Por Pedro Zambarda, editor-chefe. Originalmente publicado na Folha TV.
Continuando seu livro Sem Medo do Futuro, Guilherme Boulos lançou em 2025 o livro Pra Onde Vai a Esquerda, um pequeno texto com capa vermelha e 140 páginas que passam voando. Dedicado à esposa Natalia Szermeta Boulos, hoje pré-candidata a deputada pelo PSOL, o pequeno livro vermelho de Boulos parece um manual ideológico do político líder do MTST.
É publicado pela editora Contracorrente, que tem uma parceria de cupons com o canal Folha TV.
O livro é dividido em quatro grandes capítulos: “A Ofensiva da Extrema Direita”, “Governo Lula Sob Cerco”, “Guerra Cultural” e “Pra Onde Vai A Esquerda”, com notas na traseira de Dilma Rousseff, Erika Hilton e Frei Betto.
De cara, importante frisar que Boulos aplica uma escrita simples mas não simplificadora. Ele traz um cabedal teórico rigoroso para entender a manifestação do fascismo no século 21 como um prolongamento das ideologias neoliberais de Thatcher e de Reagan desde os anos 1980, bem como os perigos do imperialismo estadunidense. Explica a singularidade de uma liderança sindical como Lula chegar em seu terceiro mandato vencendo a extrema direita de Jair Bolsonaro.
E bebendo de fontes como Thomas Piketty, sobretudo para explicar a desigualdade econômica, e do pesquisador João Cezar de Castro Rocha, Guilherme Boulos explica no detalhe a expansão da internet, a ascensão das redes sociais desde o Facebook e chega a citar o livro Como As Democracias Morrem para abordar Trump e o trumpismo. Aponta como a linguagem fascista contaminou os jovens no Breitbart News, que se baseou no escândalo do Gamergate, e traça a situação complicada da esquerda no seu iletramento tecnológico.
Com o aprofundamento da rede online e da inteligência artificial, a IA, Boulos aponta os perigos da “psicologia de guerra” das “criaturas do algoritmo”, dando um beabá do extremismo que contaminou os eleitores brasileiros sem cair em chavões fáceis como a “polarização”.
Expansão de uma entrevista à Folha de S.Paulo
Para a jornalista Mônica Bergamo, na Folha, Boulos contou que a “esquerda virar centro” é “suicídio”. Foi um balanço da sua segunda derrota para a prefeitura de São Paulo diante de Ricardo Nunes, do MDB impulsionado por Jair Bolsonaro, e com o impacto da campanha do extremista Pablo Marçal. Esse livro vermelho parece aprofundar essa problemática.
Guilherme Boulos aponta dois equívocos da esquerda no atual cenário: A esquerda que busca apenas ser centrista, sacrificando a luta pelo socialismo, por moradia (como o MTST) e pelos pobres, e a esquerda sectária, que busca apenas o socialismo e a revolução sem nenhum acordo. Para Boulos, os dois caminhos são falácias. O primeiro porque é o suicídio de fato. O segundo caminho porque não se comunica com o pobre uberizado que está dentro da ideologia do empreendedorismo. Boulos não prega o centrismo, mas aponta uma esquerda que seja mutável entre a sua ideologia e a prática.
Somando ao livro que aborda o Núcleo de Tecnologia do MTST, que conectou as Cozinhas Solidárias, o maior projeto de Boulos enquanto deputado e antes de ser ministro da Secretaria-Geral da Presidência de Lula, Pra Onde Vai a Esquerda é a obra que ajuda a entender o pensamento dessa liderança.
Guilherme Boulos poderá ser o novo Lula? Cedo para dizer. Seu livro, no entanto, mostra densidade de pensamento, análise precisa de conjuntura e estofo teórico.
Uma queixa que faço: Boulos aponta o Instituto Conhecimento Liberta, o ICL, e a Mídia Ninja, como exemplos de comunicação de esquerda efetivos, que podem encarar as mentiras de extrema direita.

Faltou detalhar mais a comunicação – citando mais veículos para estudá-los – um dos problemas que o socialismo enfrenta diante das big techs ultracapitalistas online.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
