Por Victor Hidalgo, jornalista e autor do canal na Twitch Camarada Hidalgo. Também no YouTube.
Você sabe o que é talassofobia? Em resumo, é o medo intenso de grandes profundidades. O mar aberto em sua imensidão é um terreno fértil para a nossa mente criar criaturas incompreensíveis que habitam as profundezas do oceano. Em sua casa em R’lyeh, Cthulhu morto espera sonhando. H.P Lovecraft criou o mitos do terror cósmico pensando nessa ideia do medo do desconhecido, de cores inimagináveis para o cérebro humano processar, ângulos impossíveis e o medo do que nos espera na escuridão da última fronteira de exploração do homem. Claro que ele fez tudo isso sendo um grande racista viciado em feijão em lata, o que o levou a morte precoce com um câncer no intestino.

Lovecraft criou um universo de ficção científica e fantasia baseado nos seus próprios preconceitos e medos do desconhecidos. Isso fica muito claro nas suas obras. Outros autores pegaram essas ideias e fizeram obras muito mais interessantes. No cinema, The Thing, de John Carpenter, é um remake de um filme de 1950 que incorpora elementos do terror cósmico e o medo dos estadunidenses na Guerra Fria. O medo irracional do comunismo e de que qualquer um poderia ser um “vermelho”. É um excelente filme e eleva as ideias do comedor de feijão a um patamar que ele não poderia imaginar.

Mas e nos jogos? Bom, temos alguns exemplos de adaptações diretas de obras do Lovecraft como o clássico Call of Cthulhu, que já teve alguns jogos de mesmo nome. E The Sinking City, que é uma continuação espiritual de A Sombra sobre Innsmouth. Mas hoje eu vou falar sobre DREDGE, um jogo de pescaria inspirado em terror lovecraftiano que trabalha com esses elementos clássicos das obras do falecido racista.

Mas antes de começar, quero deixar claro que eu amo as obras do Amorartesanato. Eu li todos os livros que tive acesso na minha escola e consegui comprar na vida adulta um livro com o compilado de todos os seus contos. Isso não me impede de ser crítico com a sua obra e a sua pessoa. E um ponto muito importante para lembrar é: ele está morto. Ele está morto a muito mais tempo do que eu estou vivo. Não tem como ele usar sua influência para prejudicar outras pessoas como a Jair K. Rowling faz hoje com Harry Potter, usando da sua fortuna para atacar os direitos de pessoas trans. Existe um paralelo entre os dois autores que podemos fazer aqui em relação ao medo do desconhecido por pura ignorância. A diferença, novamente, é que um deles está morto. Mas já enrolei demais, vamos para o jogo.

O seu barco afundou. Mesmo com a luz do farol te guiando, as rochas reivindicaram o casco do seu barco para o fundo do mar. Mas boas notícias, a vila de pescadores de Medula Maior está precisando de um novo pescador. Não se preocupe com o que aconteceu com o antigo, agora é o seu trabalho trazer peixe fresco para a população. O prefeito até foi gentil o suficiente para te dar um barquinho novo. Mas não de graça, o seu valor será pago em algumas parcelas enquanto você vende o seu peixe para o peixeiro da cidade.

O objetivo inicial é simples e entra em um loop de gameplay satisfatório: pegue seu barquinho todo ferrado, pesque alguns peixes em águas rasas e volte para vender na vila o que pegou. Os peixes ocupam espaço na carga do seu barco e podem apodrecer se demorar muito para vendê-los. A carga funciona como um jogo de Tetris ou como a maleta do Leon em Resident Evil 4: você tem um número limitado de quadrados para colocar cada carga no seu lugar. E se você danificar o barco, pode perder seus preciosos peixes, recursos ou tesouros no mar. Além do risco de ter os seus motores incapacitados em alguma situação perigosa longe de um estaleiro. Aconteceu algumas vezes comigo, quase todas acabei no fundo do mar.

O recurso que você precisa ficar de olho no começo é o tempo. Como seu barco tem um motor muito fuleiro, ele demora para chegar nos cardumes e voltar para a vila para vender os peixes. Mas com o tempo, você vai juntar pontos de pesquisa para ir desbloqueando novos motores, varas e outros acessórios de pesca para serem adquiridos na carpinteira. No começo do jogo o seu barco mal consegue sair da rota de Medula Maior para Medula Menor, que fica logo a frente. Mas já no final do jogo o seu barco é tão rápido que consegue anular todos os perigos do mar sem preocupações. Eu tive que tomar mais cuidado para não bater em pedras por conta da minha velocidade do que qualquer outra coisa.

Tudo bem normal até aqui. Pelo menos até a neblina cair sobre o mar à noite. Aí as coisas começam a ficar interessantes. Seu personagem tem uma barra de sanidade, digamos assim, representada por um olhinho no topo da tela. Quanto mais vermelho e frenético o olhinho, mais coisas estranhas começam a acontecer. É aqui que começa a parte de terror cósmico do jogo.

Eu estava em alto mar. A luz do meu barco mal conseguia iluminar as rochas a minha frente. Sussurros na escuridão enchem a minha cabine de falas incompreensíveis. À distância, eu avisto outro barco pesqueiro na mesma jornada ingrata de voltar para a vila e vender seus peixes. As luzes do barco chamam minha atenção e resolvo ir em sua direção. Ao chegar mais perto, percebo os movimentos erráticos do barco, impossíveis para uma embarcação fazer. Ela começa a se aproximar de mim, da minha cabine, vejo olhos brilhantes me fitaram da escuridão do mar. Não era um barco, mas uma criatura abissal usando o barco como se fosse um chapéu. Tarde demais, não sou rápido nem resistente o suficiente, num piscar de olhos o meu barco está no fundo do mar.

Esse é um dos primeiros encontros que você pode ter com o sobrenatural neste mundo. Até então, tudo parecia bem normal. Algumas citações aqui ou ali de que o prefeito de Medula Menor enlouqueceu e sumiu, mas até aí nada demais. Após esse encontro eu resolvi não sair para alto mar até ter um motor decente no meu barco, e continuei pescando. Liberei a habilidade de usar covos para pegar caranguejos e aumentei meu lucro exponencialmente. Mas meu barco ainda estava capenga e eu não tinha como pegar os recursos que estavam flutuando no mar.
Uma construção chama a minha atenção numa ilha próxima, uma mansão arruinada. Atraco meu barco e resolvi investigar. Um homem barbudo e de óculos segurando um livro estranho me recepciona. Diz que está procurando algumas relíquias no mar, e se eu o ajudar, pode instalar um equipamento no meu barco para conseguir recuperar esses itens, uma draga. O primeiro é uma chave, e ela está relativamente perto, e após entregá-la o homem, chamado de colecionador, recita algumas palavras do seu livro estranho me concedendo a habilidade de aceleração. Toda relíquia que você encontrar e devolver para ele irá liberar uma nova habilidade que tornará a sua vida mais fácil no jogo.
Em português, DREDGE significa draga. Máquina que serve para tirar do fundo dos rios, mares, lagos, etc., depósitos e entulhos que aí se formam. E tem muita coisa para se retirar do mar, inclusive a história do jogo. Você vai se deparar com alguns personagens que precisam que você faça alguma coisa pra eles. A primeira missão que encontrei foi a de entregar um pacote estranho para um estivador. No dia seguinte do fim da missão o homem tinha se tornado pálido e estranho, não falando nada com nada. Bem, esse é o preço de lidar com forças desconhecidas.
E elas estão agindo neste mundo. Corrompendo as pessoas e os peixes. Em algum momento você vai encontrar uma anomalia. Um peixe mutante que foi afetado pelo o que está afetando o oceano. Ao tentar pescar uma Raia Albina, você pode acabar tirando do fundo do mar um terror inominável como a Raia Deformada. Uma criatura com formato de Raia, mas sua cauda é esquelética como uma espinha dorsal humana e um rosto desfigurado emerge das costas do animal. Um rosto humano em carne viva com uma expressão de profunda agonia.
E todos os peixes no jogo tem pelo menos uma versão deles como anomalia. Pensei que em algum momento isso seria mais relevante no jogo, mas após uma missão com o peixeiro elas se tornam uma fonte maior de renda e um colecionável para concluir a enciclopédia. Esse é um dos pontos da minha crítica ao jogo base de DREDGE. Apesar de encontrar horrores inomináveis no mar, senti falta de algo mais significante envolvendo eles no geral.
Você pode também encontrar garrafas com mensagens dentro e notas que narram um pouco dos acontecimentos passados do jogo. É fundamental a leitura dessas cartas para compreender uma parte da narrativa. Não vou entrar em spoilers, mas a virada no final do jogo foi bem interessante.
No geral, explorar todos os arquipélagos, modificar o barco e descobrir mais da história daquele mundo é uma atividade muito prazerosa. Mas eu queria mais. Apesar da bela arte dos NPCs, suas histórias não são tão envolventes e falta carisma e identidade. E os dois “calabouços” finais do jogo foram longos e chatos demais para mim. Tem muito o que pode ser feito para tornar a exploração de outros biomas interessante, mas para mim o jogo falhou nesses dois em específico.
Mas no final, fica minha recomendação para o jogo base de DREDGE. Tem elementos que podem melhorar, e acredito que melhoraram nas últimas duas expansões, mas ainda faltou para mim que mais partes do jogo se comunicassem entre si de uma forma narrativa interessante. Mas no final, tudo vale a pena. Esses pequenos problemas não comprometem a experiência do jogo, que está 100% traduzido para português.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
