Enquanto nosso editor Pedro Zambarda fazia um ótimo trabalho na cobertura da Gamescom Latam no feriado de primeiro de maio, eu acordava com uma notícia que ia destruir o meu final de semana: o fim da Polygon.
Na quinta-feira passada, em pleno feriado de Dia do Trabalho, foi anunciado que a Vox Media tinha vendido todo o site da Polygon para a Valnet. Como resultado direto dessa venda, estima-se que 25 dos 40 funcionários que o site tinha foram demitidos – incluindo Chris Plante, um dos fundadores do site.
Para o leitor mais desavisado, essa operação parece o tipo de coisa que acontece o tempo todo. Afinal, sites são vendidos de um grupo para outro, de uma firma de investimentos para outra, o tempo todo. Mas quem sabe quem é a Valnet sabe que essa venda na prática significa o fim da Polygon.
Sim, o site vai continuar existindo e provavelmente postando conteúdos novos todos os dias. Mas ele não será mais o site pelo qual eu me apaixonei desde quando o conheci em meados de 2013 – esse site morreu no dia 01 de maio de 2025. E tudo indica que a Polygon do futuro será mais uma de tantas publicações que enchem a internet do mesmo tipo de conteúdo raso e voltado para algoritmos.

Chris Grant, um dos fundadores da Polygon, escreveu sobre o fim do site em seu perfil no BlueSky (Imagem: reprodução/BlueSky)
Polygon não é uma marca, mas quem faz parte dela
A venda da Polygon é uma repetição da mesma história que já vimos mais de uma vez no mercado de jornalismo para a internet (Deadspin, Trivela, Kotaku e diversas outras mandam um oi). E, também é uma repetição do mesmo erro que acontece sempre.
E o erro é justamente a visão distorcida de quem investe para a compra desses sites: a de que não é a a qualidade dos conteúdos que os usuários buscam, mas a “marca”. Um conceito de que o leitor não busca qualidade de informação, mas uma suposta “grife” de onde essa informação deve ser consumida. Ou seja, o tipo de ideia que só pode partir de quem não consome nenhum produto jornalístico.
É sempre a mesma coisa: os sites se destacam com uma linha editorial diferente, que chamam a atenção de um público que se torna cativo. Esse público garante que o site tenha não apenas uma audiência fixa, mas cria-se uma comunidade onde pessoas que fazem parte do site e fãs trabalham juntos para aumentar a audiência de forma orgânica.
Aí a galera do “mercado” vê os números, pensa “hm, eu acho que consigo usar isso aqui pra fazer dinheiro” e compra o site. E qual a primeira coisa que eles fazem? Demitem boa parte das pessoas que fazem o site ser o que é, e mudam a linha editorial para algo mais “seguro”. Isso torna ele mais pasteurizado e igual a tudo o que já existe aos montes na internet, e acaba sempre tornando o site menos relevante e acessado do que era antes da compra.
E a gente vê esse erro repetido na Polygon: como que um site vai conseguir se manter o mesmo quando mais da metade do núcleo que torna ele o que é foi demitido logo de cara? Apesar do site continuar no ar e publicando, a sensação da comunidade que se formou em torno dele é uma só: ele morreu.
Não a marca em si – a marca Polygon deve continuar existindo ainda durante alguns anos. Mas já não há mais nenhuma chance do site continuar sendo o mesmo depois da aquisição pela Valnet. Porque um veículo de mídia não é o nome e logomarca dele, mas as pessoas que o compõem.

Percebe-se que, nos últimos dias, a quantidade de novas publicações diminuiu no site da Polygon. E, até o momento da publicação, não há nada no site sobre a compra pela Valnet e a demissão de boa parte dos funcionários (Imagem: reprodução/Polygon)
Valnet = morte do jornalismo
Mas não existe nenhuma chance de a Polygon manter a sua linha editorial e se reconstituir com novas pessoas que vão manter a mesma qualidade? Não, e não é porque não existem pessoas que poderiam entrar ali e manter a qualidade dos conteúdos, mas porque quem comprou o site foi a Valnet.
Para quem não conhece, a Valnet é uma empresa de mídia dona de marcas como ScreenRant, Collider e The Gamer. O nome dela apareceu em destaque em março deste ano por uma reportagem do The Wrap, onde diversos ex-funcionários afirmavam que a empresa se tratava de uma verdadeira fazenda de conteúdos que abusavam dos algoritmos. Nesta reportagem, um ex-funcionário da Collider afirmava que a Valnet era um dos piores lugares que ele já trabalhou e publicou alguns dos piores exemplos de jornalismo que ele já viu.
Os relatos são aqueles que quem trabalha com comunicação conhece muito bem: a Valnet é conhecida por demitir jornalistas e contratar “colaboradores de redação” – o que é um nome bonito para alguém que vai receber bem abaixo da média de mercado, e que não necessariamente possuem as habilidades e conhecimento necessários para fazer jornalismo.
O resultado disso são conteúdos que seguem um de três padrões: 1)reprodução de histórias que circulam nas redes sociais, publicadas sem qualquer apuração ou contexto crítico; 2) republicação das mesmas histórias que todos os outros sites estão comentando, sem adicionar nenhuma informação ou contexto novo; 3) conteúdos vazios feitos para enganar os algoritmos de SEO e fazer o site “pontuar” bem nas buscas.
Pense nesse terceiro tipo de conteúdo como quando você procura informações sobre a próxima temporada de uma série. Aí você acha um site que tem a manchete “tudo o que sabemos sobre a nova temporada da série X”. Clica e se depara com um monte de informação que não era o que procurava – sobre o que é a série, quem produziu ela, de que ano ela é, em qual canal/streaming ela passa, quantos episódios tem a primeira temporada, etc. E depois de você rolar uma página cheia de informações que não eram o que você procurava, você finalmente chega ao final e se depara com a frase “até o momento, não há nenhuma informação sobre a segunda temporada da série”. É esse tipo de conteúdo que eu falo.
E a coisa mais absurda de tudo: o contexto de como essa venda aconteceu. A venda da Polygon acontece num momento em que os trabalhadores da Vox Media – que são sindicalizados – negociam um novo contrato. E segundo algumas pessoas que fazem parte dessas negociações, o que está travando a assinatura é justamente a exigência de proteções para que esses trabalhadores não sejam vítimas de demissões em massa em caso de mudanças na administração dos negócios onde eles estão alocados.
Em um comunicado publicado no BlueSky, a Vox Media Union (o sindicato dos trabalhadores da Vox) afirma que tão absurdo quanto esta ser a quinta demissão em massa na Vox em um período de seis meses, é a decisão de vender um site de games reconhecido pelo seu jornalismo de alta qualidade para um grupo conhecido por desvalorizar o rigor jornalísticos e explorar trabalhadores. O comunicado ainda aponta a venda como uma verdadeira falta de respeito pela reputação que a Polygon criou no cenário da mídia de videogames, pelos trabalhadores que ajudaram o site a conseguir essa reputação, e pela comunidade de fãs que se criou em torno do site.
O que perdemos com o fim da Polygon
Pessoalmente, a Polygon sempre foi o meu site preferido de games desde que a conheci em meados de 2013. Na época eu fazia parte de um grupo de amigos que estava criando o próprio site de games (o extinto Player 2), e o que eu tinha na minha cabeça era que eu não queria fazer nada igual a IGN.
Nada contra a IGN em si como site, mas eu nunca fui muito chegado ao modelo editorial deles. E eu achava que era possível fazer um site de jogos onde tudo não soasse como o Tiago Leifert – aquele tipo de comunicação que parece descolada e jovem, mas que quando você vai prestar atenção é totalmente discurso corporativo.
E foi então que eu conheci a Polygon, e desde essa época ele sempre foi o meu modelo de jornalismo.
Um jornalismo sério não no formato, mas no trabalho de apuração. Que usa memes não apenas para participar de trends, mas porque conversam com a comunidade que eles querem se comunicar. Que usa um tom despojado não para parecer “jovem”, mas porque as pessoas que produzem os conteúdos realmente se comunicam daquele jeito na vida delas.
A Polygon não era apenas um modelo de jornalismo, mas um modelo de como o jornalismo pode usar as “armas” da internet a seu favor. Em um momento em que a maioria dos sites ainda usava o conceito de reproduzir no virtual o design das mídias impressas, a Polygon publicou uma review do PlayStation 4 que até hoje pode ser usada como um ótimo exemplo para aulas de webdesign. Poucos sites souberam como misturar tão bem elementos online, design gráfico e conteúdo quanto as matérias especiais dela.
Quando todos os sites começaram a apostar nos vídeos (muito porque todas as redes sociais deram uma guinada para dar preferência a conteúdos de vídeos), a Polygon continuou apostando no diferente. O auge talvez tenha sido os programas Unraveled, no qual Brian David Gilbert tratava temas dos videogames e da comunidade em torno dos jogos com um humor absurdo muito característico e único entre todos os grandes canais de games. Mesmo após a saída de BDG, esta se tornou a linguagem padrão dos vídeos do site: uma mistura única de informação com um humor quase valdevilliano.
Mais recentemente, o site continuou dando aula na sua área de guias e detonados. Os guias da Polygon são os melhores que você vai achar na internet, e por um motivo claro: eles seguem uma linha editorial de ser escrito para pessoas. Eles não são um puro exercício mecânico de manual de receitas, de lista de tarefas. Eles conversam com o leitor, indicam quais as dificuldades que você pode passar para tentar efetuar determinadas tarefas, reclamam de quando algo é dificultado por uma UX de menu mal elaborada, ou um movimento de câmera que te atrapalha a enxergar certos pontos. Era nítido que tudo era criado por alguém que realmente jogou o jogo, enfrentou as mesmas dificuldades que você está enfrentando, e que sabe o tipo de ajuda que você precisa ali naquele momento.
E é um enorme baque emocional pra mim ver tudo isso morrendo. E morrendo não porque não dava lucro – porque dava. A operação do site era lucrativa segundo as próprias pessoas que foram demitidas. Essas pessoas também afirmam que inúmeras vezes os guias do site eram as páginas mais acessadas de todo o ecossistema da Vox Media.
A Polygon não morreu porque não dá lucro. Ela foi morta pela ganância de pessoas que não entendem absolutamente nada como o mercado de mídia funciona, e vê nele apenas um trampolim para um retorno rápido do investimento.
Eu tenho certeza que o Chris Plante e todos os outros que saíram vão criar novos sites que manterão a mesma qualidade que eu amava na Polygon. Foi assim com as demissões na Deadspin que resultaram no Defector; foi assim com as demissões na Kotaku que resultou no surgimento do Aftermath.
Mas o fim da Polygon passa uma mensagem clara: a de que não importa se o seu veículo de mídia dá lucros ou não, para ser um grande você precisa ser basicamente uma grande agência de relações públicas. A cada nova onda de demissões na imprensa a mesma mensagem é sempre reforçada: a de que só há espaço para o jornalismo se o controle total de um veículo estiver nas mãos dos jornalistas.
Ainda que o fim da Polygon não seja a morte do jornalismo, ela mata um pouco mais o ânimo desse jornalista que assina este texto.
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.


Quer choradeira.