Gamer Theory, de McKenzie Wark, busca pensar jogos enquanto jogos - mas tecendo correlações - Drops de Jogos

Gamer Theory, de McKenzie Wark, busca pensar jogos enquanto jogos – mas tecendo correlações

Um livro para ficar de olho (infelizmente ainda em inglês)

Por Pedro Zambarda, editor-chefe.

Lançado em 2007 pela escritora trans McKenzie Wark, acadêmica da Nova York University, Gamer Theory é um livro de 230 páginas em inglês que aborda games enquanto games. No entanto, ao desenvolver o potencial dos jogos eletrônicos, ele também traça correlações na linha dos Estudos Culturais (dos anos 1950 e 60).

E segue também na tradição da Escola de Frankfurt, citando Adorno.

Infelizmente o texto ainda não tem tradução em p0rtuguês. “A teoria gamer não é sobre assimilar a singularidade dos videogames, ou atrelá-los às outras formas de mídia (literatura ou cinema), mas sim de elencar as diferenças dessas formas para algo que conversa com as mudanças na estrutura das relações sociais e técnicas. O formato de um game digital é uma alegoria de uma forma de existir”.

“Games são nossos contemporâneos, a forma como o presente pode ser sentido e, ao ser percebido, ele também é pensado. Nesse viés privilegiado, toda a cultura histórica pode ser repensada. Não é uma questão de adicionar games na ponta final da história das formas de conhecimento, mas de repensar toda a cultura histórica depois de um game digital”.

“Jogar pode ser algo impensável, sem uma reflexão tradicional, mas essa experiência tem uma história, e essa história é travestida de formas culturais e da forma histórica do ser. Para se aproximar disso, pensar nessa categoria impensável de jogar, deve-se jogar e ir contra a linguagem. Teoria gamer convoca conceitos que, no universo familiar dos jogos digitais, o tornam estranhos de novo”.

A autora divide a obra em 11 capítulos, sendo nove deles elaborando um conceito e um game. Temos Agonia com o game The Cave, Alegoria com The Sims, América com Civlization III, Analogia com Katamari Damacy, Batalha em Rez, Tédio com State of Emergency, Complexidade em Deus Ex e Conclusões em SimEarth.

O capítulo que desenvolve Atopa com GTA Vice City ajuda a explica o sucesso do game de um criminoso ambientado em filmes de máfia como Scarface. Grand Theft Auto é, acima de tudo, uma experiência sensorial e interpretativa.

Mckenzie Wark precisou andar para Jason Schreier correr

A estrutura do livro lembra Blood, Sweat, and Pixels, do jornalista investigativo Jason Schreier, de 2017. Wark faz um trabalho acadêmico separado por títulos de videogame. Schreier publica reportagens separadas de jogos em capítulos para explicar estúdios de diferentes tamanhos, os independentes e o processo abusivo de retrabalho na indústria – o que culminaria no seu estudo marcante sobre crunch.

Gamer Theory tem muito pouco do estereótipo dos gamers que estamos acostunados a ver. A autora publicou Hacker Manifesto em 2004, criticando a mercantilização da informação. Mantém a tradição marxista, esquerdista e aprofundada em referências, neste trabalho de 2007.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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