publicadora. Não saiu de edital de governo nem de programa de plataforma. Saiu do bolso de duas pessoas.


A Nova Games Foundation e a parte que muda o jogo

O Mark Cerny, arquiteto-chefe do PlayStation 4 e do PlayStation 5, e o Geoff Keighley, que apresenta o The Game Awards, o Summer Game Fest e a Opening Night Live, anunciaram a criação da Nova Games Foundation. Os dois colocaram doações pessoais na casa dos milhões para montar a fundação, que vai selecionar 20 bolsistas por ano e dar no mínimo US$ 100 mil a cada um, chegando a US$ 500 mil nos projetos mais promissores, liberados contra entrega de marcos de desenvolvimento. São US$ 2 milhões por ano só no piso.

O detalhe que faz a diferença está no que a fundação não pede em troca. Ela não fica com participação no estúdio, não fica com direito sobre o jogo e não é braço nem do PlayStation nem do The Game Awards, apesar dos dois nomes por trás. Quem já sentou numa mesa de captação sabe o tamanho disso. O dinheiro que circula para projeto pequeno quase sempre vem acompanhado de percentual de receita, de janela de exclusividade ou de direito de primeira oferta na próxima obra, e a conta de quanto isso custa lá na frente é justamente a que ninguém consegue fazer direito no dia da assinatura.

As inscrições abrem em dezembro e a primeira turma sai em março de 2027. Vale marcar no calendário desde já, e vale mais ainda para quem está no Brasil, porque programa filantrópico internacional costuma ter menos exigência de residência do que fundo com tese comercial. Não sei ainda como vai ser o recorte geográfico, e é a primeira coisa que vou procurar quando o regulamento sair.


A EA colocou IA generativa na boca do narrador

Um comentarista esportivo contou que a EA usou IA generativa para gerar locução em NHL 27, com a empresa demonstrando a tecnologia de voz aplicada à narração dentro do jogo. Jogo esportivo é o lugar mais previsível para isso começar, porque a narração dele é feita de combinação quase infinita de nome, jogada e contexto, e é justamente o trabalho que mais cansa de gravar em estúdio.

O que me interessa aqui é menos a discussão moral e mais a contratual, que é a que vai chegar na mesa de todo mundo antes. Se a voz que está no jogo foi treinada a partir de sessões que um profissional gravou anos atrás, o contrato daquela época provavelmente não dizia nada sobre isso, porque a tecnologia não existia. Quem trabalha com áudio de jogo, e quem contrata áudio de jogo, vai passar os próximos anos escrevendo cláusula sobre uso de material gravado para treinamento, e quanto antes essa conversa entrar no orçamento, menos vai custar. Falei disso de leve na conversa que gravei com o Thiago Adamo e que comentei aqui semana passada, e a semana já trouxe o exemplo concreto.


Zelda fez 40 anos e ganhou o remake que Ocarina of Time não pedia

A Nintendo fez um Direct inteiro para os 40 anos de The Legend of Zelda e anunciou, entre outras coisas, um remake de Ocarina of Time para o Switch 2, com Joy-Cons comemorativos. O trailer de gameplay virou discussão imediata por causa do visual, muito mais realista e detalhado do que o original de 1998.

Aí mora um problema de design que aparece sempre que se refaz um jogo antigo. Ocarina of Time foi construído com pouquíssimos polígonos e uma paleta limitada, e essa limitação virou linguagem. Você sabia onde podia subir, o que era cenário e o que era interativo, porque o jogo tinha pouca informação na tela e usava cada pedacinho dela com intenção. Encher o mesmo espaço de textura, folhagem e detalhe de superfície resolve a expectativa de quem viu o trailer e cria o risco de embaralhar a leitura que fazia aquele mundo funcionar. Quem já trabalhou em remaster conhece o dilema, porque fidelidade ao que o jogo era e fidelidade ao que a memória diz que ele era quase nunca apontam para o mesmo lugar.


Mais da semana

Os cerca de 1.900 trabalhadores da Blizzard representados pela CWA ratificaram hoje o contrato coletivo negociado com a Microsoft. Tem reajuste salarial, semana híbrida de três dias com acomodação para trabalho remoto e para pessoas com deficiência, e quatro semanas extras de rescisão para quem é sindicalizado. Tem também dois pontos que a reportagem aponta como inéditos no setor. Quem for demitido ganha o direito de ser rechamado para vaga aberta na Blizzard em até 14 meses, e a Microsoft fica obrigada a discutir e negociar o uso de IA no ambiente de trabalho. Esse último item conversa direto com a história da EA lá em cima, porque é a distância entre a empresa avisar que vai usar IA e a empresa ter que sentar e negociar como.

O Tim Schafer, da Double Fine, disse numa entrevista que nunca tentou fazer um jogo achando que ele ia dar prejuízo, e defendeu que jogo com identidade forte encontra público suficiente para se pagar quando acha esse público. Vindo de quem passou trinta anos fazendo jogo esquisito e sobrevivendo a isso, é opinião com lastro.

E a Nexus Mods, maior site de mod do mundo, está comprando o SteamDB, a ferramenta que praticamente toda a indústria usa para acompanhar preço, jogador simultâneo e histórico de atualização na Steam. O dono anterior citou a ascensão da IA e esgotamento mental como motivo da venda. Vale prestar atenção, porque metade das análises de mercado que circulam por aí, inclusive as que eu uso aqui, nascem de dado que sai de lá.


No Brasil

O Festival de Jogos do SBGames divulgou os finalistas da 25ª edição, que acontece entre 29 de setembro e 2 de outubro, em Goiânia. É o concurso mais tradicional da produção nacional, com exposição presencial e virtual, e a estrutura de estande não custa nada para quem expõe. Entre os finalistas de Melhor Jogo na categoria profissional está o ARIDA 2: Rise of the Brave, continuação daquele sertão em pixel art que já tinha rendido o Backland’s Awakening. Vinte e cinco edições é mais tempo de estrada do que a maioria das empresas do setor tem no Brasil, e boa parte do que hoje se chama de cena passou por um estande desses em algum ano.

No Amapá, o Coletivo Game Dev Amapaense levou oito jogos para a JogaFeira 2026. Coletivo regional continua sendo a estrutura que segura desenvolvedor fora do eixo, porque divide custo de estande, de viagem e de aprendizado entre gente que sozinha não iria.


Vagas e oportunidades

O quadro de vagas do IDJ está com 25 posições abertas. A Webcore Games publicou uma vaga de Game Engineer totalmente remota, e a 7TEEN segue com Quality Assurance Lead sênior, também remoto. Continua valendo a da Kokku, com Rendering Game Developer remoto e em CLT, que é combinação rara o suficiente para merecer nota.

Além delas, fica o lembrete da Nova Games Foundation lá de cima, com inscrição abrindo em dezembro, e o convite do SBGames, onde o estande sai de graça para quem foi selecionado.


E a dica de jogo brasileiro da semana é…

O Olinda Fighters, do CX Studio Games, chegou à versão definitiva na Steam no fim de agosto. É um brawler de pancadaria para até quatro jogadores inspirado nos bonecos gigantes do carnaval de Olinda, com modo por rounds e modo último sobrevivente, power-up, energético para bater mais forte e suporte a Remote Play. Custa R$ 29,99. Jogo de luta local com identidade cultural tão marcada é coisa que a gente pede há anos e recebe pouco, e esse aqui não tem medo nenhum de ser brasileiro.

Boneco gigante de carnaval coroado vencedor do round em Olinda Fighters, com coqueiros, bandeirinhas e casario ao fundo

Olinda Fighters, do CX Studio Games. Imagem da galeria do jogo no IDJ.

E vai uma dica bônus que chegou em cima da hora, com a edição já fechando. O Critter Rumble, da Gaister Studios com publicação da Farmando XP, abriu wishlist na Steam. É um autobattler roguelite em que você monta um time de monstrinhos, escolhe quais inimigos enfrentar e recruta os que derrota para o próprio time, com melhoria permanente entre as tentativas e chefe subindo de nível. O jogo já aparece com dez idiomas listados, incluindo português do Brasil. Data ainda não tem. Colocar na lista de desejos antes do lançamento é a ajuda mais barata que existe para um jogo pequeno, porque é justamente o número que a Steam olha na hora de decidir quem ganha vitrine no dia da estreia.


Sabia que agora dá pra apoiar o IDJ?

Subimos essa semana a página Apoie o IDJ, e ela vem com um compromisso assumido em público. Apoiar não muda a ordem de nenhuma listagem, não coloca ninguém em destaque na home, não abre nada que esteja fechado e não influencia o que o IDJ publica. Em troca existe uma coisa só, o nome no Hall da Fama e uma medalha na ficha do estúdio ou da pessoa, valendo por 12 meses. Sem plano, sem assinatura, sem cobrança recorrente e sem nível de apoio, porque faixa de valor cria “quem paga mais aparece mais”, que é exatamente a régua que a página promete não cruzar.

O IDJ está no ar desde 2014, é independente, não está à venda e não tem rede de anúncios decidindo o que aparece na página. A conta é coberta hoje por alguns links de afiliado discretos, pelo meu bolso e por quem resolver apoiar.

Qualquer valor é bem-vindo, de verdade. Não coloquei piso nem teto na página, de propósito, porque quero que cada um apoie com o quanto quiser e com o quanto der, sem que ninguém ache que precisa mandar um valor mínimo para valer alguma coisa. Cinco reais e quinhentos reais entram do mesmo jeito no Hall da Fama. Sinceramente, fico honrado só de alguém cogitar tirar dinheiro do próprio bolso para bancar um projeto que eu toco há mais de dez anos por teimosia. A quem já apoiou e a quem estiver pensando em apoiar, meu obrigado de verdade.

E se você mora fora do Brasil, por enquanto o Pix não te alcança, mas segura aí. Nas próximas semanas vamos habilitar também alguma forma de apoio internacional.


Passei a semana pensando em quanto do dinheiro que chega até um jogo pequeno vem com fio amarrado, e em como é raro alguém oferecer sem querer levar um pedaço. Se você já recusou dinheiro por causa da cláusula que vinha junto, comenta aí embaixo como foi essa conta, tenho interesse real nessa conversa. E se conhece alguém que devia estar acompanhando isso aqui, me ajuda passando a newsletter adiante.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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