[Atenção: este texto pode conter alguns spoilers sobre a série O Estúdio]
Poucas são as séries de TV que dialogam com a realidade. Menos ainda aquelas que dialogam com a realidade da rotina das produções Hollywoodianas. E nenhum dos dois é um problema encontrado em O Estúdio.
A série da Apple TV+ é, ao mesmo tempo, muito fácil e muito complicada de explicar. Fácil porque a trama central dela é muito simples: executivo de Hollywood alcança cargo mais alto de estúdio e precisa aprovar em projetos que garantam o sucesso financeiro da empresa ao mesmo tempo que o ajudem a deixar uma marca na história da indústria. Difícil porque explicar como esses dois objetivos são diametralmente opostos não é das tarefas mais simples.
Matt Remick, o protagonista interpretado por Seth Rogen, é o tipo de executivo que quem acompanha publicações como Variety, Hollywood Reporter e The Town está cansado de ver: alguém que se diz cinéfilo, que está na indústria pelo amor à arte, mas que aposta todas as fichas do estúdio num filme de “super-heróis”.
Em O Estúdio, a melhor caracterização do que é o momento atual da indústria de cinema é o filme do Kool-Aid Man (mascote oficial da marca de sucos que é conhecida aqui no Brasil como “Ki-Suco”). Ele é um representante do momento atual do cinema, onde todo filme tem que estar ligado a um “IP” – basicamente uma marca ou personagem conhecido. Filmes de super-heróis, adaptações de videogame, filmes baseados em brinquedos…tudo isso é o que chamamos de “cultura IP”.
Ao mesmo tempo que Matt é um exemplo dos ~vilões~ que estão matando a indústria criativa aos poucos, ele também é um personagem muito identificável. Porque ele realmente é alguém que entrou na indústria por amor, mas que se sente obrigado a tomar decisões que vão contra seus princípios morais por causa do dinheiro. Assim, apesar de ocupar o mais alto cargo executivo de um grande estúdio de cinema, Matt muitas vezes está na mesma posição de um trabalhador comum: a de engolir o orgulho e aceitar as ordens que vêm de cima.
E essas ordens normalmente vêm de Griffin Mill, CEO da Continental Studios interpretado por Bryan Cranston. Ele é uma espécie de caricatura/espelho de um clássico CEO dentro da indústria criativa – ou seja, alguém que não conhece nada daquela indústria, não possui um único fio de talento para a arte (ou mesmo consegue compreender o que é arte), mas que tem poder de veto e toma todas as decisões finais por ser quem possui o dinheiro pra financiar tudo.
Mill é uma caricatura do CEO “padrão” porque ele pouco se importa com conceitos como “visão artística”, “liberdade criativa” ou “qualidade”. Ele tem apenas um único objetivo: fazer filmes que irão agradar o maior número de pessoas possível, pelo menor preço possível, para conseguir o maior lucro possível. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que é uma caricatura de um CEO movido pela ganância, ele também é um espelho perfeito de muitas pessoas que assinam os cheques na indústria criativa.

(Imagem: divulgação/AppleTV+)
No seu âmago, O Estúdio é uma comédia sobre como a ganância e o ego movem e destroem Hollywood – e de como isso é um ciclo vicioso que possivelmente só chegará ao fim quando esta indústria não existir mais. A ganância de Mill é a responsável pelo estúdio investir rios de dinheiro em um projeto controverso como um filme do Kool-Aid Man, mas seu ego o faz bancar todos os outros filmes menores que ajudam o estúdio a marcar presença em algumas das mais prestigiadas premiações da indústria. A ganância de Remick o impede de se impor contra os desmandos de Mill, mas é seu ego que o mantém preocupado em também investir o que pode em projetos que não necessariamente darão lucro mas possuem uma visão artística definida.
Esse mesmo ciclo de ganância e ego pode ser visto como o que move as engrenagens de todos os personagens, desde aqueles que fazem parte do elenco principal quanto das participações especiais. E o que não faltam são participações especiais incríveis – a maioria delas de grandes nomes de Hollywood interpretando eles mesmos. Desde lendas do cinema como Martin Scorcese, Steve Buscemi e Ron Howard, grandes nomes do momento (como Charlize Theron, Anthony Mackie, Adam Scott e Zoë Kravitz) e até nomes mais “controversos” da indústria (como Olivia Wilde e Zach Snyder), o mundo em The Studio é povoado de uma forma que tudo se parece mesmo com as conversas e decisões que são tomadas nos bastidores da indústria. E quando tudo é tão surreal e, muitas vezes, de uma burrice em seu estado mais puro, é difícil não achar que esta série de comédia não poderia ser um documentário sobre qualquer grande estúdio de cinema.
O Estúdio chega como uma das favoritas a levar todas as principais estatuetas do Emmy, e seria irônico se ela realmente ganhasse tudo. Afinal, Seth Rogen nunca foi visto de forma séria pela indústria em quase três décadas trabalhando como ator, roteirista, produtor e diretor. Seria extremamente irônico ele finalmente ter esse reconhecimento justamente quando resolve mostrar como os bastidores de tudo isso é uma enorme bagunça que ninguém deveria levar a sério.
O Estúdio está disponível no catálogo da Apple TV+.
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

