O reset mais caro da história do Xbox. Por Mauricio Alegretti - Drops de Jogos

O reset mais caro da história do Xbox. Por Mauricio Alegretti

Mudando o jogo

Do Indústria de Jogos. Salve salve, desenvolvedores de jogos!

Antes de qualquer coisa, uma mudança que quero anunciar diretamente a vocês: a partir de hoje, a Semana da Indústria de Jogos passa a ser publicada às quartas-feiras, no início da tarde. Antes saía todo sábado. A decisão veio de uma pesquisa no LinkedIn e também conversei diretamente com alguns de vocês, e o que ficou claro é que a quarta-feira, no início da tarde, é um horário que aumenta o alcance da newsletter e torna ela mais útil para a rotina de trabalho de quem lê. Faz sentido: sábado, a maioria das pessoas está desconectada do trabalho, e um conteúdo pensado para desenvolvedores e pessoas da indústria tem mais chance de aterrissar bem no meio da semana. Então essa é a nova dinâmica. Qualquer feedback de vocês sobre isso é bem-vindo, tanto aqui nos comentários quanto em resposta direta à newsletter.

Quando tomei essa decisão, pensei que ia ser difícil ter assunto para esta primeira edição de quarta, tão próxima da edição do último sábado. Estava enganado. A notícia que saiu no domingo e se desenvolveu ao longo dessa semana tornou qualquer hesitação desnecessária.


O Xbox que a Microsoft construiu não era sustentável

No domingo, a Microsoft confirmou a maior reestruturação da história do Xbox. 3.200 demissões no total: 1.600 imediatas, as outras 1.600 ao longo do ano fiscal. Quatro estúdios saem do ecossistema Xbox Game Studios: a Compulsion Games e a Double Fine retornam à independência, levando consigo a propriedade intelectual de South of Midnight e Psychonauts respectivamente. A Ninja Theory e a Undead Labs foram vendidas para novos donos, com financiamento para completar Senua’s Saga: Hellblade II e State of Decay 3. A Arkane Lyon está em um processo de consulta cujo resultado ainda não está definido, mas a perspectiva não é animadora.

Além das saídas dos estúdios, os números internos são sérios. Na id Software, criadora de Doom: The Dark Ages, fontes apontam que cerca de metade da equipe foi desligada. São mais de 90 pessoas, segundo um dos relatos. O departamento de QA do estúdio foi particularmente atingido. A Obsidian também perdeu cerca de 25% da sua equipe. E a IO Interactive, por consequência indireta, anunciou o fechamento do seu estúdio em Istambul: o Xbox retirou o financiamento do Project Fantasy, um projeto que havia sido anunciado em 2023, e o estúdio turco não sobreviveu à decisão.

Isso é a quinta rodada de demissões em massa anunciada pela Microsoft desde a aquisição da Activision Blizzard em 2023, por quase 70 bilhões de dólares. Cinco rodadas. Em menos de três anos.

A CEO do Xbox, Asha Sharma, mandou uma mensagem aos funcionários que foi publicada no Xbox Wire, e os números que ela apresenta são desconcertantes na sua franqueza. A margem operacional do Xbox está entre três e dez vezes abaixo de negócios comparáveis. Em média, a divisão perdeu 64 centavos para cada dólar investido nos estúdios. As plataformas cresceram 40% em tamanho durante esta geração enquanto a base de jogadores e o tempo de jogo caíram. Em algumas partes da empresa, o trabalho passava por até 14 camadas de gestão.

Sharma também apontou para um contexto externo relevante: a crise de componentes de hardware, especialmente memória, inflacionada pelo investimento massivo em data centers de IA. É uma ironia que ela não chegou a nomear: a Microsoft é uma das empresas que mais está investindo em infraestrutura de IA, o que contribui diretamente para encarecer os componentes que tornam o console Xbox mais caro de fabricar. A mão esquerda prejudicando a mão direita.

Mas o contexto externo explica parte, não tudo. A estratégia do Xbox dos últimos anos foi uma aposta ampla: adquirir estúdios, subsidiar o Game Pass, expandir para múltiplas plataformas. Cada uma dessas apostas, individualmente, tinha lógica. O problema é que nenhuma delas gerou os retornos esperados na velocidade necessária. Sharma admitiu isso diretamente: o Xbox se expandiu demais enquanto a indústria como um todo cresceu em volume de concorrência de uma forma que tornou impossível competir em todas as frentes. “Não é possível, nem desejável, possuir cada grande estúdio independente”, ela escreveu. Verdade. Mas foram eles que compraram esses estúdios. Não foi um acidente, foi uma estratégia que não funcionou.

O que mais preocupa nessa narrativa toda, claro, é o que acontece agora com os desenvolvedores que ficaram. A Bethesda foi reestruturada em torno das suas franquias principais: Fallout, The Elder Scrolls, Wolfenstein, Doom, Quake. Quem estava trabalhando em algo fora dessas cinco ficou vulnerável. A lógica de concentrar recursos nas marcas mais fortes faz sentido do ponto de vista financeiro. Do ponto de vista criativo e humano, é um sinal de que o espaço para experimentação dentro da estrutura da Microsoft encolheu de forma drástica.

Quero deixar registrado aqui, de forma direta: tenho amigos que construíram carreiras dentro do ecossistema Xbox ao longo de anos, pessoas com quem trabalhei e convivi nessa indústria. Para todos eles que foram afetados por esse processo, meu suporte e minha solidariedade. Demissão em massa nunca é apenas um número: são pessoas, famílias, projetos que nunca vão existir, e uma ruptura que leva tempo para se recuperar. Boa sorte para quem está navegando isso agora.


Supercell abre programa de grants para estúdios africanos

Uma notícia diferente, mas relevante para quem pensa em como o ecossistema global de desenvolvimento se expande: a Supercell anunciou um programa de grants para estúdios de jogos em países africanos. A finlandesa, conhecida por Clash of Clans e Brawl Stars, está abrindo financiamento para estúdios na região. O movimento dialoga com uma tendência de publishers e desenvolvedores buscando talento e perspectivas fora dos mercados tradicionais da América do Norte, Europa e Japão. Para quem acompanha desenvolvimento indie fora dos centros, vale observar como esse tipo de iniciativa evolui.


No Brasil

Duas notícias que merecem atenção esta semana. A primeira: foi inaugurado um polo de games no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, com a presença da deputada federal Jandira Feghali e de Márcio Filho. É um movimento concreto de inclusão de jovens de periferias no desenvolvimento de jogos, e a amplitude política da inauguração diz algo sobre como o setor de games está sendo percebido como vetor de desenvolvimento social e econômico no Brasil.

A segunda: as inscrições para o Programa Petrobras Cultural estão abertas com R$ 270 milhões disponíveis para games, cultura digital e audiovisual, com prazo até 31 de julho. É um dos maiores aportes públicos para o setor que já vi por aqui. Se você está desenvolvendo algo, vale verificar os critérios antes de deixar o prazo passar.


Se essa mudança para as quartas funciona para a sua semana, me conta nos comentários. E se a situação do Xbox, ou qualquer outra pauta de hoje, conectou com algo que você está vivendo no seu próprio trabalho, a caixa de entrada e os comentários estão abertos. Compartilha com quem você acha que deveria estar lendo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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