Todo ano, alguns do principais dicionários do mundo divulgam quais foram suas “palavras do ano” – palavras que, para eles, ajudam a definir o zeitgeist cultural daquele ano em específico. E as escolhas de 2025 descrevem um retrato de “nihilismo digital” – um sentimento de resignação, descrença e desesperança com a necessidade de se ter uma presença online constante criada pela chamada “economia da atenção”.
Para o Dicionário Macquarie de Inglês Australiano, a palavra do ano de 2025 é “AI slop”. Termo popularizado em 2024 pelo jornalista Casey Newton e o programador Simon Willison, AI slop é uma termo usado para citar conteúdo de baixa qualidade produzidos por inteligências artificiais. No Brasil, esse tipo de conteúdo ficou muito popular no começo deste ano, com o app que usava IA para gerar vídeos curtos de pessoas “abraçando” Jesus (e que quando usado com a imagem de animais domésticos inventava criaturas que pareciam saídas do filme Cats).

(Imagem: reprodução/TikTok)
A principal característica que difere AI slop de outras edições de imagens é que ela não necessita de softwares e habilidades específicas: você só precisa pedir para um chatbot de IA criar ela pra você a partir de uma frase qualquer, não importa o quão bizarra ela seja.
Já para o Dicionário Cambridge, a palavra do ano de 2025 é parasocial. A palavra em si não é nova: criado por sociólogos em 1956, ela é usada para definir a “ilusão” de se ter uma relação de amizade com alguém que você não conhece. Comumente ela é usada para indicar a relação de fãs com seus ídolos do mundo artístico (como cantores, atores e e outras celebridades), mas a escolha dela em 2025 tem a ver com uma nova versão desses relacionamentos parasociais: o das pessoas com chatbots de IA.
Provavelmente você conhece alguém que chama o ChatGPT de “meu amigo Chat” e trata ele com um carinho maior do que o dispensado a muitas pessoas no entorno dela. E isso não é uma forma “irônica” de afeto: muitas pessoas estão desenvolvendo sentimentos e afetos reais para com esses chatbots de IA, e isso é mais uma das várias coisas que podem destruir nossos cérebros e não há como mensurar os impactos futuros na sociedade.
Enquanto isso, para o Dicionário Oxford a palavra que define o ano de 2025 é rage bait. Este termo é usado para identificar postagens online criadas com o único intuito de gerar um sentimento de revolta, permitindo que seus criadores possam colher os frutos do engajamento (normalmente dinheiro pela quantidade de visualizações). Apesar de normalmente expressarem uma opinião “forte” ou “controversa”, ela é feita de forma vazia, já que não há intuito aqui de criar uma discussão real em torno de um tópico. O que se quer é apenas gerar revolta e raiva naqueles que o consomem, e lucrar em cima dos milhões de comentários e compartilhamentos sobre como aquilo “é absurdo”.
A escolha mais controversa – e talvez que melhor expressa 2025 – é a do site Dictionary.com, que escolheu 67 como a palavra do anos de 2025. Gíria criada pela Gen Alpha, ela se popularizou com o hit Doot Doot (6 7) do rapper Skrilla. A escolha é controversa porque ela é uma palavra que não possui um significado – e esse é justamente o objetivo. 67 é usado pelos jovens em contextos de resignação, indicando que algo não tem importância nenhuma e por isso não merece definição ou atençãoC
Com tantas “palavras do ano”, é interessante notar que nenhuma delas vêm acompanhada de um significado positivo. Todas as escolhidas ajudam a definir algumas das nossas piores tendências digitais, e não pintam um quadro futuro de que as coisas irão melhorar.
Você pode até achar que esse artigo é apenas um rage bait, que eu tô confiando em AI slops por aí e que seu relacionamento parasocial com o amigo Chat é mais importante do que qualquer dicionário por aí define como “palavras do ano” ou coisa do gênero. 67.
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

