[Emmy 2025] O Ensaio e o hiperfoco como elemento narrativo - Drops de Jogos

[Emmy 2025] O Ensaio e o hiperfoco como elemento narrativo

Na segunda temporada de O Ensaio, o “método Fielder” oferece um espetáculo único em meio a muita burocracia sobre a aviação civil dos EUA.

(Imagem: divulgação/HBO)

[Atenção: este texto pode conter alguns spoilers sobre a série O Ensaio]

Primeiro, eu devo admitir que não curti a primeira temporada de O Ensaio. Mas, ironicamente, achei a segunda temporada dela uma das coisas mais geniais que já vi na TV.

Se você nunca ouviu falar dessa série, O Ensaio é uma criação do comediante Nathan Fielder que leva para a TV um conceito meio “autista” de arte (sim, eu sei que aqui isso parece algo meio capacitista, mas eu explico o porquê desse termo no próximo parágrafo). Fielder se identifica como alguém que “pensa demais”, que antes de fazer qualquer coisa imagina todos os cenários possíveis, e ele achou que seria interessante transformar esses cenários em situações reais e “ensaiar” todas as minúcias antes de fazer algo na vida real.

Eu chamo este conceito de “arte autista” como uma ligação direta a um dos momentos mais viscerais da segunda temporada da série. Em um dos episódios, Fielder tentar usar influência como uma “pessoa de renome” na comunidade autista (que se viu refletida na primeira temporada da série) para tentar entrar em contato com Steve Cohen, um membro do Congresso dos EUA. E é numa conversa com uma psicóloga da CARD (sigla em inglês de “Centro para Autismo e outras Desordens Associadas”) que ele percebe que esse tipo de comportamento, de passar literalmente todos os cenários possíveis pela cabeça antes de fazer qualquer coisa, não é algo “comum” que acontece com todas as pessoas, mas sim um sinal de neuroatipicidade.

Voltando para a primeira temporada, talvez o que tenha feito a comunidade autista abraçar a série seja o mesmo motivo de eu não ter gostado dela: tudo parecia “pequeno” demais. Cada episódio era uma história e, apesar de achar o conceito de ensaios interessante, não conseguia me interessar por nenhuma das situações mostradas.

Isso muda na segunda temporada, que tem um objetivo muito específico: a aviação civil. Ou, melhor dizendo, tentar resolver aquilo que Fielder diz ter identificado como a principal causa de acidentes com aviões em todo o mundo: a falta de comunicação entre piloto e co-piloto.

E é justamente neste cenário definido que o “método de hiperfoco” de Fielder mais se destaca. Entre sets que recriam de igual para igual um ambiente de aeroporto até a reencenação de toda a vida de um piloto que conseguiu salvar seus passageiros por ter uma boa comunicação e relação de confiança com seu co-piloto, o “método Fielder” aplicado para um único propósito ajuda a tornar a segunda temporada de O Ensaio algo único na história da TV.

Em diversos momentos, a estrutura dos episódios remete a um documentário – principalmente nas partes mais “sérias”, como nas conversas com especialistas, discussões sobre procedimentos e estudos de documentos oficiais. Ao mesmo tempo, há no meio de tudo uma comédia baseada no absurdo que permeia todos esses momentos extremamente sérios e importantes. E é por essa dicotomia toda que O Ensaio é um exemplo único de TV.

Como o próprio Fielder aponta várias vezes ao longo da temporada, ele recebeu uma montanha de dinheiro da HBO e a liberdade para fazer o que quiser, desde que o resultado fosse interessante de assistir. Mas o que ele queria fazer mesmo era estudar formas de facilitar a comunicação entre piloto e co-piloto para ajudar a diminuir o número de acidentes envolvendo aviões – e ele sabia que isso não é algo divertido de assistir.

Para a surpresa de qualquer um, o produto final consegue fazer ambos. O Ensaio levanta pontos altamente importantes para a aviação civil – principalmente ao expor o paradoxo que existe entre as campanhas feitas pelas empresas sobre a importância da saúde mental para seus pilotos e as regras da Força Aérea Americana que anula o brevê de qualquer piloto que procure a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra – ao mesmo tempo que consegue ser altamente divertido de se assistir.

Ainda que O Ensaio sempre tenha sido um exercício televisivo de hiperfoco, a escolha da segunda temporada em “hiperfocar” num único tema o torna muito mais prazeroso de se assistir. Há mais tempo para entender as motivações por trás de cada abordagem, se identificar com personagens e compreender o “método Fielder” não apenas como um novo conceito de fazer comédia, mas também uma aproximação do funcionamento da mente de um neuroatípico.

Ele vai te fazer rir, chorar, sentir raiva, ficar indignado. Mas, acima de tudo, vai te fazer entender exatamente o motivo e a importância que existe em cada mínima coisa que é feita, por mais absurda que ela possa parecer. E, mesmo que você não entenda absolutamente nada sobre aviação, vai sair totalmente convencido de que Fielder realmente descobriu a principal causa de acidentes aéreos no mundo – e ainda mais certo de que ninguém vai fazer nada de verdade para consertar isso.

O Ensaio está disponível no catálogo da HBO Max.

Outros textos sobre as séries que disputarão o Emmy no dia 14/09:

Veja nossa campanha de financiamento coletivo, nosso crowdfunding.

Conheça os canais do Drops de Jogos no YouTube, no Facebook, na Twitch, no TikTok e no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments