Por Pedro Zambarda, editor-chefe. CONTÉM SPOILERS.
Chloé Zhao, nascida Zhao Ting em Pequim, na China, fez Eternos com a Marvel, o que não é exatamente um sucesso, e está conduzindo uma nova versão de Buffy. Mas é em Hamnet, uma história baseada no escritor clássico inglês William Shakespeare e seu drama pessoa, que Zhao deve ganhar as maiores premiações nos Estados Unidos.
O filme pode provocar uma nova injustiça para O Agente Secreto e o Brasil, que já perdeu Oscar para Shakespeare Apaixonado, uma produção que francamente não merecia tudo o que recebeu.
Mas Hamnet é diferente disso e elenco alguns dos principais motivos.
Baseado em um romance
Longa é baseado no romance best-seller de Maggie O’Farrell de 2020, que destrincha, de forma ficcional, as origens do clássico literário e do teatro Hamlet. Farrel conta a história de como Shakespeare perdeu um filho, chamado Hamnet, provavelmente para a peste bulbônica que assolou a Inglaterra.
O livro faz algumas mudanças em relação aos dados biográficos de William Shakespeare, trocando o nome de sua esposa Anne Hathaway para Agnes.
Mas a alma shakespeariana está nas páginas. E o filme dá um belo turbo na adaptação.
É um filme sobre dor
Não se engane nos primeiros minutos, com a calmaria da ambientação e o momento em que Agnes conhece seu marido. O homem logo conta a ela a lenda grega de Orfeu e como ele foi para o submundo para recuperar a mulher amada, sendo condenado a perdê-la na trajetória de ascensão.
Agnes fica rapidamente grávida de uma menina e depois têm os gêmeos Judith e Hamnet. É Judith quem fica doente e é Hamnet que pede para ter a vida trocada pela da irmã. E o filme não nos poupa de ver uma criança em contorção e morte, explicitando toda a potência de vida, beirando a bruxaria nas más línguas de um Reino Unido dos anos 1600, de Agnes. É toda a potência feminina, interiorana e da floresta na personagem – interpretada brilhantemente pela irlandesa Jessie Buckley.
É nesse contexto, muito mais apagado, que surge o ator também irlandês Paul Colm Michael Mescal. Shakespeare não é chamado de Shakespeare de cara. É Will que força os atores darem sua alma no sofrimento de um certo príncipe da Dinamarca em cena.
E quando a peça enfim é encenada, Agnes enxerga em William Shakespeare toda a sua for pela perda de um filho ainda criança.
Enxerga toda a dor de um pai ausente, mas que sofre ao encarar os textos. E que transforma esses sentimentos turbulentos em prazer, em êxtase e em espetáculo diante das multidões.

Difícil que um filme desses, bem tradicional, mas absurdamente desenvolvido por uma diretora chinesa, não leve muitos Oscars.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.
