No Mercy: então jogos de estupro não violam as regras da Steam? - Drops de Jogos

No Mercy: então jogos de estupro não violam as regras da Steam?

Aviso: este texto pode possuir gatilhos de abuso sexual e incesto

(Imagem: divulgação/Zerat Games)

Mais uma vez as políticas de segurança da Steam foram colocadas à prova – e consideradas praticamente inexistentes.

O motivo é a plataforma ter liberado a venda do jogo No Mercy, um game pornográfico de violência contra mulheres.

O problema do jogo não é a pornografia em si, mas o contexto onde ela existe. Porque este não é apenas um jogo com cenas de sexo explícito, mas que coloca o estupro como principal objetivo.

O jogo é uma “visual novel 3D” onde você controla um homem que resolve se “vingar” da infidelidade da mãe estuprando todas as mulheres da família – incluindo a própria mãe. O jogo tem como slogan “seja o pior pesadelo de qualquer mulher”, e a descrição dele na plataforma falava sobre “não aceitar um não como resposta”.

De acordo com algumas reviews, o jogo consiste em enganar e convencer as mulheres da sua família a fazer sexo com você – e a forçá-las a isso mesmo sem consentimento. Como bem explica alguém que teve contato com o jogo, ele não é apenas um game com conteúdo pornográfico, mas um jogo que é todo baseado no abuso mental e físico das personagens.

No Mercy é uma visual novel em que você pode fazer igual os cachorros e comer sua mãe, sua irmã e suas tias (Imagem: divulgação/Zerat Games)

Após o jogo ser banido na Austrália, Canadá e no Reino Unido – e condenado por diversas organizações de proteção à mulher – a desenvolvedora Zerat Games resolveu remover No Mercy da plataforma – mas não sem antes cagar pelos dedos.

Em uma mensagem para a comunidade publicada nesta quinta (10), os criadores falam que No Mercy é “apenas um jogo” e que os críticos “deveriam ser mais abertos a fetiches que não ferem ninguém, mesmo aqueles que a maioria das pessoas podem considerar doentios.”

A mensagem também deixa claro que o jogo foi removido apenas da loja, e não da Steam. Ou seja, quem já comprou o game continuará tendo acesso irrestrito a ele.

O que está errado no posicionamento da Zerat

Eu li toda a mensagem dos desenvolvedores de No Mercy e, na minha cabeça, fica muito claro que aquilo ali foi escrito por um homem (OK, talvez uma mulher, mas 99% de chances de ser um homem) que ignora completamente a existência da cultura do estupro e de como o jogo é uma parte ativa dessa cultura.

E não falo isso pra julgar o fetiche de ninguém. Eu sou totalmente a favor das pessoas terem o fetiche que elas quiserem, incluindo o de incesto ou de estupro – desde que ele seja praticado apenas dentro do ambiente do fetiche. Porque existe algo muito diferente em uma transa fetichizada e aquilo que é apresentado no jogo: o consenso.

Não tem nenhum problema se você quer que seu companheire coloque uma peruca e se vista igual à sua mãe na hora da transa se essa pessoa concordar com isso. E também não tem nenhum problema se você quer amarrar ela na cama, amordaçar e fingir que aquilo é um estupro se, novamente, a pessoa concordar com isso.

E é justamente isso que separa um fetiche de estupro de um real: o consentimento. Ambas as pessoas participando sabem que aquilo não é real, consentiram com a brincadeira e definiram limites que não podem ser ultrapassados. E se tudo isso for seguido por ambos os participantes, é sim um fetiche que essas pessoas têm todo o direito de extravasar no ato sexual.

(Imagem: divulgação/No Mercy)

E isto é justamente algo que parece faltar no jogo da Zerat: o consentimento.

Afinal, ele não é um jogo sobre conversar com um parceiro sexual para que ambos possam chegar num acordo sobre os limites de realizar um fetiche específico. Porque ainda que a descrição do jogo fale que todas as situações são consensuais, não é o que apontam as reviews.

Uma das que melhor explica (e também a com mais votos positivos da comunidade) é a do usuário Drachster, que aponta que, ainda que muitas das situações sejam “consensuais”, este não é um consenso real. O motivo é que este “consenso” é adquirido através de jogos mentais, chantagens e mentiras. Ou seja, é um “consenso” que poderia ser a base para uma acusação de estupro se acontecesse na vida real.

(Imagem: captura de tela)

OK, mas aí você pode me perguntar: “mas e as pessoas que tem fetiche com um estupro real e que apenas a simulação de uma situação de estupro que foi toda combinada não a satisfaz?” Aí meu amigo, isso não é mais só um fetiche: isso é um problema que pode te levar a cometer um crime e ser taxado de “estuprador”.

Porque, olha só, você não precisa ser o Maníaco do Parque pra ser um estuprador: se sua esposa/marido algum dia disse não ao sexo mas você forçou a prática do mesmo jeito por seu “direito como marido/esposa”, você cometeu um estupro. Se você embebedou/drogou alguém e a pessoa só aceitou transar com você porque estava fora de si, você cometeu um estupro. Se você aproveitou que alguém estava dormindo pra começar atos sexuais sem a outra pessoa estar consciente, você pode ter cometido um estupro (e nesse caso apenas pode porque eu sei que existem pessoas que tem fetiche com este tipo de coisa e isso pode ter sido combinado antes pelas partes. Mas se não teve combinação, então não teve consentimento e é um estupro).

Provavelmente você conhece um estuprador, porque é muito difícil a gente não ter ao menos um conhecido que nunca praticou nenhuma dessas coisas. E isso é uma das facetas da cultura do estupro: chamar de estuprador apenas aqueles casos mais extremos de pessoas que forçam o ato sexual com completos desconhecidos e que, muitas vezes, termina em morte. E enquanto faz isso, ela normaliza todas as outras formas mais rotineiras de abuso sexual que existem na vida diária de muitas pessoas que são consideradas “de bem”.

E é essa normalização que a Zerat ajuda a sustentar ao chamar o conteúdo do jogo No Mercy de “apenas um fetiche inofensivo”. Porque, mais uma vez: se não há consenso real, não é fetiche, é crime. E, pelo que sabemos do jogo, tudo indica que não era fetiche o que rolava ali não.

No Mercy e a questão da segurança na Steam

Esta histórica toda com No Mercy serviu para levantar mais uma vez uma velha polêmica envolvendo os critérios (ou a falta deles) de segurança da Steam.

Primeiro que a Steam é, das grandes plataformas, talvez a mais “fácil” de se publicar um jogo porque não exige que o game seja classificado por nenhum dos diversos órgãos mundiais e regionais de classificação de conteúdo.

Em alguns países específicos é preciso preencher um formulário sobre o conteúdo do jogo, mas pelo que encontrei isso é exclusivo do Brasil e da Alemanha (se você for desenvolvedor que publica games na Steam e eu estiver errado, por favor comente aqui para que eu possa atualizar a matéria com a informação correta).

Aí temos também a questão da “barreira de idade”: qualquer conteúdo marcado como para maiores de 18 anos na Steam precisa passar por uma etapa de “verificação” por qualquer um que tente acessar a página do jogo. Mas essa barreira de segurança é literalmente uma tela com três menus para você colocar sua data de aniversário, e sem qualquer outro tipo de checagem.

Isto torna muito fácil que mesmo crianças e adolescentes possam acessar as páginas desses conteúdos. Eu mesmo não sou “sincero” ali naquela checagem: se a Steam rastreia as minhas respostas, então ela acha que eu nasci no dia 01 de janeiro de 1910.

Algumas vezes nem a barreira da escolha da idade existe. No caso de No Mercy, você só precisa ignorar um texto falando sobre o conteúdo do jogo e clicar no botão “Acessar Página” (Imagem: captura de tela)

Mas acho que o pior mesmo é a empresa não conseguir com que suas próprias políticas de publicação sejam cumpridas. Porque, sinceramente, era para No Mercy nem ter sido publicado por ferir as diretrizes de conteúdo da própria Steam.

Como deixa claro os termos para publicação de jogos da plataforma, a Steam proíbe conteúdos que “promovem aversões, violência, ou discriminação contra grupos ou pessoas com base em etnia, religião, gênero, idade, deficiência ou orientação sexual” e “conteúdo claramente ofensivo ou que tem a intenção de chocar ou enojar os espectadores”. E eu tenho a impressão de que um jogo que promove o estupro de parentes – incluindo a própria mãe – pode ser considerado como uma quebra dessas diretrizes.

E a história de No Mercy mostra como há uma certa falha da Steam em todas essas políticas, pois é um jogo que promove a violência sexual que pode ser facilmente acessado por pessoas de qualquer idade.

E o pior: mesmo com toda a polêmica, a Valve (dona da Steam) ainda não se mexeu para pelo menos investigar se ele deve ser removido ou não. Até o momento a empresa escolheu não responder a nenhuma das tentativas da imprensa de contato sobre o game, e parece não achar que é um problema ele estar na plataforma.

O maior sinal disso está na mensagem publicada pela Zerat sobre a remoção do game, dizendo que a Valve foi muito solícita e prestativa com a empresa, deixando claro que a decisão de remover o game da loja foi uma escolha da própria desenvolvedora e não um pedido da Valve. Tanto que o game ainda continua na Steam, ele só não está mais à venda.

Por todo o desenrolar da história, fica claro que o “crime compensa”. Não que a Zerat ou a Steam tenham cometido qualquer crime, longe disso. Mas criar jogos “polêmicos” continua sendo uma boa estratégia de marketing, e o “sucesso” é o circo que se criou em torno de No Mercy, que deu um reconhecimento para a Zerat que talvez ela nunca conseguiria apenas investindo em marketing.

E, em um mundo altamente polarizado, a empresa se destacou para aquele que é o seu público: os redpill, incel e outras pessoas que já foram tão cooptadas por uma filosofia edgy da extrema-direita da internet que acham divertido um jogo sobre estuprar mulheres.

Esse público existe e é numeroso – tanto que, mesmo com toda a polêmica, as reviews de No Mercy na Steam aparecem como “ligeiramente positivas”. E enquanto eles continuam repetindo aquela mentira de que “quem lacra não lucra”, ajudam a manter como verdadeiro uma outra máxima: a de que existe quem compre qualquer merda feita para atacar minorias.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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