Por Victor Hidalgo, jornalista e autor do canal na Twitch Camarada Hidalgo. Também no YouTube.
Eu não conheço Yarden Weissbrot, desenvolvedor israelense de Grime e Grime II, do estúdio independente Clover Bite. Eu não sei quais suas políticas, não sei sobre o que ele pensa da questão da Palestina e o genocídio em curso feito pelo estado de Israel. Também não sei a opinião dele sobre os ataques no sul do Líbano, que nos últimos dias vitimou uma família de brasileiros. Suas redes, pelo o que pude ver, falam da sua arte.
No Twitter, elogiou o trabalho das desenvolvedoras de Unsighted, e achou uma pena mais pessoas não conhecerem o metroidvania brasileiro. E eu concordo, mais pessoas deveriam conhecer o trabalho do Studio Pixel Punk.
Mas ele é um artista. A obra deve falar por ele, ser interpretada. Qual a mensagem que está sendo passada? No final, vai da interpretação de cada um. A obra já não é mais dele no momento que sai de suas mãos, que é um tema recorrente em Grime II. É uma experiência de entrar na tela de um pintor e ver suas obras se mexendo. E a forma de interagir com essa pintura é através da violência, o mundo é seu para consumir. E existe uma voz dentro de você justificando todas as suas ações.
Você encontra personagens que estão em busca de um pouco mais de fôlego, o sopro de vida dado àquelas obras. Eles parecem pessoas, mas são imperfeitos. Diferente de você, eles são apenas caça. Obstáculos no caminho do seu objetivo que é… você não sabe. Mas se sente bem em matar e ficar mais forte a cada inimigo derrotado. Seu corpo é feito de mãos, literalmente, até mesmo sua cabeça. Seu rosto parece ser coberto por duas palmas que escondem os seus olhos dos horrores que está cometendo. Dentro de você essa voz continua dizendo que as pessoas que você encontra são apenas pedaços de carne para serem consumidos.

O jogo convida o jogador a fazer uma reflexão sobre como ele enxerga aquele mundo. Você pode simplesmente ignorar todos os diálogos importantes escolhendo a opção que diz algo como “não tenho tempo pra isso” ou “eu não me importo”, ou pode se engajar com a história daquele mundo e conhecer a cultura de cada pedaço dele. E ele segue nesse questionamento até o final: suas ações foram suas ou alguém guiou a sua mão?

No começo da história você encontra o personagem Manzil. Vendo que você literalmente nasceu ontem, ele te dá um propósito: vingança. Não existe um questionamento aqui sobre a motivação, só que esse personagem, Goel, é horrível e todos os seus atos são justificáveis para chegar até ele.

O primeiro jogo foi lançado em 2021 e eu não joguei. Mas o segundo carrega todo o impacto histórico dos últimos anos, com a destruição da faixa de Gaza por Israel e o massacre do povo palestino. Não tem como fugir ou esconder esse fato. E eu realmente acredito que o autor colocou um pouco disso na sua história para retratar o ambiente no qual ele cresceu e suas experiências nos últimos anos.

Falando puramente de gameplay, Grime II é um metroidvania com elementos de RPG de ação. Ao explorar os mapas você vai encontrar caminhos e obstáculos que só podem ser vencidos após adquirir alguma habilidade especial. A primeira que você consegue é um braço de tinta ativado pelo analógico direito que é utilizado para agarrar objetos e destruir barreiras.

Conforme você vai vencendo alguns inimigos, eles dão uma brecha para o seu personagem dar uma investida e absorver o molde dele, que vai funcionar como uma invocação de ataque que gasta o seu recurso de tinta quando invocada. Confesso que usei pouco essa mecânica e achei que ela poderia ter conversado melhor com a exploração dos biomas disponíveis nos mapas.
E a seu dispor existe um vasto arsenal de diversas armas. Algumas podem ser encontradas nos mapas conforme você explora, e outras compradas com alguns NPCs. Todas tem um ataque especial que pode ser usado após carregar uma barra ao atacar os inimigos. Eu investi os meus níveis em destreza e vida, para que armas como adagas fossem mais eficazes.
Você também tem acesso a um bom catálogo de armaduras diferentes para usar. Cada set completo dá um bônus passivo para o seu personagem quando equipado. E se você não gostar do visual de alguma delas, ele te dá a opção de colocar um set de armadura como principal e o outro como cosmético, aumentando a personalização de cada jogador.
Mas dito isso, eu acabei usando a mesma armadura o jogo inteiro. Um conjunto que dá uma habilidade passiva de causar mais dano ao inimigo com a guarda aberta. Todas as outras que eu encontrei não pareciam ter para mim, e meu estilo de jogo, um incentivo maior para fazer a troca. Cada armadura nova virou apenas um cosmético.
E eu não gostei de como o jogo te apresenta esses achados. Eles meio que estão jogados ao redor do mundo sem muita coisa por trás deles. Parece que estão lá só para você ter algum incentivo para explorar. Senti falta de algo como um corpo vestindo uma das armaduras e você tendo que interagir com ele para conseguir pegá-la.
Outra coisa que me incomodou foi o movimento travado do seu personagem, além da lentidão. Faltou fluidez na animação, ele parece um bonecão todo travado e sem carisma. Chegando próximo do final do jogo, eu já estava exausto de estar dentro daquele mundo que não parecia ter fim. Tudo isso enquanto controlava um tijolo com pernas. Não tive nem vontade de enfrentar todos os chefes, eu só queria que acabasse logo.
Todos os meus pontos de crítica podem ser resolvidos com a próxima grande atualização que o jogo deve receber em breve. É uma recomendação difícil para eu fazer, levando em consideração tudo em volta desse jogo. Vale a pena esperar mais um pouco antes de dar uma chance para ele.

Eu não conheço Yarden Weissbrot. Mas ao terminar Grime II, posso dizer que entendo um pouco melhor o seu coração.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
