Demolidor: Renascido escancara o problema de politizar a ficção - Drops de Jogos

Demolidor: Renascido escancara o problema de politizar a ficção

Segunda temporada de Demolidor: Renascido faz paralelos com a ICE que abrandam os horrores reais da polícia de Trump.

(Imagem: divulgação/Disney+)

[Atenção: este texto tem spoilers sobre Demolidor: Renascido]

Antes de você ir me xingar nos comentários: não, eu não vou defender aqui que séries de TV/filmes/videogames precisam “esquecer a política” e apenas “trazer histórias interessantes”. Muitas vezes, a história mais interessante está justamente em traçar paralelos claros com acontecimentos reais e trazer uma visão não-neutra desses eventos. Mas o episódio de estreia da segunda temporada de Demolidor: Renascido deixa claro que nem sempre esse tipo de abordagem pode dar certo.

Como esperado, esta temporada começa como uma continuação direta da primeira, com Wilson Fisk – o Rei do Crime – como prefeito eleito da cidade de Nova York. Fisk tem como principal política “limpar as ruas da cidade”. E, como a maioria das iniciativas de “guerra ao crime” reais, ela é apenas um plano para desviar a atenção do público, que passa a focar em um suposto culpado pelos crimes enquanto a administração e o crime organizado operam seus esquemas de corrupção de forma livre por baixo dos panos. E, no plano de Fisk, este culpado são os “vigilantes mascarados” que assolam a cidade: o Demolidor, Homem-Aranha, Luke Cage, Jessica Jones e qualquer outro super-herói que opera na maior cidade dos EUA.

Essa política é operada pela Força Anti-Vigilantes, uma agência que é literalmente um reflexo da ICE, a polícia “particular” de Donald Trump. Assim como a ICE, essa Força não necessita de mandados para invadir casas, de motivos para prender pessoas e nem opera sob a jurisdição de ninguém. Eles têm total autonomia para prender qualquer pessoa que julguem ser (ou colaborar com) um vigilante, e levá-las para locais secretos que ninguém além deles sabe onde ficam e que funcionam como verdadeiros campos de concentração – e tudo isso sem precisar documentar nada das ações, fazendo com que muitos dos presos simplesmente “sumam” do sistema.

Mas apesar do paralelo com a ICE que ultrapassa qualquer subtexto e se torna texto grifado e em negrito, é justamente este paralelo claro que faz com que a “grande ameaça” que é essa Força Anti-Vigilantes pareça algo frágil.

Primeiro porque a comparação com a ICE faz a polícia de Demolidor: Renascido parecer um oponente menos terrível. Claro, a da série é uma polícia formada por ex-policiais que foram expulsos da força por casos de corrupção e uso de violência extrema, mas até o momento a série mostra que eles possuem um inimigo bem claro: vigilantes (e qualquer pessoa que o Fisk precisa caçar). E todos esses alvos são adultos que sabem usar armas ou artes marciais e, mesmo quando derrotados pelo número superior de agentes dessa força especial, oferecem uma “batalha justa” antes de serem capturados (ou mortos).

E ainda que isso seja meio aterrorizante por si só, comparar essas ações com a ICE só mostram como a “polícia do mal” da série poderia ser bem pior. Porque a ICE basicamente ataca e captura qualquer pessoa que tenha um mínimo sinal de que possa ser imigrante. E não vai apenas atrás de adultos que podem resistir à prisão, mas é famosa por prender inclusive crianças tão novas que nem tem o cérebro formado o suficiente para perceberem que estão basicamente sendo raptadas de seus pais.

Ao mesmo tempo, o claro paralelo entre a Força Anti-Vigilantes e a ICE tem ainda uma consequência que talvez não era esperada pelos criadores da série: “abrandar” a imagem da polícia de Trump. Afinal, ainda que use métodos que ignoram qualquer manual de boas condutas, o primeiro episódio da série dá a entender que essa perseguição aos vigilantes está causando uma diminuição da violência nas ruas e trazendo benefícios reais para a população.

Assim, a trama envolvendo a polícia secreta de Fisk pode até parecer uma crítica clara à ICE em um primeiro momento, mas no fim acaba passando uma mensagem de apoio. Afinal, se a polícia secreta da série atinge bons resultados – mesmo que use métodos que todo mundo consegue identificar no mínimo como “problemáticos” – porque somos assim tão críticos com algo que parece fazer a mesma coisa na vida real?

E é aí que está o problema em criar paralelos tão claros entre a realidade e a ficção. Porque assim como a ficção precisa fazer mais lógica do que a realidade, muitas vezes ela também precisa ser menos violenta. E, nesses casos, os criadores acabam – consciente ou não – também abrandando a imagem da ameaça real. E o que poderia ser uma crítica termina como uma peça de propaganda.

Claro, este é apenas o primeiro episódio e é bem possível que, ao longo da temporada, essa trama seja melhor desenvolvida e tal. Mas isso não resolve o problema de que, pelo menos por uma semana, Demolidor: Renascido usou a figura de um herói que abdica de possíveis riquezas e vantagens que poderia conseguir com suas conexões para estar sempre em defesa dos mais oprimidos para fazer uma espécie de “lavagem da imagem” do que hoje é bem possível que seja a agência com poderes de polícia mais opressiva do mundo.

*O primeiro episódios da segunda temporada de Demolidor: Renascido já estão disponíveis no catálogo da Disney+.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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