Por Pedro Zambarda, editor-chefe.

Há um diálogo antes da primeira luta contra um monstrengo vermelho e de tentáculos em Death Stranding 2 On The Beach, Higgs retorna do mundo dos mortos e trava um diálogo inesquecível com o protagonista Sam Porter Bridges. O vilão desmonta as citações ao poeta Kobo Abe que Hideo Kojima meteu no primeiro Death Stranding.
Não é mais sobre paus e cordas, agressões e pacifismo. O vilão dá risada do herói, elencando que é necessário matar algumas pessoas para sobreviver. E ironiza a vida eterna de Sam. Como um repatriado, um experimento da Bridges que possui DOOMs, anomalias que permitem que ele sempre retorne da praia, cruzando a fronteira entre vivos e mortos, nosso herói é incapaz de acabar com sua existência, mas pode sofrer eternamente.
Os vilões da franquia DS brincam com esse conceito. Seu personagem simplesmente não pode ser eliminado, o que em tese tornaria sua jornada mais fácil. Mas o não-morrer se torna nulo considerando que ele perde fôlego, ele pode ser queimado, sujo e subjulgado pelos inimigos.
Sam evita matar inimigos no primeiro game porque o fenômeno do Death Stranding, uma explosão com capacidade nuclear, ocorre pelo rompimento entre o espaço de vivos e mortos. No entanto, após encarar tantos sofrimentos e perdas, muitas situações empurram o protagonista para situações em que é matar ou morrer (sem morrer de fato, o que é pior).
Kojima é um autor tipo pastiche. Ele gosta de imitar a si mesmo. Gosta de copiar modelos de gameplay, de história, de estrutura. Não tem receio de soar clichê. Abusa do brega muitas vezes.
Mas ele acaba ensinando em sua franquia mais autoral que a vida eterna pode ser uma bela porcaria. Especialmente num mundo que inevitavelmente caminha para o fim, embora o imortal Sam Porter Bridges insista em acreditar na humanidade.
Acredita nos homens acima da IA, do mundo apavorante e da desconexão geral.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
