[Opinião] Ainda vale a pena gostar de videogames? - Drops de Jogos

[Opinião] Ainda vale a pena gostar de videogames?

Todo dia eu tenho me perguntando se vale a pena continuar dedicando meu tempo e dinheiro para os videogames, e cada vez mais a resposta é não

(Imagem: montagem a partir de foto de DC Studio/Freepik)

Rapaz, eu tô cansado.

Sabe aquele papo de que a gente tem que ser resiliente, porque o objetivo do sistema é colocar tanta coisa em cima dos seus ombros até que você não tenha mais nem forças pra reclamar e aceite tudo de forma cabisbaixa? Então, eu estou nesse estado de que não sei se tenho mais forças.

Junho deveria ser o mês do ano mais “positivo” para nossa relação com os videogames. Afinal, é historicamente o mês em que temos anúncios de grandes títulos, muitas surpresas e a máquina de hype está mais acelerada do que nunca. E junho até que começou dessa forma – mas esse sentimento positivo não durou nem duas semanas.

Pra variar,  já surgiram logo notícias de fechamento de estúdios tanto do Xbox quanto da PlayStation. Inclusive de estúdios que estavam na Summer Game Fest anunciando novos jogos. A Ninja Theory, por exemplo: o novo Senua foi um dos destaques da conferência da Xbox, mas aparentemente eles já sabiam que seriam fechados e a presença no jogo na apresentação era apenas para ser uma vitrine para possíveis interessados em comprar o estúdio.

Junte a isso notícias como a da Kwalee Labs, que desenvolveu o FPS de terror Luna Abys. Apesar de um bom lançamento com recepção bastante positiva, toda a equipe de desenvolvimento do game foi demitida menos de um mês depois do jogo chegar às lojas – um tipo de história que, infelizmente, se torna cada vez mais comum.

Junte a isso a EA criando uma nova forma de colocar propagandas dentro dos jogos. A empresa diz que essas propagandas servirão para aprimorar e não atrapalhar a experiência – mas isso foi um texto escrito por um publicitário, e eu até hoje não conheci um único publicitário que ache que a propaganda não sirva para aprimorar qualquer experiência, mesmo quando ela é usada da forma mais irritante possível.

E, como a cereja de um bolo de cocô, a União Europeia acabou de vez com a esperança de que a iniciativa Stop Killing Games fosse pra frente. Esta iniciativa era uma das poucas coisas positivas que estavam acontecendo no mercado de videogames, e a decisão da UE é um sinal de que as empresas tem todo o direito de sumir com qualquer jogo e tornar ele indisponível para o público quando tiverem vontade.

Antes, a gente até tinha uma esperança de que poderíamos manipular o mercado com nossos bolsos – se não gostamos de algo, é só parar de consumir que esse algo deixa de existir. Mas os recentes investimentos em IA provam que isso também é uma mentira, já que o público nunca foi tão claramente hostil e contrário ao uso de qualquer tecnologia nos videogames como as IAs generativas e LLMs (Large Language Models). E não é uma minoria barulhenta não – todas as pesquisas apontam que a maior parte do público não quer o uso dessas tecnologias dentro dos jogos que consome. Mas isso não impede as grandes desenvolvedoras de continuar investindo nelas e criando estratégias para tentar nos fazer aceitar isso – gostando ou não.

Eu fico me perguntando: qual o sentido de continuar gostando de videogames? Sério mesmo. Se a resposta do mercado para qualquer coisa que o consumidor fala “eu não gosto disso” é um enorme e sonoro “foda-se”, pra que continuar dedicando nosso tempo e dinheiro a essa indústria?

Você pode falar “ah, vai pros indies” e sim, tem muito jogo indie muito legal. Mas não dá pra colocar no ombro dos indies a salvação de tudo. É até cruel querer colocar no ombros deles toda a responsabilidade por salvar a indústria; é tipo falar que o trabalhador 6×1 que ganha salário mínimo deveria ser o grande responsável pelos esforços públicos de acabar com a desigualdade social, enquanto a meia dúzia de bilionários que são os responsáveis por ela continuam ganhando isenção de impostos e linhas de crédito facilitadas com juros zero.

E não, eu não tenho uma resposta pra esse problema. Eu nem quero pensar numa resposta pra esse problema. Eu nem sei se esse problema um dia terá uma resposta. Eu só estou tão cansado de ter diversas forças de mercado tentando me convencer de que aquilo que eu gosto e sinto está errado e que eles é que sabem o que eu deveria gostar e sentir que já estou quase pegando todos os meus videogames e falando pra eles “ah é? Então foda-se! Enfia tudo no cu.”

Porque, de verdade, todo dia eu me pergunto se ainda vale a pena gostar tanto de videogames. E esta semana em especial está bem difícil de pensar em qualquer resposta diferente de um sonoro “NÃO”.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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