Nesta quinta (3) tivemos mais um State of Play com novidades sobre os jogos que chegam para o PlayStation. Mas sabe o que não é nenhuma novidade para qualquer pessoa que já possui um PlayStation? Que a Sony te tira pra otário. E sim, isso sempre foi algo implícito na relação da empresa com seus consumidores. Só que agora está ficando cada vez mais explícito.
E não estou falando nem da decisão de anunciar o fim dos jogos de mídia física para o PlayStation 5 ao mesmo tempo que fechava as lojas digitais do PS3 e do PS Vita – um movimento que deixou claro que a empresa está trabalhando para ter um monopólio cada vez maior de onde você adquire seus jogos e que é ela, e não você, que vai decidir quando você será obrigado a comprar um console novo porque será impossível continuar adquirindo jogos em um modelo antigo.
Não, isso aí já são águas passadas. Ignorando este fato, só esta semana já aconteceram duas coisas que faz qualquer dono de PlayStation se sentir um otário – e eu posso falar com propriedade, pois sou dono de um console desses.
A primeira delas é a Sony ter aceitado pagar US$8 milhões num acordo para “derrubar” uma ação que estava sendo movida contra ela sobre monopólio de vendas e preços inflados na PSN. Este é o valor total do acordo – após o pagamento dos honorários advocatícios e despesas processuais, é possível que sobre um valor entre US$5 milhões e US$7 milhões que a empresa deve pagar para os usuários que se sentiram lesados.
E é aí que está a pegadinha: primeiro, este valor que sobrou (lógico) não será pago para cada usuário, mas dividido igualmente entre todos os clientes da PSN que se interessarem por fazer parte dele. Segundo, os termos do acordo deixam claro que a Sony não assume a culpa – ou seja, ela não assume que cobra valores inflados de seus consumidores porque eles não possuem outras opções de lojas digitais além da PSN para comprar jogos nos consoles PlayStation – mas que escolheu pagar este valor para não “perder tempo” de levar isso (que ela considera uma não-questão) aos tribunais. Terceiro: qualquer pessoa que escolher fazer parte do processo e receber uma parte desta quantia, ao fazer isso, está abdicando do direito de processar a Sony no futuro pelas questões envolvidas na ação que gerou este acordo (ou seja, quem escolher pegar esse dinheiro não vai poder nunca mais processar a Sony por monopólio de vendas digitais ou preços inflados). E por último: este valor não vai ser pago em dinheiro real para os clientes que escolherem recebê-lo, mas em créditos na PSN.
Ou seja: é um acordo que, na prática, a única coisa que a empresa perde são os pagamentos de honorários e despesas processuais. Porque ela não apenas ganha um proteção jurídica para evitar processos futuros enquanto vai dando passos para que seu monopólio de vendas digitais se transforme em um monopólio de vendas total (que, mesmo que algum dia seja considerada inválida, a invalidação em si será uma briga judicial por si só), como ainda basicamente não irá gastar nada. Afinal, mesmo que consideremos esse montante de entre US$5 milhões e US$7 milhões que será distribuído para os clientes da empresa, como o valor é em crédito da PSN ele pode na prática ser equivalente a zero ou até gerar lucro pra empresa. Afinal, esse crédito só poderá ser gasto na compra de jogos dentro da PSN, o que vai invariavelmente aumentar a quantidade de jogos vendidos na loja digital, e estes números podem ser usados não apenas para justificar ainda mais a decisão de acabar com os jogos de mídia física (“olha só como as pessoas estão comprando ainda mais dentro da PSN após o anúncio”) como também para inflar o valor das ações da empresa com base neste “dado” que mostraria que a estratégia de mudança para o digital foi correta. E há o potencial para que um aumento das ações baseado na adoção correta de uma estratégia de digitalização das vendas seja bem maior do que o valor “pago” para os usuários como parte do acordo.
Resumindo: quem é dono de um PlayStation e aderir a este acordo não só corre o risco de receber uma mixaria (como o montante é travado e depende da quantidade de pessoas que aderem, há uma possibilidade de cada pessoa receber apenas coisa de US$10 ou US$20 em créditos), como ainda – ao gastar este crédito para comprar jogos, DLCs e outras coisas dentro da PSN – estará ajudando a Sony a defender para seus acionistas que a estratégia de acabar com os jogos físicos é correta, e ainda abdicando do direito de processar a Sony em caso de, quando conseguir o monopólio total da venda de jogos, ela resolva que o preço de qualquer jogo na PSN será maior do que em qualquer outra loja digital.
Mas ao menos isso é chamar a gente de trouxa com inteligência; você precisa realmente fazer diversas relações lógicas para entender porque esta sendo tirado de otário. Num primeiro momento isto parece até algo positivo (“coloque seu nome aqui e ganhe créditos grátis na PSN!”), e você só perceber que é cilada a hora que começa a pensar bastante sobre o que isso significa e as consequências futuras. E eu gostaria de dizer que essa semana eu fui chamado de trouxa pela Sony apenas de forma inteligente; infelizmente, seria mentira.
E, claro, eu fui chamado de otário em uma outra ação que a Sony está tentando evitar que chegue aos tribunais. Em junho deste ano, a empresa foi processada nas cortes da Califórnia (EUA), de novo, por conta da PSN. De acordo com o processo, a parte lesada alega que a Sony não deixa claro que qualquer jogo adquirido na PSN não é a compra de um jogo, mas de uma licença de “aluguel indefinido” em que a empresa pode decidir a qualquer momento quando você não terá mais acesso a determinado jogo, e que não deixar isso muito claro antes de efetuar a compra fere a versão da Califórnia do nosso Código de Defesa do Consumidor.
Para tentar tornar o processo nulo antes de chegar aos tribunais, a Sony alega que “qualquer consumidor razoável” sabe que, ao comprar um produto na PSN, ele não está comprando um produto em si, mas adquirindo uma licença. E que qualquer “consumidor razoável” entenderia que não é plausível ele estar efetuando uma compra, porque não seria possível uma pessoa comprar, por exemplo, Resident Evil Requiem na PSN no dia 25 de março se outra pessoa já tivesse adquirido o jogo no dia 14 de fevereiro, pois se a PSN realmente vendesse o jogo, o jogo seria do comprador do dia 14 de fevereiro e não mais da Sony.
E isso, meus amigos, é ser chamado de otário na cara dura. Porque, para os advogados da Sony, o “consumidor razoável” da PSN é tão otário (ou burro) que acredita que um arquivo digital só pode existir de forma única e não é possível criar cópias dele. E, pior que isso: que, ao comprar um jogo de forma digital, nós esperaríamos ser donos não de uma cópia do jogo, mas do arquivo original e único deste jogo.
E isso é chamar a gente de otário não porque já existem lojas tipo a GoG que te oferece uma cópia digital de um arquivo e fala pra você “é sua, faz o que quiser com ela”; não porque ninguém nunca na história da humanidade achou que, ao comprar um joguinho na loja do bairro, você estava comprando o único na existência e mais ninguém poderia adquirir outra cópia dele; e nem porque não faz nem cinco anos que a gente se juntou como comunidade online pra tirar sarro de um monte de playboy que tava tentando inventar esse conceito de “arquivo digital único” com aquela história de NFT.
Isso é chamar a gente de otário ao falar que essa é a expectativa de um “consumidor razoável”. Porque, para defender a Sony de um “talvez” processo, os advogados dela basicamente pintaram os consumidores PlayStation como um bando de neandertal que nunca viu um computador na vida. Logicamente que, quando eu compro um jogo na PlayStation, eu não espero estar comprando a única cópia de algo que existe; mas eu gostaria de fazer uma “compra” real, com posse daquilo. Até quando eu comprei uma chave do Windows 10 pro meu PC aquela chave é minha, e eu posso usar ela quantas vezes quiser – desde que ela sempre esteja instalada em apenas um PC.
O que não é “razoável” é esperar que eu seja uma pessoa que não acha que compra digitais são compras de verdade, apenas aluguéis, e que todo o controle sobre o uso de algo que eu supostamente adquiri fique sob o controle de uma empresa, que pode a qualquer momento simplesmente decidir que eu não tenho mais acesso a algo que eu paguei dinheiro pra comprar e não me deve nenhuma compensação por isso – como aconteceu recentemente com um monte de gente que comprou filmes pela PSN.
Não, não é razoável esperar que uma compra digital seja a de um arquivo único e não de uma cópia. Mas também não é razoável achar que não é possível ter qualquer posse sobre algo apenas porque este é um produto digital. E esta é a briga que a gente deveria comprar neste momento: a de que a compra é uma compra, não o aluguel de uma licença que pode ser revogada a qualquer momento.
Claro, em nenhum momento ninguém da Sony PlayStation chegou na minha cara e falou “Rafael, você é um otário”. Ela não fez isso comigo e nem com ninguém. Mas eu acredito que ações muitas vezes contam mais do que palavras. E, ainda que a empresa fique o tempo todo falando que eu sou um cliente querido e que elas só querem me oferecer o melhor serviço, as ações que ela toma há muito tempo são como um relacionamento abusivo, de alguém me dando tapa na cara e me chamando de otário porque eu sei que nunca vou conseguir coisa melhor. E, como acontece em relacionamentos abusivos, é possível que muita gente vai acreditar nisso. Mas se um número significativo de pessoas perceber que está neste tipo de relacionamento e resolver cortar relações, quem vai ficar pior é sempre o abusador. E aí não adianta vir correndo atrás com buquê de flores, carro de telemensagem e gritando que “eu mudei” porque já vai ser tarde.
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